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A aventura de Vasco da Gama contada no diário de Álvaro Velho e nos desenhos de um livro do século XVI: herói de Os Lusíadas, o navegante português ficou rico saqueando navios no Índico |
A expedição de Vasco da Gama reunia o melhor que Portugal podia oferecer em tecnologia náutica. Dispunha das mais avançadas cartas de navegação e levava pilotos experientes. Os navios eram leves e rápidos. Faltavam-lhe, é claro, conhecimentos mínimos de higiene e medicina, de que os povos daquele período ainda não tinham notícia. O convés das caravelas, não mais amplo que uma quadra de tênis, logo estaria coalhado de doentes e mortos. As tripulações eram dizimadas pelo escorbuto, provocado por deficiência de vitamina C. Dos mais de 150 homens que deixaram Lisboa, só voltaram 55. Por falta de marinheiros, Vasco da Gama foi forçado a abandonar a São Rafael e queimá-la na costa da África. A frota levava também um capelão, dois intérpretes (um que falava árabe e outro que conhecia dialetos africanos) e cinco degredados para ser abandonados à própria sorte num canto qualquer.
Selvageria e aventura -- Repleta de peripécias e episódios de selvageria e aventura, a viagem de Vasco da Gama foi o marco decisivo numa época em que o mundo estava redesenhando suas rotas de comércio. Durante os séculos que antecederam as viagens marítimas portuguesas, a Europa era regularmente abastecida de pimenta, cravo, canela e gengibre -- as chamadas especiarias -- pelos comerciantes genoveses. Num tempo em que não havia geladeira nem técnicas mais elaboradas de conservação de alimentos, os temperos serviam principalmente para disfarçar o sabor meio passado dos alimentos, sobretudo os que eram guardados por mais tempo para consumo no inverno. Os genoveses traziam esses produtos da Índia através de rotas terrestres pelo Oriente Médio e depois distribuíam a mercadoria pela costa do Mediterrâneo. Com a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos otomanos, tudo isso mudou. As especiarias continuaram a chegar pela rota tradicional, mas em quantidades cada vez mais reduzidas e a preço de ouro.
Coube aos portugueses encontrar uma nova rota de comércio por duas razões: eles tinham a tecnologia e a vocação natural para isso. Estavam situados numa posição estratégica, a meio caminho entre o norte da Europa e o Mediterrâneo, e tinham criado uma importante academia de navegação, a Escola de Sagres. Além disso, sem população nem recursos que lhe permitissem colonizar terras distantes, como fez a Espanha, restava a Portugal o descobrimento de rotas e o estabelecimento de entrepostos comerciais na África e na Ásia. "Apesar do Brasil, o império português jamais foi territorial. Foi um império marítimo, apoiado em uns poucos pontos costeiros", diz o professor Antônio Hespanha, presidente da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, em Lisboa. "Quando Vasco da Gama chega às Índias, é como se Portugal tivesse encontrado sua vocação."
Os portugueses abriram o caminho das Índias apoiados na diplomacia do canhão. O relato mais atento da viagem de Vasco da Gama é o diário de bordo escrito por Álvaro Velho, só descoberto pelo escritor português Alexandre Herculano em 1834. Tripulante do São Rafael, Velho deixa claro que nos planos do navegador não constava estabelecer relações amigáveis com os povos visitados. Ao contrário, ele nunca hesitou em canhonear os portos de que se aproximava ao menor motivo. "A abordagem comercial dos portugueses era realmente agressiva", afirma a historiadora Janice Teodoro da Silva, da Universidade de São Paulo. "Não se pode esquecer que muitos tripulantes tinham lutado nas Cruzadas e se julgavam no direito de impor sua vontade a tiro sobre os hereges."
