Refém
da crise
A
"agenda positiva" inventada pelo governo
para escapar da crise é o maior sinal de que
Brasília está
sentindo o peso da situação

Eduardo
Oinegue
Ricardo Stuckert
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SITUAÇÃO
SURPREENDENTE
O Palácio de FHC está acuado num momento em que a economia apresenta
francos sinais de recuperação |
Quase
todos os presidentes conhecem pontos baixos em sua trajetória,
e isso é um movimento clássico das marés políticas.
O paradoxal no caso de Fernando Henrique Cardoso está no
fato de que essa crise, além de menos aguda do que as sofridas
por outros presidentes, não se baseia em algum tipo de desgraça
incontornável. De um lado, o país não parece
propenso a acreditar que seu presidente seja pessoalmente um homem
desonesto. Se até agora nada se provou contra o pivô
da crise, o ex-secretário-geral da Presidência, Eduardo
Jorge Caldas Pereira, muito menos se pode alegar contra o comportamento
do presidente no episódio do Tribunal Regional do Trabalho
de São Paulo. É também surpreendente que o
Palácio do Planalto se veja acuado num momento de franca
recuperação econômica, depois do terremoto que
o Brasil experimentou a partir de 1997, com a crise da Ásia,
culminando na desvalorização do real no princípio
do ano passado. Assim, é de perguntar, afinal, que crise
é essa?
Reuters
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O
SHOW DO EX-ASSESSOR
Eduardo Jorge não deixou nenhuma pergunta sem resposta em quase
oito horas de depoimento no Senado |
Wilson Pedroso/AE
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A
CAÇA AOS PECADORES
Ao se portar como franco- atirador, o procurador Luiz Francisco
é hoje o homem mais odiado pelos poderosos de Brasília |
Dida Sampaio/AE
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TASSO
ENTRA NA DISPUTA
Candidatura do governador cearense ganha força no rastro da
crise que abateu candidatos ligados ao governo |
Em primeiro lugar, é preciso indagar se a crise existe de
fato ou seria apenas o resultado da histeria da mídia e da
oposição na sua conhecida volúpia pelas más
notícias. Uma coisa ainda incerta é a dimensão
do problema e o desdobramento que terá. Outra, esta certa,
é que o próprio governo tem passado à opinião
pública um atestado diário de que leva a sério
a deterioração de sua popularidade e credibilidade,
que nunca chegaram tão perto do chão. Num primeiro
momento, o Palácio do Planalto se encolheu como um tucano
molhado. Depois, entrou numa atividade febril, como se a desconfiança
da sociedade fosse o elemento que faltava para fazê-lo governar.
Num período de poucos dias, Brasília decretou um congelamento
no preço dos remédios, liberou 11,5 bilhões
de reais para programas sociais nos Estados pobres e divulgou um
plano nacional contra a criminalidade. Mandou para o Congresso uma
reforma tributária pífia e requentada. Por
fim, ainda acenou com uma reforma ministerial. Se ainda restava
alguma dúvida sobre o teor publicitário das ações
governamentais, ela se desvaneceu quando FHC em pessoa apareceu
sobrevoando áreas alagadas do Nordeste, que fizeram dezenas
de vítimas. Nunca antes, em dois mandatos, o presidente se
prestara a visitar vítimas de tragédias, nem mesmo
do alto, apesar de muito criticado por seu alheamento.
Efeito
cômico Como se sabe, a hiperatividade é
uma das evidências mais comuns de que um governo se sente
acuado. "Quando a discussão chega a esse ponto, o da agenda
positiva, nós, da oposição, já aprendemos.
A crise está pior do que se poderia suspeitar", afirma o
deputado José Genoíno, do PT de São Paulo.
Com seus factóides, o governo tentou reverter a pauta das
discussões, que anda desfavorável a FHC. Pois bem:
nenhuma das ações de impacto teve a repercussão
que o Planalto esperava.
Ao
contrário, algumas resvalaram para o efeito cômico.
