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Edição 2068

9 de julho de 2008
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A ditadura universal

Um romance kafkiano sobre a repressão política,
por um prodígio da nova ficção americana


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Nascido em 1970 de uma família ortodoxa, o americano Nathan Englander estudou em escola judaica e morou em Jerusalém, onde, surpreendentemente, optou por abandonar a ortodoxia ao mesmo tempo em que se iniciava na literatura. Seu primeiro livro, Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis (1999), foi recebido com entusiasmo. Embora americano, Englander não se restringiu, já nos contos de estréia, ao país natal. Usou como cenário qualquer país onde houvesse comunidade judaica. O mesmo acontece em O Ministério de Casos Especiais (tradução de Paulo Reis; Rocco; 440 páginas; 55 reais), um romance ambientado na Buenos Aires da ditadura militar e da "guerra suja" contra seus opositores.

O ponto de partida do romance é um episódio perturbador: o tráfico de mulheres judias da Europa para o Novo Mundo por uma organização conhecida como Tzvi Migdal. Tanto os cafetões como as prostitutas eram malvistos pelas comunidades judaicas e levavam uma vida à parte. Tinham, inclusive, cemitérios próprios. Somos então apresentados a Kaddish Poznan, filho de uma dessas prostitutas. Kaddish ganha dinheiro eliminando nomes das lápides dos cemitérios, quando o passado pode trazer problemas para as famílias. É casado com a sensata e corajosa Lilian, que trabalha numa seguradora; têm um filho (Pablo ou Pato), de 19 anos, jovem que, por causa de suas idéias esquerdistas, é seqüestrado pela repressão argentina.

Kaddish e Lilian integram, como as mães da Plaza de Mayo, aquele angustiado grupo de pais que procuram por seus filhos. Vivem uma trajetória kafkiana, na qual o chamado Ministério de Casos Especiais desempenha um papel central. Os contatos com funcionários adquirem uma conotação surrealista. Há um momento em que entregam a eles uma garota no lugar do filho seqüestrado. Kaddish e Lilian pedem ajuda a um general e sua esposa, a um líder da comunidade judaica, a um cirurgião plástico e a um capelão católico, a quem Lilian diz: "Salve o garoto nesta vida e fique com a alma dele na próxima". Kaddish encontra um homem que participou das operações em que jovens eram atirados de avião no estuário do Rio da Prata e começa a acreditar que Pato já não vive. Tenta um recurso extremo: rouba os ossos do sogro do general, para com eles fazer algum tipo de barganha.

O conhecimento de Englander sobre a ditadura argentina resulta dos livros que leu e de um período que passou em Buenos Aires. Sabiamente, ele optou por uma narrativa na qual as referências históricas e geográficas são mínimas. O que predomina são os diálogos, sempre vivos, temperados com humor amargo. E daí vem a força do livro. Em O Ministério de Casos Especiais a repressão ditatorial não é o problema de um país e de uma época: é um tema universal.



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