Observando-se hoje a rota percorrida por Vasco da Gama, percebe-se que a frota portuguesa fez um desvio inexplicável no Oceano Atlântico, quase tocando a então desconhecida costa brasileira -- mais tarde, Cabral faria exatamente o mesmo caminho, avançando até encontrar terra. Depois de passar o Cabo da Boa Esperança, desmontaram a nau de mantimento e guardaram o madeirame nos porões dos outros navios. O primeiro contato com a civilização oriental foi no porto de Moçambique, então um importante centro comercial dominado por mercadores árabes.
Decepções -- Quatro naus estavam atracadas no porto, com peças de ouro e prata a bordo. Os ricaços do lugar, anotou o cronista de bordo, vestiam roupas coloridas de algodão e linho, com turbantes de seda. Vasco da Gama bombardeou o porto até obrigar o sultão a fornecer-lhe água potável e dois pilotos para guiá-los pela costa. Não satisfeito, saqueou dois navios cheios de mercadorias. A próxima parada foi a ilha de Zanzibar. O piloto confundiu o lugar com o continente e Vasco da Gama mandou chicoteá-lo. Por isso, durante muito tempo, Zanzibar foi chamada pelos portugueses de "Ilha do Açoitado". Em Melinde, na costa do atual Quênia, o navegador trocou um refém nobre por um piloto árabe, Malemo Canaqua, que conduziria a frota em segurança a Calicute -- enfim, as Índias.
Os três meses em que Vasco da Gama ficou na região de Calicute foram uma sucessão de mal-entendidos, decepções e escaramuças. "Vasco da Gama, na verdade, não tinha uma idéia muito exata de comércio e de jogo político, nem era um grande diplomata", disse o professor Hespanha. O primeiro contato, feito por um degredado que Gama despachou para terra, pareceu promissor. Ele encontrou dois tunisianos que falavam castelhano e genovês, e que festejaram a chegada dos portugueses com gritos de "Buena fortuna, buena fortuna". Daí para a frente foi um desastre.
Os portugueses faziam uma divisão simplória do mundo entre cristãos, do lado do bem, e os "hereges", os muçulmanos. Imaginavam que a Índia fosse povoada por cristãos de rito oriental. Numa visita aos templos hinduístas de Calicute, Gama surpreendeu-se com as imagens dos deuses de vários braços. "Onde estão nossos santos?", perguntou espantado. Acompanhado de onze fidalgos e de um intérprete, Vasco da Gama entregou ao rei de Calicute uma carta do rei dom Manuel. Recostado num divã de veludo verde, o rei ouviu o relato de que a coroa portuguesa era a "mais poderosa" da Europa e uma das mais ricas em ouro. Tudo ia muito bem até que a comitiva portuguesa resolveu mostrar os presentes que havia trazido. O rei ficou chocado com a pobreza da oferenda: uma dúzia de casacos, seis chapéus, seis bacias, um pacote de açúcar e dois barris de manteiga, rançosa depois de tanto tempo no mar. "Se o senhor veio de um reino tão rico, por que não trouxe nada?", perguntou ele, cheio de espanto. Vasco da Gama provavelmente não entendeu que as expectativas daquela corte eram muito mais altas do que ele poderia preencher com seus presentes lusitanos. O navegador ficou "melancólico", nota Álvaro Velho em sua crônica, mas por pouco tempo -- bem cedo percebeu que poderia saquear as embarcações que cruzavam o Índico e se abastecer das mercadorias necessárias para comerciar na região.
Caravela fretada -- Durante a viagem de volta a Portugal, Vasco da Gama fez uma escala na ilha de Cabo Verde, na África, para cuidar do irmão doente, que morreu logo depois. Ao chegar a Lisboa, no dia 8 de setembro de 1499, numa caravela fretada em Cabo Verde, foi recebido como herói nacional. Ganhou o título de almirante, propriedades e uma pensão generosa. Três anos mais tarde voltou à Índia com uma esquadra de vinte navios, estabeleceu feitorias e enriqueceu pilhando mercadores árabes e indianos que encontrou pelo caminho. Não está registrado nos livros didáticos que ensinam a história das grandes navegações às crianças, mas Vasco da Gama tratou seus prisioneiros com uma crueldade enorme, enviando cestos com suas cabeças decepadas às famílias desses homens, nas cidades costeiras. Num episódio marcado por um barbarismo difícil de entender nos dias de hoje, Vasco da Gama queimou um navio apinhado de peregrinos muçulmanos no Oceano Índico. Morreram 240 homens, além de mulheres e crianças.