Na quarta-feira passada, os representantes da indústria,
do comércio, da agricultura e das finanças prestaram
solidariedade a FHC num manifesto. Dizem os empresários no
documento que o Brasil está indo no caminho certo em matéria
de desenvolvimento econômico. E que o presidente Fernando
Henrique Cardoso, por sua biografia, "merece a confiança
e o respeito de todos". O primeiro efeito negativo desse manifesto
foi deixar patente que as classes produtoras estavam tentando passar
um atestado de honestidade ao presidente da República, como
se ele estivesse precisando desse aval. Em sua coluna de sexta-feira,
em O Estado de S. Paulo, Luis Fernando Verissimo descreveu
com sua adaga de humorista o pânico da Velhinha de Taubaté,
aquela que acredita piamente em tudo que diz o governo. "Onde está
minha camomila?", reagiu a Velhinha. "Ela jamais havia sonhado que
houvesse qualquer suspeita envolvendo o presidente até ler
a nota, pois se não houvesse suspeita por que a nota?", escreve
Verissimo.
Joedson Alves/AE
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O
GOVERNO EM "AÇÃO POSITIVA"
O Palácio anuncia um pacote de medidas para escapar da
crise: Fernando Henrique foi sobrevoar as enchentes no
Nordeste, o ministro Pedro Malan remeteu o projeto de
Reforma Tributária ao Congresso Nacional, o Ministério
da Justiça lançou um plano de combate à criminalidade
e o Palácio do Planalto liberou 11 bilhões de reais para
programas antipobreza |
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Ana Carolina Fernandes/Folha
Imagem
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Dida Sampaio/AE
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O
fato mais notado em relação a esse manifesto, no entanto,
foi a ausência da poderosa Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp), que agrega 127 sindicatos
e mais de 100.000 indústrias, uma massa produtora responsável
por 40% do produto interno bruto (PIB) brasileiro. Em uma operação
desastrada, os autores da carta incluíram o nome da Fiesp,
mas o presidente da entidade só foi avisado na última
hora e discordava do texto publicado. Horácio Lafer Piva
acha que há várias questões mal administradas
no governo, como o andamento das reformas e a altura da taxa de
juros, entre outras. Acrescenta que os empresários não
vêm manifestando dúvidas sobre a honestidade de Fernando
Henrique e, portanto, não haveria razão para assinar
o manifesto. Resultado: a carta teve de ser alterada quando já
estava nos jornais, pronta para ser impressa. À Confederação
Nacional dos Transportes (CNT), que aparece como signatária
do manifesto, faltou a mesma rapidez. Na mesma quarta-feira, a CNT
divulgou uma nota dizendo que não conhecia o texto publicado
e não autorizara o uso de seu nome.
Na quinta-feira, pela primeira vez em muitos dias, a situação
melhorou com o inesperado bom desempenho no Senado do ex-assessor
Eduardo Jorge, que ali compareceu para explicar sua relação
suspeita com o juiz Nicolau dos Santos Neto, em torno do desvio
de verbas na construção do Tribunal Regional do Trabalho
de São Paulo. Com respostas precisas e explicação
para tudo que lhe perguntaram, Eduardo Jorge massacrou os senadores
que tentaram acuá-lo. Respostas convincentes não indicam
necessariamente que um interrogado esteja contando tudo. No caso
de Eduardo Jorge, o que ressaltou foi a distância entre sua
precisão e o desempenho patético de alguns senadores
da bancada oposicionista, que pareciam não saber do que falavam.
