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9 de julho de 2008
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Veteranos se tornam calouros

Os grisalhos na sala de aula já não são só os professores. Milhares de pessoas acima dos 50 estão na universidade em busca de um novo caminho – ou apenas de uma atividade para ocupar o tempo livre


Camila Pereira


Paulo Pereira
O agrônomo Luis Antonio de Andrade, entre seus colegas de turma na Fundação Getulio Vargas: aos 50 anos, ele conseguiu concretizar o sonho de estudar direito e arranjou até estágio na procuradoria do estado: "Acham que eu sou procurador"

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Quando Leda Tella abriu a porta da sala no primeiro dia de aula, a classe fez silêncio. Os estudantes pensavam se tratar da professora, mas era mais uma aluna do curso de direito na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. O motivo do mal-entendido: Leda tem 54 anos. Ela pertence a um crescente grupo de calouros que ingressa na universidade depois dos 50. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a concentração deles mais que dobrou desde 2000. Salvo raras exceções, quase todos já têm um diploma de ensino superior. Voltam à sala de aula, basicamente, por dois motivos. Uma parte busca uma atividade intelectual numa fase da vida em que começa a sobrar tempo – caso de Leda, que tem dois filhos crescidos e não exercia a profissão de assistente social. Ela diz: "Ir à universidade é um estímulo à mente, ainda que não tenha nenhuma finalidade prática." Cinqüentões como Leda são os que costumam aparecer em cursos como psicologia, teologia, pedagogia e comunicação social, entre os mais procurados nessa faixa etária (veja o quadro). O restante, ainda na ativa, mira um plano B para a aposentadoria. Depois de décadas de carteira assinada, essas pessoas chegam à universidade à procura de uma segunda formação que lhes permita trabalhar, enfim, por conta própria. Daí a preferência pelas faculdades de direito e administração de empresas. A idéia é manter uma vida produtiva – sem chefe.

Cursar uma universidade depois de cruzar a barreira dos 50 não é tão fácil. Para conseguir vaga numa boa faculdade, muitos veteranos enfrentam a maratona dos cursinhos, uma vez que as matérias cobradas no vestibular não passam de lembrança remota. Depois de entrar, eles precisam reaprender a estudar e se adequar aos novos tempos. Alguns contratam professores particulares de computação para conseguir realizar os trabalhos na tela, algo que eles não sabem e lhes é exigido o tempo todo. O agrônomo Luis Antonio de Andrade diz já ter vencido o período de adaptação na faculdade de direito da Fundação Getulio Vargas (FGV). Aos 18, sonhava ser advogado, mas acabou na agronomia por pragmatismo: sua família era dona de uma fazenda no interior de São Paulo. Só aos 50 conseguiu juntar dinheiro para passar quatro anos estudando direito sem receber salário. Sua renda hoje se limita aos 460 reais mensais do estágio que arranjou na Procuradoria Geral do Estado, onde costuma ser confundido com os procuradores. "As pessoas se espantam quando digo que sou apenas o estagiário." Depois da formatura, Andrade planeja abrir seu próprio escritório de advocacia. "Recomeçar nessa idade é um processo rejuvenescedor", diz ele.

Pesquisas sobre calouros cinqüentões reforçam a idéia de que a volta à sala de aula na maturidade traz benefícios que vão além de uma eventual guinada na vida profissional ou da expansão do conhecimento. Uma das mais abrangentes foi conduzida pela Universidade de Londres. De acordo com os ingleses, o primeiro efeito positivo diz respeito à construção de uma nova rede de amigos numa fase da vida em que muita gente se queixa de solidão. O outro se refere ao fato de o ambiente acadêmico ajudar a manter essas pessoas atualizadas – sobretudo em relação ao mundo digital, que até então ignoravam. O exercício intelectual tem impacto positivo também na saúde, ao contribuir para a manutenção da memória e para a inibição de certas doenças neurológicas, como já foi comprovado cientificamente. Tudo isso, conclui a pesquisa, ajuda a preservar de forma decisiva a qualidade de vida na meia-idade (com o perdão pela expressão).

O aumento dos estudantes com mais de 50 anos não se restringe ao Brasil. Trata-se de um fenômeno típico de países em que a população envelhece – e chega à plena maturidade cheia de saúde e disposição. Também não se limita à graduação. Em quase todas as universidades brasileiras, há cursos livres oferecidos a gente dessa faixa etária. Na pós-graduação, por sua vez, o porcentual dos que têm 50 ou mais cresceu incrivelmente: 110% nos últimos cinco anos. O matemático Luciano dos Santos não planeja parar de estudar – só que medicina. A migração entre áreas tão distintas, por si só, já chamaria atenção nesse caso. Surpreende ainda mais saber a idade em que Luciano decidiu fazer isso: 58 anos. Aposentado depois de um quarto de século numa multinacional, ele se viu entediado. Matriculou-se num cursinho e, na quinta tentativa, entrou na faculdade de medicina da Universidade Federal de São Paulo, uma das mais disputadas do país. Está hoje no quarto ano e se diz realizado com o recomeço a essa altura da vida: "Se puder ser útil como médico, será fantástico. Mas estudar já está valendo a pena".

 



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