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Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

O rendimento dos pobres

"Nos últimos dez anos a desigualdade salarial diminuiu, mas negros e mulheres continuam ganhando muito menos que o homem branco"


Ilustração Ale Setti


Os brasileiros ganharam ou perderam renda em termos reais, isto é, descontada a inflação, nos anos 90? Quem leu sobre os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 1999, na semana passada, responderá que perderam. E realmente os rendimentos do total da população caíram perto de 3%. Mas e o rendimento dos pobres? Ele cresceu 85%, entre 1989 e 1999. Esse ganho se refere aos 10% mais pobres. Quando se olha o que aconteceu com os diferentes grupos de renda, temos uma história diferente e muito mais animadora. Nesses dez anos a desigualdade salarial, medida pelo índice de Gini, ficou 12% menor.

Na verdade, é a própria desigualdade que explica por que a renda total caiu e a dos pobres cresceu na década passada. O único estrato da população que perdeu renda entre 1989 e 1999 foi o dos 5% mais ricos: -18%. Dividindo-se a população em grupos de rendimentos, vê-se que os salários das faixas que contêm 80% da população, os oito primeiros decis, subiram 16% entre 1989 e 1999. Se deixarmos de fora os 30% mais ricos, o crescimento na década supera os 20%. Os dados da Pnad, coletados pelo IBGE, resultam de uma pesquisa séria, que tem uma amostra de domicílios de ótima qualidade e tamanho invejável.

A queda da renda dos mais ricos foi efeito do confisco do governo Collor. Todos perderam com o Plano Collor, mas em intensidade diferente. Os mais ricos viram seus rendimentos cair 26,3% entre 1989 e 1993, enquanto os 10% mais pobres perderam 9%. É que o confisco só pegou quem tinha conta corrente ou caderneta de poupança. Com a queda maior para o topo, a disparidade de renda diminuiu. Uma forma perversa de melhorar a distribuição, pelo empobrecimento geral.

Mas a grande inimiga do salário dos pobres e aliada das desigualdades foi a inflação. Na última metade da década, que coincide com a estabilização e o governo Fernando Henrique, a renda cresceu muito para todas as faixas, menos para o 1% mais rico, que ainda teve uma perda de 1%. Para os 10% mais pobres, ela mais que dobrou, crescendo 103,2%. Continua muito baixa, mas realmente melhorou.

Para entender o que houve é preciso separar estrutura de conjuntura. Estruturalmente, o resultado é inegável: a renda da maioria cresceu, cresceu mais para os mais pobres e ainda mais com o fim da inflação. Para se olhar a conjuntura é preciso separar a estabilização, entre 1994 e 1996 – que foi muito positiva –, do ajustamento à crise da Ásia e seus desdobramentos, entre 1997 e 1999 – que tem sinal só negativo.

A mudança de um regime de hiperinflação indexada para um de baixa inflação promoveu grande aumento da renda real. O Plano Real permitiu um ganho líquido, entre 1993 e 1999, de quase 22%. Esse efeito só não foi maior por causa da volatilidade nas taxas de inflação, que se seguiu à desvalorização de 1999, forçada pela crise da Rússia. Mas não pode haver dúvida de que a estabilização promove um ganho de renda substancial e tanto maior quanto menor for a capacidade de proteção do assalariado contra os efeitos corrosivos da inflação.

A crise da Ásia não gerou perdas ou ganhos relevantes de renda, mas estancou seu crescimento entre 1996 e 1998. Já a desvalorização fez a renda total recuar 6%, mesmo porcentual de perda dos mais pobres. A classe média perdeu em torno de 5%; a média alta, perto de 10%.

É esse resultado que explica o forte crescimento da insatisfação dos assalariados e a deterioração das expectativas econômicas. Os dados mais recentes da sondagem mensal do IBGE já mostram uma recuperação da renda dos mais pobres, mas a classe média continua perdendo.

A conclusão é clara. Sem inflação, é possível pensar em uma evolução menos desigual da renda no futuro. Mas o índice não mudará significativamente se não houver melhora mais profunda nos padrões de desigualdade durável, que no Brasil estão associados à cor e ao gênero. Negros e mulheres continuam ganhando muito menos que o homem branco – a Pnad 1999 mostrou isso também –, e essa desigualdade exige mudanças ainda mais profundas que a estabilização.

 

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