Sem caça
às bruxas
Presidente eleito do México diz que não
vai se vingar do partido que governou
o país por 71 anos
Maurício
Cardoso
AP
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"Somar
as economias
brasileira e
mexicana nos
daria uma
grande sinergia
para o crescimento"
|
O
México vive uma situação sem paralelo na
memória da maioria de seus habitantes: o poder está
para ser transferido a um político da oposição.
No início do mês passado, a eleição
de Vicente Fox quebrou uma cadeia de 71 anos de governo contínuo
do Partido Revolucionário Institucional, o PRI. Nas ruas,
nas manchetes dos jornais, no noticiário da televisão,
o assunto dominante é o que vai acontecer com o país
a partir de 1º de dezembro, quando o presidente eleito toma
posse. Instalado numa casa que até pouco tempo atrás
servia como Embaixada da Índia, no elegante bairro de Las
Lomas, na Cidade do México, Fox está se preparando
com impressionante dinamismo. Aos 57 anos, ele tem usado toda
a sua experiência de empresário de sucesso para tecer
acordos com os setores variados da sociedade, tradicionalmente
comprometidos com o domínio do PRI. O objetivo é
garantir a governabilidade, uma das palavras mais em voga no país.
De malas prontas para visitar os países do Mercosul, sua
primeira viagem como presidente eleito, Fox recebeu VEJA para
a seguinte entrevista.
Veja
Em sua primeira viagem como presidente eleito do México,
o senhor visita nesta semana Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.
É apenas coincidência ou uma indicação
da preferência de seu governo pela América do Sul?
Fox
Estamos pensando em seguir uma linha mais equilibrada na relação
do México com o resto do mundo. Hoje em dia, nossos interesses
estão demasiadamente concentrados no Nafta, o tratado de
livre comércio de Estados Unidos, Canadá e México.
A dependência é especialmente forte para com os Estados
Unidos, destino de 80% de nossas exportações. É
nosso interesse promover maior intercâmbio com a América
Latina, com quem temos ligações de cultura, de língua,
de raízes. Especialmente porque isso é conveniente
para nosso desenvolvimento econômico. Estou convencido de
que o século XXI oferecerá uma grande oportunidade
para a América Latina, desde que tenhamos a sabedoria de
encontrar um caminho comum.
Veja As economias latino-americanas são bastante
diferentes umas das outras. Como se pode operar o milagre
do desenvolvimento integrado no continente?
Fox
A partir de idéias como o Mercosul, podemos integrar e
intensificar as relações dos países que têm
as economias mais fortes. Acredito que, uma vez unidos e integrados,
Brasil, Argentina, Chile e México podem se transformar
no motor do desenvolvimento de toda a América Latina.
Veja
No esforço de cada um para conseguir um lugar
no mercado internacional, Brasil e México são concorrentes.
Por que haveriam de se tornar parceiros agora?
Fox
Minha experiência como governador de Guanajuato e como empresário
do setor de calçados foi muito positiva com o Brasil. Reconheço
que as relações entre os dois países têm
sido um tanto frias, mas quero aquecê-las. Às vezes
se pensa que duas nações com setores econômicos
semelhantes e processos de desenvolvimento parecidos, como Brasil
e México, não podem atuar em conjunto. Não
concordo. O potencial para desenvolver ações conjuntas
é muito maior quando há semelhanças e simetrias.
Somar economias do porte do Brasil e do México nos dará
uma grande sinergia para o crescimento.
Veja
Ao buscar uma relação mais estreita com
a América Latina, o México está tentando
diminuir sua dependência em relação aos Estados
Unidos?
Fox
A posição estratégica e privilegiada
do México permite que nos lancemos ao sul e ao norte, a
leste e a oeste. O México vem promovendo acordos nas quatro
direções. Temos o Nafta, com os países da
América do Norte, temos um crescente relacionamento com
os países asiáticos e acabamos de assinar um acordo
de livre comércio com a Europa. Agora temos uma proposta
de livre comércio com o Mercosul. Devemos refletir não
apenas em termos de livre comércio, mas na possibilidade
de uma integração mais ampla no futuro, a médio
e longo prazo.
Veja
O senhor visitou Cuba recentemente e foi muito bem recebido
por Fidel Castro. Para um empresário que defende a economia
de mercado, é um tanto surpreendente.
