| |
Além dos precatórios
Com cargos e verbas que
distribui para ficar no governo, Paulo Afonso está
pedindo outra CPI
Franco
Iacomini
Às 9 da manhã de segunda-feira
passada, o plenário da Assembléia Legislativa de Santa
Catarina reuniu-se para votar o afastamento do governador
Paulo Afonso em função de seu envolvimento no
escândalo dos precatórios. Para manter-se no cargo,
Paulo Afonso precisava dos votos de catorze dos quarenta
deputados estaduais de Santa Catarina. Quando a votação
se realizou, às 9 da noite, Paulo Afonso perdeu por 11
votos a 29. Mesmo assim, o governador não ficou um
minuto fora do cargo e encerrou a semana mais inabalável
do que nunca. Isso porque às 3 da tarde da mesma
segunda, numa decisão unânime do Supremo Tribunal
Federal, em Brasília, Paulo Afonso foi autorizado a
permanecer no cargo até que a apuração seja terminada,
o que deverá acontecer só daqui a seis meses. Não há
o que discutir na decisão do Supremo -- além de ter
sido tomada por unanimidade, não foi contestada por
nenhum jurista de renome. A questão é que a
mobilização iniciada por Paulo Afonso para se manter no
cargo, depois da votação na Assembléia, já é motivo
para instalar outra CPI.
Ciente de que ganhou a primeira
batalha, mas de que ainda há uma longa guerra pela
frente, Paulo Afonso envolveu-se até o último fio de
seus bigodes num expediente escabroso de comércio de
votos. Mal saído das comemorações pela vitória no
Supremo, já na terça-feira o governador forçou a
renúncia de todos os ocupantes de cargos de primeiro e
segundo escalão das catorze secretarias, da
Procuradoria-Geral do Estado, do Comando da PM e da Casa
Militar. São quarenta funções, responsáveis pela
manipulação de 3,29 bilhões de reais em dinheiro
público só neste ano. Entraram no cambalacho também as
presidências e as principais diretorias de quatro
empresas estatais -- Casan, de saneamento, Celesc, de
energia, Besc, o banco comercial, e Badesc, banco de
fomento. Todos esses cargos e verbas foram colocados à
disposição de oposicionistas que topassem mudar de
voto.
"Mudo meu
voto" -- E o primeiro favorecido pelo toma
lá, dá cá foi o diretor de operações especiais do
Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, Nelson
Wedekin, vice-presidente regional do PDT, partido de
Leonel Brizola. Na quarta-feira, pouco antes de a
Assembléia Legislativa iniciar a votação sobre se
incluiria ou não o vice-governador José Augusto Hülse
nas investigações do impeachment, Wedekin foi informado
de que Paulo Afonso pensava "com carinho" em
nomeá-lo secretário da Fazenda, cargo-chave para
realizar a partilha da arrecadação entre as áreas do
governo e responsável por um orçamento de 131,1
milhões de reais neste ano. O mesmo auxiliar do
governador que falou com Wedekin encarregou-se de
informar o líder do PDT na Assembléia, Jaime Mantelli.
A estratégia deu resultado. Durante uma das discussões
que marcaram a sessão de quarta-feira, Mantelli
aproximou-se do deputado Herneus de Nadal, líder do
PMDB, e avisou: "Se vocês precisam manter o Hülse,
eu mudo o meu voto".
Paulo Afonso venceu a parada.
Apenas dois dias depois de ter o seu próprio nome
identificado como o suspeito número 1 de chefiar a
máfia dos títulos públicos no Estado, o governador
garantiu a tranqüilidade de Hülse. O inacreditável é
que Jaime Mantelli foi autor do relatório da Comissão
Especial Processante, que apresentou formalmente a
denúncia contra Paulo Afonso, José Hülse, o então
secretário da Fazenda, Paulo Prisco Paraíso, e o
procurador-geral José Carlos von Hohendorff à
Assembléia. Ao impedir o processo contra Hülse,
portanto, Mantelli radicalizou no cinismo. Votou contra o
seu próprio relatório. "Votei assim para preservar
o Legislativo catarinense de mais brigas e para evitar
mais desgaste para as instituições",
justificou-se, com a cara lavada.
"A Assembléia Legislativa
de Santa Catarina se transformou numa tenda árabe",
disse o deputado estadual Júlio Teixeira, do PFL.
"O governo se esforçou apenas para conseguir os
três votos que lhe faltavam. Eles nem se preocuparam em
comprovar sua inocência", lamentou. Inocência,
mesmo, está difícil provar. No encalço das operações
de Santa Catarina, o Banco Central enviou à CPI da
Câmara, na sexta-feira 27, um novo documento sobre as
operações de títulos catarinenses. Em 33 páginas, o
BC faz pesadas acusações ao governo de Paulo Afonso.
Diz que foi "irregular" a contratação do
Banco Vetor para assessorar o Estado na operação de
emissão de títulos, mostra que a instituição foi paga
antes que seu trabalho fosse concluído, que os lucros
fabulosos auferidos acabaram nas mãos de laranjas e que
o leilão para o lançamento dos títulos foi ilegal.
