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Livros Uma surpresa está sempre à
espera do leitor
"O conto deve ser escrito de modo que o leitor espere continuamente algo", ensinava o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), mestre absoluto naquele gênero literário. Sua lição é seguida de perto nas onze histórias reunidas em Antes do Circo (Record; 128 páginas; 28 reais), segundo livro de ficção do jornalista gaúcho Jerônimo Teixeira, da equipe de VEJA. O prodígio dos relatos que compõem a obra decorre justamente do talento do autor para explorar a tensão, o principal motor da narrativa breve. Não há conforto na prosa de Jerônimo Teixeira e esse é o seu trunfo maior. Embora alguns elementos sejam recorrentes nos textos a atmosfera um tanto irreal, a violência etc. , salta aos olhos a particularidade de cada conto. Nenhuma história é desenvolvida com a mesma técnica adotada em outra, o que dá aos diferentes relatos uma vibração própria. Isso transparece de maneira clara no impecável Onde a Sombra Bebe Café, não por acaso o texto de abertura da coletânea. Nele, um sujeito misterioso, de terno escuro, pasta executiva na mão direita, entra diariamente, às 6 e meia da noite, num determinado bar, para repetir o ritual de pedir "um cafezinho, por favor", tomá-lo durante "excessivos cinco minutos", pagá-lo e sair. Intrigado, o dono do estabelecimento resolve segui-lo e o que se lê a partir daí é uma jornada extenuante em busca de sentido. O enredo avança numa estrutura circular para ressaltar, na forma, aquilo que o orienta em seu conteúdo: a repetição. A repetição também está presente, ainda que de modo distinto, na narrativa-título, que flagra um animal mitológico em seu melancólico abandono sob a lona de um circo miserável. A história, de apenas duas páginas, é um primor naquilo que o conto tem de congênito: a condensação do espaço e sobretudo do tempo. Antes do Circo remete a uma época imemorial e, simultaneamente, desfralda um futuro irremovível. Como já ocorria na novela As Horas Podres (1997), livro anterior de Jerônimo Teixeira, relançado em 2007, Antes do Circo não deixa de tematizar, agora com maior ênfase, a literatura e suas impossibilidades. É o que ocorre em Unheimlich, relato no qual o autor e pessoas que lhe são próximas figuram explicitamente. Em outras narrativas, referências literárias, diretas ou indiretas como, por exemplo, ao checo Franz Kafka (1883-1924), ao inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ao francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) , ajudam a sublinhar o caráter metalingüístico da obra. Repórter escaldado na cobertura da área cultural e na prática da crítica, Jerônimo Teixeira não perde a oportunidade para ironizar o próprio campo em que atua no conto Deus em Porto Alegre. Não se imagine, entretanto, que ele escreva para os seus pares o que lhe seria fácil. Do mesmo modo, não lhe interessa adular o leitor. Há na ficção sadiamente desconfortável de Jerônimo Teixeira não o exercício de um capricho, mas uma forma de expressão que lhe parece inevitável como costuma ocorrer com os bons autores.
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