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Como somos volúveis



Eu estava dando uma espiada no site das Testemunhas de Jeová. De acordo com as estatísticas oficiais da organização, o Brasil é o segundo país com maior número de adeptos, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em compensação, li em outro lugar que levamos muito menos tempo para nos converter à religião. Nenhum povo é mais rápido do que nós. Nem o de Burundi ou da Costa Rica, que vêm logo atrás. A partir do momento em que uma testemunha-de-jeová bate à nossa porta, com a Bíblia na mão, precisamos de somente uma hora e 55 minutos de pregação para abandonar tudo em que havíamos acreditado até então e abraçar com entusiasmo a nova fé.

Nada contra as testemunhas-de-jeová. Sou igual a eles num monte de coisas. Eles acham, por exemplo, que todos os governos são obra do demônio. Por esse motivo, não votam. E não prestam serviço militar. Eu, por morar fora, também não voto, e paguei um dinheirinho para me livrar do serviço militar. Excesso de contingente. As testemunhas-de-jeová, além disso, recusam-se a se submeter a transfusões de sangue. De vez em quando, um deles acaba morrendo por causa disso, mas não é problema meu. Quanto ao Apocalipse, a questão é mais controversa. As testemunhas-de-jeová acreditavam piamente que o mundo iria terminar em 1914. Depois mudaram a data para 1918. Depois, 1920. Depois, 1925. Depois, 1975. Como o mundo não terminou em nenhuma dessas ocasiões, creio que devemos ser imensamente gratos às testemunhas-de-jeová, pois nos pouparam esse fim prematuro.

Mas esqueça as testemunhas-de-jeová. Não estou aqui para falar deles. Pura tergiversação. O assunto que realmente me interessa é a nossa grande facilidade para passar de uma religião a outra. É um fenômeno que vem de longe. Tem profundas raízes no nosso passado. Jean de Léry, um missionário protestante francês que desembarcou no Brasil em 1556, espantou-se com a velocidade dos nossos índios em se entregar ao cristianismo. Em apenas duas horas de pregação sobre Jesus Cristo, mais ou menos o mesmo tempo gasto por uma testemunha-de-jeová para conquistar um fiel, ele conseguiu convencer os tupinambás a dirigir suas preces ao Deus verdadeiro e a prometer que nunca mais comeriam carne humana. Algumas horas mais tarde, porém, os índios já haviam esquecido os ensinamentos do religioso e voltavam a falar em comer o maior número possível de inimigos. "Eis um belo exemplo da inconstância desse povo", escreveu De Léry.

Perguntando-se sobre a origem dos nossos índios, De Léry chegou à conclusão de que eram descendentes de um dos filhos de Noé, Cam. Parece que foram expulsos de Canaã pelos filhos de Israel, comandados por Josué, e vieram parar na América. Segundo De Léry, portanto, descendemos de uma raça que traz o estigma da maldição de Deus. Não sei se é verdade. Presumo que sim. A reconstrução histórica de De Léry é perfeitamente verossímil. Vai ver que é por isso que, volta e meia, descartamos um deus e elegemos outro em seu lugar. Somos tão levianos e volúveis que um dia, quem sabe, ainda voltaremos a comer carne humana.

 

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