Celso Apolinário
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Salomon Cytrynovicz
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OPOSIÇÃO
FAZ ORDEM-UNIDA
Logo
após a explosão no Riocentro, em 1981, Figueiredo
viu-se em meio a uma crise político-militar. Para
fortalecê-lo, aconteceu o inimaginável: a oposição
(à dir.) cerrou fileiras em torno do general-presidente
|
O
ex-secretário-geral da Presidência obteve uma vitória
localizada, exatamente como o governo. Ele saiu do Senado bem melhor
do que entrou. O problema é que não conseguiu dissipar
toda a desconfiança que cresceu em torno dele desde que começaram
a vir à tona suas freqüentes conversas telefônicas
com o juiz Nicolau dos Santos Neto e a amizade que há muitos
anos o une ao ex-senador Luiz Estevão, o outro principal
envolvido no escândalo do TRT. A boa atuação
de Eduardo Jorge no Senado dá alívio ao governo e
joga em ponto morto a idéia da criação de uma
CPI para aprofundar as investigações. Resta saber
se terá peso suficiente para reverter o humor da opinião
pública, que anda desfavorável ao governo.
"Caveira
de burro" O segundo mandato do presidente Fernando Henrique
Cardoso começou sob o impacto de uma crise econômica
mundial. Essa crise nada tinha a ver com FHC diretamente, mas autorizava
previsões pessimistas sobre o desenrolar de seu segundo período
no Planalto. As reservas internacionais eram corroídas ao
ritmo de 500 milhões de dólares ao dia, apesar de
os juros estarem sendo mantidos no patamar de 50% ao ano. Falava-se
em pacotes de enxugamento de despesas governamentais até
mesmo nas áreas da educação e saúde.
Demorou um pouco, mas o desarranjo econômico passou. Agora,
as empresas, tanto nacionais quanto estrangeiras, estão investindo
na produção num volume muito maior do que antes. Noticiou-se,
na semana passada, que a produção industrial do primeiro
semestre foi a maior dos últimos 25 anos. As exportações
aumentaram, os juros caíram, a inadimplência está
em queda e o desemprego, vilão dos últimos anos, sofrerá
um golpe ali na frente.
Ed Ferreira/AE
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Dida Sampaio/AE
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A
VITÓRIA DA BANCADA GOVERNISTA
A
aliança funcionou: numa rara demonstração
de união, o PMDB de Jáder Barbalho, o PFL de Antônio
Carlos Magalhães e o PSDB de José Roberto Arruda
atuaram em conjunto para defender Eduardo Jorge |
Foi
o que se deu no campo econômico coincidentemente o
terreno de maior atividade do governo desde 1995, através
das reformas estruturais e das privatizações. Contornados
os aspectos mais graves da estagnação econômica,
imaginava-se que o país finalmente pudesse crescer sem crise,
mas não. FHC se viu mergulhado numa nova confusão:
o caso envolvendo o ex-assessor Eduardo Jorge. "Parece até
que existe uma caveira de burro enterrada sob o mapa do Brasil.
Sai o entrave econômico, entra o entrave político",
comenta um ministro da confiança do presidente. Não
foi a primeira experiência nesse terreno. Houve o caso do
Sivam, a compra de votos para a reeleição, as fitas
do BNDES, a suspeita de favorecimento na entrega de milhões
aos bancos Marka e FonteCindam no episódio da desvalorização
do real. E, por fim, surgiu a denúncia contra Eduardo Jorge
no caso do TRT de São Paulo. Em todos esses episódios,
assessores do presidente viram-se examinados contra a luz, e a soma
de tantos casos seguidos emprestou mais substância às
suspeitas contra Eduardo Jorge, mesmo que nenhuma prova de ladroagem
tenha ainda surgido contra ele.
Sem
antídoto Segundo Andrea Matarazzo, ministro-chefe
da Secretaria de Comunicação de FHC, o governo se
esmerou nos últimos dezoito meses naquilo que ele chama de
"Projeto Tiro no Pé". Matarazzo fez um levantamento das manchetes
dos jornais nesse período e descobriu que 70% das más
notícias foram geradas pelo próprio governo. Uma crise
de confiança externa pode ser combatida com reformas estruturais,
programas de enxugamento de despesas e cortes orçamentários.
Os observadores internacionais notam as mudanças e podem
voltar a investir. No mundo da política, também se
costuma combater uma crise cortando na carne. Nesses casos, o presidente
demite o auxiliar envolvido em denúncias. Nessa crise atual,
o antídoto não funcionaria. Afinal, quando ela explodiu
Eduardo Jorge já era ex. Não trabalhava mais no Planalto.
