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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O
mato não é treva
"Ardem
os pastos, as orquídeas e as
bromélias. Do alto do Itambé, vemos
o futuro do turismo de aventura de uma
região sendo imolado pelo Brasil velho"
"Ali
é só mato." Essa era uma condenação
fatal no Brasil velho. O mato era a treva, o perigo de uma flechada
ou de ser comido por uma onça. Daí a aversão
ao mato e o impulso irresistível de cortá-lo ou queimá-lo,
fruto do medo atávico que ainda existe em nossa cultura.
Mas cresce e aparece um Brasil novo, onde o mato é o verde,
é o canto das aves, é o tema de qualquer lançamento
imobiliário que se preze. É também a percepção
de que o país não é mais infinito, não
podemos destruí-lo impunemente. Vivemos a batalha entre duas
religiões do "mato". A batalha entre o Brasil velho e o Brasil
novo, em que o velho destrói e o novo conserva.
De Diamantina, avistamos o Pico do Itambé, na majestade de
seus 2.000 metros de altitude. É um dos picos mais belos
de Minas Gerais. Pelo prazer da caminhada e por uma vista ainda
mais deslumbrante, alguns enfrentam seus 1.000 metros de desnível.
Em Santo Antônio do Itambé já existem guias
conhecedores da região e uma semente de infra-estrutura.
Ilustração Ale Setti
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Alguns anos atrás, o pico e seu entorno viraram parque estadual.
Mas encravada em seu meio sobrou uma fazenda de gado cuja desapropriação
se arrasta nos tribunais. Seu Joaquim, o proprietário, é
a quintessência do Brasil velho. Há tempos ateia fogo
nos campos e desmata o parque, para vender mourões de candeia.
Na subida, vimos alguns, já prontos para ser vendidos. Seu
Joaquim foi ameaçado e até preso, mas o atavismo é
mais forte.
Não se duvida da sinceridade dos funcionários de Belo
Horizonte que administram os parques nem da polícia rural.
Mas as melhores intenções aterrissam em municípios
longínquos, onde os embates do "mato ruim" contra o "mato
bom" ainda não têm vencedores declarados. Quem é
mesmo que compra os mourões do Seu Joaquim? A Justiça
é morosa, o funcionamento da polícia é truncado
pelos resquícios do coronelismo. Mas a batalha é local,
e lá terá de ser a vitória. O Padre Rolim foi
o último inconfidente a ser preso, após renhida batalha
em Santo Antônio do Itambé. Desejamos que a cidade
aprenda a defender o meio ambiente com a garra com que defendeu
aquele que queria um Brasil livre.
A exploração ilegal de carvão é outra
briga veneranda. A data de uma blitz pode vazar para os carvoeiros.
A ação é morna e morosa, tentando acomodar
a letra da lei com os interesses econômicos do Brasil velho.
Seguimos a picada morro acima. Quanto mais se sobe, mais maravilhosa
a paisagem. O guia, pela própria iniciativa, vai recolhendo
o lixo deixado pelos turistas da região que visitaram o Itambé.
Mesmo a nova geração local ainda pertence ao Brasil
velho. Os de fora, convertidos à nova religião do
mato, são bem-comportados e trazem seu lixinho de volta.
Nestes dias de inverno, faz frio no topo e a visibilidade é
perfeita. Lá está o Serro, acolá Diamantina.
Estamos em pleno maciço do Espinhaço, rodeados de
belíssimas montanhas. Paz e deslumbramento, enquanto projetamos
a vista para o horizonte. Se nos virarmos, vamos ver os escombros
de uma estação repetidora de televisão (desativada)
destruída pelos "turistas". Os transmissores foram arrancados
e lançados nas imediações. Tem grafite em todas
as paredes, não existe espaço para mais. Há
garrafas, latas e outras embalagens pelo chão.
Vemos também as queimadas, em pleno parque. Algumas foram
ateadas onde pasta o gado de Seu Joaquim. Na outra encosta, de binóculo,
podíamos ver três pessoas incendiando os pastos. O
guia reconheceu um deles. Pasto queimado renasce mais rápido,
mas avança sobre as matas ciliares e destrói os arbustos
e as orquídeas. É a briga do imediato contra o futuro,
do Brasil velho contra o novo.
Ardem os pastos, as orquídeas e as bromélias. Do alto
do Itambé, vemos o futuro do turismo de aventura da região
sendo imolado pelo Brasil velho. Vemos a luta permanente entre os
dois. A boa notícia é que houve grandes progressos
na redução das queimadas sazonais. Há um avanço
e uma consolidação do Brasil novo, mas este chega
mais lento no interior. O velho e o novo apostam corrida. O novo
vai ganhar. Mas quanto restará de nosso patrimônio
ecológico (e cultural) quando isso acontecer?
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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