Fox
Nem tanto. O México sempre teve uma relação
intensa e solidária com Cuba. Isso vai continuar, mas vamos
fazer ajustes. Apesar de respeitarmos o direito de cada país
à autodeterminação, não deixaremos
de manifestar nossa oposição sempre que ocorrerem
violações flagrantes dos direitos humanos. Vamos
também incentivar Cuba para que caminhe para a economia
de mercado e para a democracia. Acreditamos nessas variáveis
políticas e econômicas como pilares de um processo
de desenvolvimento saudável.
Veja Primeiro presidente eleito por um partido de
oposição em 71 anos, o senhor tem o desafio de desmontar
a ditadura perfeita do PRI. Como se faz isso?
Fox
O processo eleitoral no México constituiu uma surpresa
não só para os estrangeiros, mas também para
os próprios mexicanos. Depois de 71 anos de um regime de
partido único, conseguimos operar uma transição
limpa, sem violência, pacífica em 24 horas. No dia
2 de julho, passamos de um regime autoritário para uma
autêntica democracia. Depois da eleição, fizemos
acordos básicos com o presidente Ernesto Zedillo para a
transição do poder. Estamos negociando com outros
partidos um acordo que garanta a governabilidade. Nosso objetivo
é preparar, com os líderes desses partidos, um projeto
de nação para o México. Já iniciamos
também o diálogo com os sindicatos, com os empresários,
com os intelectuais e com as Forças Armadas. Nosso desafio
é a convergência. Até agora as coisas estão
andando muito bem.
Veja
Como o senhor pretende lidar com a tradição
mexicana de garantir a impunidade aos corruptos no final de cada
governo?
Fox
Essa era a demanda número 1 dos cidadãos durante
a campanha eleitoral: acabar com a corrupção, a
impunidade, a violência e o crime. O regime que durou 71
anos cultivou a corrupção e a impunidade. Teremos
de fazer uma operação cirúrgica cuidadosa,
para identificar e levar para a cadeia os responsáveis
pela corrupção e pela violência. Não
podemos, porém, desencadear uma caça às bruxas.
O PRI e o governo anterior tinham também gente honesta
e com capacidade técnica para continuar servindo ao Estado.
Precisamos agir com equilíbrio para esclarecer os fatos
criminosos do passado e construir o desenvolvimento do futuro.
Não vou desperdiçar seis anos de governo correndo
atrás de vingança.
Veja
Como o senhor pretende fazer funcionar a seu favor a
máquina estatal que esteve sempre a serviço do PRI,
o partido que se confundia com o próprio Estado?
Fox
Creio muito nos sistemas modernos de administração.
Com os processos de qualidade total somos capazes de modificar
a estrutura e a organização de uma empresa. Vamos
adotá-los para mudar o Estado mexicano. Creio também
na boa vontade das pessoas. Quando fui governador do Estado de
Guanajuato, passamos por essa mesma situação. Demos
oportunidade a quem já estava engajado no governo para
fazer essa transformação de atitudes. Os resultados
foram muito positivos. Pouca gente não se adaptou e foi
excluída.
Veja
Com um corpo de funcionários públicos
superdimensionado, é de se prever que haverá demissões.
Fox
Vamos entrar no governo com uma equipe de apenas 150 pessoas,
no máximo 200, para comandar uma organização
de 2,5 milhões de burocratas. Cabe a essas pessoas, com
forte espírito de liderança, honestas, transparentes,
criar uma nova cultura de serviço público. Vamos
reduzir o tamanho do Estado e da burocracia, mas sem deixar ninguém
no desemprego. Em Guanajuato, reduzimos 30% da folha de pagamento
estadual, mas todos que saíram tinham garantido um emprego
e uma renda.
Veja
A desigualdade entre o sul pobre e o norte abastado
é um dos grandes desafios do México. Hoje, 50% da
riqueza industrial mexicana está concentrada em apenas
seis Estados. O que o senhor propõe para diminuir essas
diferenças?
Fox
Vamos fazer uma política de desenvolvimento regional, com
incentivos fiscais para quem investir fora dos já saturados
pólos de desenvolvimento atuais. Também os programas
de apoio à pequena e média empresa são um
instrumento para a distribuição de oportunidades
e de renda. Temos um projeto ambicioso, com a criação
de bancos sociais e instituições de apoio para facilitar
o acesso ao treinamento e à capacitação,
aos mercados nacionais e internacionais, à tecnologia e
aos métodos de produtividade.
Veja Ao contrário de seus antecessores mais
recentes, o senhor recebe o país com a economia estável
e em crescimento. Mas a população vai mal, com baixos
salários, desemprego...
Fox
Este é um problema comum em toda a América Latina.