"Mesmo sem trabalhar ao lado de FHC, ele continuará lá.
Não adianta tentar separar um do outro", comenta um ministro
do governo.
Tina Coelho
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Ana Araújo

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Ed Ferreira/AE
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A
DERROTA DOS PARTIDOS DE OPOSIÇÃO
José Eduardo Dutra, do PT, Roberto Requião, do PMDB, e
Eduardo Suplicy, do PT: durante o depoimento do ex-secretário,
os senadores da bancada oposicionista tiveram um desempenho
patético e pareciam não saber do que estavam falando |
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A
única forma de enfrentar essa crise é convencer a
opinião pública de que o ex-assessor não cometeu
nenhuma irregularidade. Nesse caso, o depoimento de Eduardo Jorge
na semana passada foi decisivo, mas não se pode afirmar que
tenha debelado a desconfiança de muitos. A oposição,
por exemplo, continua usando o episódio para repisar seu
interesse na abertura de uma CPI sobre o caso. "Essa crise atingiu
o governo, mesmo que Eduardo Jorge não tenha cometido nenhum
crime", diz um senador da base do governo. "Além dos fatos
concretos, é preciso levar em conta a percepção
da sociedade."
"Zona
de turbulência" Na semana passada, o presidente
Fernando Henrique conversava com um parlamentar de sua confiança
e avaliava a situação. Dizia o presidente que a crise
atual contém um elemento perverso: a diluição
das denúncias. Na crise das fitas do BNDES, era fácil
compreender o assunto em torno do qual se dava o debate. Discutia-se
a possível armação montada por integrantes
do governo para orientar a privatização da Telemar.
No caso Eduardo Jorge, não há um foco das apurações.
Ele mesmo se queixa da vagueza das denúncias e tem razão.
A história começou com o suposto envolvimento do ex-assessor
com o prédio do TRT (nada provado nesse terreno, é
bom repetir), mas passa por acusações variadas que
vão de suas andanças pelo lobby na área do
seguro a associação a empresas de TV a cabo e pressão
para o salvamento de empresas, numa série que vem se encorpando
em ritmo de reprodução celular. Enquanto Eduardo Jorge
desmente a acusação de ontem, surge outra denúncia,
mais outra, outra ainda, num processo vertiginoso. "O governo tem
de estar preparado para enfrentar a onda de ataques feito aquele
piloto de avião que entra numa zona de turbulência",
diz o senador Jader Barbalho, do PMDB do Pará. "A única
saída é segurar o manche com força, manter
o rumo e esperar o tempo melhorar", diz Jader.
A compreensão na base aliada é de que o governo só
se recuperará se a pacoteira de medidas macroeconômicas
ligadas à redução de juros e desregulamentação
da economia proporcionar uma onda de investimentos, crescimento
do PIB e redução da taxa de desemprego. Se os números
forem generosos, conforme essa análise, existe a possibilidade
de um fortalecimento da imagem do governo e de seu principal figurante.
A popularidade de FHC caiu tanto está em 13%
que não seria possível diminuir ainda mais. Resta
saber se poderá subir. Tempo para isso existe. A ajuda do
fator econômico é quase certa. Parece que FHC poderá
contar com a boa vontade dos partidos que o sustentam. Na semana
passada, líderes do PMDB almoçaram com o presidente
no Palácio da Alvorada para prestar-lhe solidariedade, enquanto
o PSDB e o PFL se preparavam para divulgar notas de apoio.
Para o governo, portanto, a semana terminou com um sinal muito mais
animador do que quando ela se iniciara. Vive-se no Palácio
do Planalto um momento de ressaca após o bombardeio seguido
de tantos dias. Ninguém por lá sabe avaliar com precisão
o que virá a seguir. Sentem os integrantes do núcleo
do governo que estão num ponto de transição
entre o fogo cruzado e uma situação provavelmente
mais amena.
Com
reportagem de Alexandre Secco e
Rodrigo Vergara
Saiba
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