O deputado Júlio Teixeira sabe
o que é a tal "tenda árabe" catarinense de
que falou. Mesmo sendo autor de outro relatório da
Assembléia (que também incriminava o governador e seus
principais assessores), Teixeira não defendeu o texto
que escreveu. Na hora da votação sobre a denúncia
contra o vice de Paulo Afonso, abandonou o plenário e
ajudou a derrotar seu próprio relatório. O deputado
admite ter sido "chantageado" por membros do
governo Paulo Afonso, que lhe ofereceram aumento de
salário para os policiais civis -- a base de apoio de
Teixeira -- em troca de sua mudança de voto. Para alguns
dos principais caciques do PFL, os catarinenses Jorge
Bornhausen e Vilson Kleinübing (este empenhadíssimo na
CPI dos Precatórios que corre no Congresso), foi um
vexame. Os dois diziam ter colocado os últimos pregos no
caixão político de Paulo Afonso, ao fechar posição do
PFL contra o governador. Como se viu, não fecharam nada.
Além de Teixeira, outros sete pefelistas (toda a
bancada) se abstiveram de votar depois de aberto o
balcão de cargos e verbas de Paulo Afonso.
"Arma valiosa'' --
Foi daqueles espetáculos que o PFL, esse partido que é
um esteio da modernidade, como já afirmou Fernando
Henrique Cardoso, sabe encenar. Por três dias, os
deputados se digladiaram, xingaram-se, até se
estapearam, enquanto Santa Catarina, como Alagoas,
caminha alegremente para a bancarrota. Entre folha de
pagamento e rolagem da dívida, Santa Catarina compromete
91% de sua arrecadação, que no ano passado foi de 1,9
bilhão de reais. Os 9% restantes ficam com a
manutenção da máquina estatal. Nem um único centavo
resta para investimentos. Os novos projetos Paulo Afonso
pretendia financiar com a emissão de 605 milhões de
reais em Letras Financeiras do Tesouro Estadual ocorrida
em outubro do ano passado, o que resultou no escândalo
que ainda pode tirar-lhe o mandato. O governo catarinense
insistiu em continuar assinando convênios e alardeando
obras, mesmo sabendo que o dinheiro das letras está
bloqueado e que a cornucópia secou. Entre janeiro e maio
deste ano, teve gastos que superaram a arrecadação em
70 milhões de reais.
Se o rearranjo político
permitido pela reforma do secretariado dá novo fôlego
ao administrador Paulo Afonso, o réu também ganhou
sobrevida. "Com a decisão do Supremo, nós podemos
pedir novos depoimentos, acareações e toda ordem de
prova que a lei brasileira permite", diz o advogado
Renato Vianna, ex-deputado que assina juntamente com o
ex-procurador-geral da República Aristides Junqueira a
defesa do governador. Com todos esses recursos, é
possível que a defesa do governador tome boa parte do
ano e meio que ainda lhe resta de mandato -- evitando a
catástrofe política do impeachment. "Não é do
nosso interesse adiar um juízo indefinidamente, mas a
procrastinação é uma arma jurídica valiosa",
observa Vianna.
Com
reportagem de Sandra Brasil
A um passo do
Paraíso
A CPI dos Precatórios
descobriu o nome de uma pessoa que pode ter
lucrado com a emissão dos títulos em Santa
Catarina. É José Carlos Gallotti Blauth, primo
de Paulo Prisco Paraíso, ex-secretário da
Fazenda e responsável pela emissão de 605
milhões de reais em papéis do governo. Na conta
de Blauth, mantida na corretora Divalpar, em
Curitiba, foram depositados 450 000 reais do
lucro nas operações de compra e venda de
títulos. O primo do ex-secretário da Fazenda
recebeu o depósito da Transcorp, uma empresa
financeira do Paraná, e o reaplicou em títulos
de Alagoas. O próximo passo é descobrir onde o
lucro foi parar depois da escala na conta de
Blauth.
Superlaranja --
Corretor autônomo no Paraná, Blauth explica que
50 000 reais eram seus e 400 000 pertenciam a um
cliente cujo nome se recusa a dizer. "Não
é o meu primo nem ninguém envolvido nas
denúncias da CPI", diz. Ao vender 605
milhões em títulos em outubro passado, o
governo catarinense proporcionou lucros de 87
milhões de reais. Desse total, 30 milhões foram
para a IBF Factoring, do superlaranja Ibrahim
Borges Filho. Na IBF, o butim foi dividido. A
Transcorp recebeu 3,6 milhões de reais e fez o
depósito de 450 000 na conta de Blauth. Blauth
afirma que é cliente antigo da Transcorp, mas a
empresa informa que nem o conhece. Mas é certo
que a Transcorp conhece o ex-secretário da
Fazenda catarinense. A CPI identificou 225
ligações dos telefones usados por Paulo Prisco
Paraíso para a Transcorp entre abril de 1995 e
dezembro de 1996. Sobre o que conversaram, é um
assunto que talvez não seja muito misterioso.
Felipe
Patury
|

Copyright
© 1997, Abril S.A.
|
|