A Bovespa, na década de 70: de
lá para cá, o mercado de capitais atraiu milhões de brasileiros
Há quase quarenta anos,
os brasileiros da classe média começaram a descobrir
as possibilidades oferecidas pelo mercado de capitais. VEJA registrou
o fenômeno na capa da edição de 22 de julho
de 1970 (reproduzida acima), em que o personagem Tio Patinhas,
com cifrões no lugar dos olhos, conclamava os leitores:
"Você aí, vamos comigo à bolsa? Ela está
melhorando". Desde então, apesar de todos os percalços
enfrentados pela economia do país, uma quantidade enorme
de pessoas aceitou o convite capitalista e foi à
bolsa de valores, que se aperfeiçoou mais e mais, numa
prova de que Tio Patinhas estava certo. Hoje, 6 milhões
de brasileiros investem em ações, seja direta ou
indiretamente, por meio de fundos geridos por instituições
financeiras. Um mercado de capitais eficiente é essencial
para garantir a prosperidade da economia de uma nação
a longo prazo. O florescimento da Bovespa foi, assim, uma das
ótimas notícias da história recente do Brasil.
Ele solucionou em boa parte a escassez de recursos para novos
investimentos. Para se ter uma idéia, nos últimos
quatro anos, 161 companhias lançaram ações
na Bolsa, captando mais de 130 bilhões de reais. Com isso,
não só receberam uma bela injeção
de dinheiro, como se viram obrigadas a aprimorar sua administração,
visto que passaram a ter de prestar contas aos novos sócios
os acionistas. Na hipótese, é claro, de estarem
seguindo à risca o manual.
Há que elogiar
os avanços nesse mercado, mas também apontar as
falhas que nele persistem. A reportagem publicada na página
72 mostra que falta rigor na fiscalização das
empresas que entram na Bolsa. Um exemplo espantoso é
o da companhia Agrenco, do setor agrário. Ela captou,
em outubro de 2007, 666 milhões de reais, vendendo gato
por lebre os investidores que acreditaram ter feito um
bom negócio ao comprar ações adquiriram,
na verdade, papéis podres. Os proprietários foram
presos e os acionistas não sabem a quem recorrer, já
que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e
a KPMG, empresa que auditou os balanços da Agrenco, eximiram-se
de qualquer responsabilidade. É preciso dar mais musculatura
à CVM, para que o mercado de capitais continue a desempenhar,
sem turbulências perfeitamente evitáveis, seu papel
no crescimento das empresas nacionais e no enriquecimento dos
cidadãos. A bolsa, afinal, é a vida.