Não temos sabido traduzir o êxito macroeconômico
em desenvolvimento real para a população. Por isso,
estamos colocando certas condições ao desenvolvimento
econômico. A geração de riqueza é certamente
a melhor maneira de combater a pobreza. Mas não basta apenas
gerar a riqueza. Temos de fazê-lo de forma sustentada. O
México enfrenta sérios problemas ecológicos.
Vamos colocar especial atenção nisso. Outra condição
é a garantia de distribuição da riqueza.
Vamos ter políticas precisas nesse sentido, que envolvem
os planos de desenvolvimento regional, de apoio à média
e pequena indústria, uma revolução educativa.
Educação é a melhor maneira que uma família
tem para atingir um nível mais alto de vida. São
esses os instrumentos que usaremos para melhorar a distribuição
de renda.
Veja Chiapas é o símbolo das desigualdades
do México. Como o senhor vai enfrentar o problema da miséria
e da rebelião armada em Chiapas?
Fox
Chiapas e Oaxaca são os Estados mais atrasados do
país. O primeiro atraso é político. Naquela
região houve falta de democracia e desenvolvimento e sobrou
repressão. Faltou também educação.
Lá, a escolaridade média das crianças é
de três anos, menos da metade do restante do país.
Em conseqüência, a região ficou atrasada também
em termos econômicos. A solução dos problemas
de Chiapas começa pelo fim do conflito armado com a guerrilha.
Estou buscando pessoalmente uma reunião com o subcomandante
Marcos para reabrir o diálogo com o Exército Zapatista
de Libertação Nacional. Só depois poderemos
iniciar o processo de desenvolvimento econômico e humano.
Veja
O narcotráfico cresce no México e já
há quem diga que logo o país tomará o lugar
da Colômbia na produção e distribuição
de drogas no mundo. O que o senhor pretende fazer para reverter
essa perspectiva?
Fox
Vamos empreender a mãe de todas as batalhas para atacar
em profundidade este doloroso mal, um câncer em nosso país.
A primeira coisa a fazer é mudar os termos do acordo a
respeito que temos com os Estados Unidos. Não aceitamos
a certificação unilateral que os americanos impõem
a seu bel-prazer sobre o que o México e outras nações
estão fazendo em matéria de combate ao narcotráfico.
Pensamos em um acordo bilateral, no qual os países produtores,
os países de trânsito e os países de consumo
tenham obrigações e tarefas específicas.
O crime se organizou internacionalmente, não reconhece
fronteiras nem pode ser combatido sob a perspectiva de um país
em particular. Ou entramos em um acordo multilateral com compromissos
verificáveis e mútuos ou não será
possível enfrentar esse tipo de crime.
Veja
O plano de ajustes e reformas econômicas realizado
pelos governos anteriores manteve o setor de energia na mão
do Estado. O senhor pretende privatizar as empresas estatais de
eletricidade e de petróleo?
Fox
Não estamos planejando a privatização, mas
uma abertura a investimentos privados na geração
de eletricidade. A iniciativa privada terá a oportunidade
de construir as novas usinas de geração de que necessitamos,
mas não vamos transferir para elas o que já existe.
E não vamos abrir mão do controle do serviço.
Veja
E quanto à Pemex, a Petrobras mexicana?
Fox
Também não será privatizada, mas vamos convertê-la
em uma empresa competitiva e globalizada. A carga fiscal sobre
a companhia é muito elevada, o que a impede de se modernizar,
de ter acesso à tecnologia de ponta, de integrar-se verticalmente.
O resultado é uma empresa grande mas ineficiente. Hoje
importamos gasolina, óleo diesel e gás. Vamos tirar
os políticos que eram premiados com diretorias na empresa
não por capacidade, mas por amizades e filiação
partidária. Vamos profissionalizar sua administração,
torná-la competitiva, mas sem abrir mão dela.
Veja
O senhor tem uma proposta de reforma fiscal. Isso significa
aumentar impostos?
Fox
Em termos gerais, não significa elevar as taxas
nominais de impostos, mas aumentar a arrecadação.
Vamos combater a evasão fiscal, que é muito alta,
e integrar o mercado informal, que representa quase 40% da economia
mexicana, mas não paga impostos. Também eliminaremos
algumas isenções. A reforma fiscal vai simplificar
o pagamento de impostos e premiar a poupança, assim como
o investimento produtivo. O México precisa de uma base
fiscal maior, para poder levar um mínimo de qualidade de
vida para os excluídos, para levar emprego, educação
e saúde a todas as pessoas. A justiça fiscal se
faz pelo lado do gasto, das saídas de caixa.
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