Vasco da Gama morreu em Cochin, na Índia, em 1524, perto dos 60 anos. Agora, 500 anos decorridos de sua primeira viagem às Índias, Portugal prepara grandes homenagens para seu navegante mais importante. Os festejos, que começam agora, devem culminar com a Exposição Universal em Lisboa no próximo ano. Mas, na costa de Malabar, onde os portugueses mantiveram até 1961 o enclave de Goa, há protestos contra o projeto das festas. Em Goa, foi formado um comitê para forçar o governo a trocar o nome do porto, hoje chamado de Vasco da Gama, e em Calicute um grupo de professores organizou um ano inteiro de protestos. "É uma vergonha homenagear a chegada do homem que começou a era colonial em nosso país", diz Nagesh Karmali, porta-voz do grupo. É um exagero histórico. Os ingleses só conquistaram a Índia dois séculos depois e Portugal nada teve a ver com isso. É compreensível, contudo, que Calicute tenha más lembranças. Depois de descobrir o Brasil, a frota de Cabral seguiu o caminho de Vasco da Gama e bombardeou a cidade, matando mais de 400 de seus habitantes.
Caravela fretada -- Durante a viagem de volta a Portugal, Vasco da Gama fez uma escala na ilha de Cabo Verde, na África, para cuidar do irmão doente, que morreu logo depois. Ao chegar a Lisboa, no dia 8 de setembro de 1499, numa caravela fretada em Cabo Verde, foi recebido como herói nacional. Ganhou o título de almirante, propriedades e uma pensão generosa. Três anos mais tarde voltou à Índia com uma esquadra de vinte navios, estabeleceu feitorias e enriqueceu pilhando mercadores árabes e indianos que encontrou pelo caminho. Não está registrado nos livros didáticos que ensinam a história das grandes navegações às crianças, mas Vasco da Gama tratou seus prisioneiros com uma crueldade enorme, enviando cestos com suas cabeças decepadas às famílias desses homens, nas cidades costeiras. Num episódio marcado por um barbarismo difícil de entender nos dias de hoje, Vasco da Gama queimou um navio apinhado de peregrinos muçulmanos no Oceano Índico. Morreram 240 homens, além de mulheres e crianças.
Vasco da Gama morreu em Cochin, na Índia, em 1524, perto dos 60 anos. Agora, 500 anos decorridos de sua primeira viagem às Índias, Portugal prepara grandes homenagens para seu navegante mais importante. Os festejos, que começam agora, devem culminar com a Exposição Universal em Lisboa no próximo ano. Mas, na costa de Malabar, onde os portugueses mantiveram até 1961 o enclave de Goa, há protestos contra o projeto das festas. Em Goa, foi formado um comitê para forçar o governo a trocar o nome do porto, hoje chamado de Vasco da Gama, e em Calicute um grupo de professores organizou um ano inteiro de protestos. "É uma vergonha homenagear a chegada do homem que começou a era colonial em nosso país", diz Nagesh Karmali, porta-voz do grupo. É um exagero histórico. Os ingleses só conquistaram a Índia dois séculos depois e Portugal nada teve a ver com isso. É compreensível, contudo, que Calicute tenha más lembranças. Depois de descobrir o Brasil, a frota de Cabral seguiu o caminho de Vasco da Gama e bombardeou a cidade, matando mais de 400 de seus habitantes.

Com reportagem de Pedro Andrade, de Lisboa Copyright © 1997, Abril S.A. |