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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Os
perigos de
virar Buffalo Bill
À
falta de
decisões e clareza de propósitos,
o Palácio do Planalto esmera-se
em
produzir diversão
Como
se chama isso? Em inglês, é "entertainer". Com muita
relutância se escreve aqui a palavra estrangeira, mas é
que, em português, não existe um equivalente preciso.
É a pessoa que se põe à frente do palco e,
falando e gesticulando, dirigindo-se a uns e outros, caprichando
nas tiradas de humor, contando piadas e eventualmente cantando e
dançando, comanda a cena, com a responsabilidade de segurar
o ritmo do espetáculo e manter o astral da platéia.
É o "entretenedor", para recorrer a palavra inexistente,
mas que seria a exata expressão do que se quer dizer. O animador
de auditório, ultimamente mais chamado, na televisão,
de "apresentador", ou "apresentadora", pertence à raça
dos entretenedores. O verbo solto e o raciocínio rápido,
a desinibição e a capacidade de improvisação
são suas ferramentas de ofício. O presidente Lula
viveu, na última quarta-feira, um dia de entretenedor.
Não
que não tivesse, antes, representado o mesmo papel. Lula,
já há algum tempo, exibe tiques de "apresentador".
Mas a quarta-feira foi um dia cheio nessa especialidade, o mais
cheio de seus seis meses de Presidência. Foi o dia em que
ele recebeu os dirigentes do Movimento dos Sem-Terra, no Palácio
do Planalto, e, não bastassem as evoluções
com boné e bola de futebol que caracterizaram o evento, ainda
contracenou, horas depois, com o grupo É o Tchan. Na recepção
ao MST, o presidente superou-se. Apanhou dois biscoitos, da cesta
de quitutes que lhe fora oferecida, e enfiou um na boca de cada
um dos dois visitantes de quem recebera o presente. Quando outro
dos visitantes lhe entregou a bola de futebol, costurada por crianças
de um acampamento de sem-terra, pediu-lhe que fizesse umas embaixadinhas.
Foi atendido. Conteve-se ao ser instado, ele próprio, a ensaiar
umas embaixadas. Alegou que o protocolo não permitia. Mas
convidou os emessetistas, como tem sido inevitável, seja
com quem for que lhe cruze o caminho, a disputar uma pelada na Granja
do Torto. O show estava completo. Diante de tanto riso e movimento,
o fato de ter levado o chapéu do MST à cabeça,
por alguns segundos, foi um detalhe. Depois, com a turma do Tchan,
que integrava uma delegação da Associação
Brasileira dos Produtores de Disco, ali presente para agradecer
a sanção de uma legislação mais rígida
contra a pirataria de CDs, posou com gosto ao lado das beldades
Scheila Carvalho e Sheila Melo. "Morram de inveja", dizia aos fotógrafos.
Lula
é um grande comunicador. Não é por outro motivo
que chegou aonde chegou. Sua carreira prova que o verbo, não
importa que com erros de português isso é o
de menos ., ainda é a arma
mais importante dos políticos. Pela eloqüência
firmou-se como líder, graças a ela colheu adesões,
capturou imaginações, seduziu e arrebatou. Sua palavra,
sempre soando firme e corajosa, mesmo que às vezes repousasse
num emaranhado confuso de idéias, valeu-lhe o vínculo
direto com um público crescente. Mais recentemente, depois
da guinada, digamos, "humanizadora" da última campanha eleitoral,
revelou-se também um ladrão emérito da simpatia
das platéias. Seu magnetismo não vinha mais apenas
(ou, talvez, simplesmente não vinha mais) da palavra, indignada
como muitos queriam ouvir, desafiadora como muitos não ousavam.
Com avassaladora competência, impunha-se agora como o amigo,
o pai e o irmão, a gente-como-a-gente, o espelho e o resumo
do povo brasileiro. Com isso, acrescentou mais uma tonelada de potência
a seu talento de comunicador. Armou uma ligação com
o público como talvez nenhum presidente antes.
O
problema é que há uma distância entre o comunicador
e o entretenedor. Alguém que está no ramo da política,
e passa de comunicador a entretenedor, vira o fio. Repete Bufallo
Bill, quando passou a dissipar seus dotes de caçador, vaqueiro
e combatente de índios em exibições de feira.
Não se está falando aqui de vulgaridade. Não
é que seja vulgar comandar no Palácio um espetáculo
com boné, biscoitos e bola de futebol, ou com as moças
do Tchan. Nem é vulgar Buffalo Bill passar a representar
a si mesmo. O problema do Buffalo Bill de feira é que encena
um número vazio de sentido, em que as proezas e os inimigos
são de mentira. O comunicador, para ser bom mesmo, tem de
ter uma mensagem a comunicar. O velho Lula era bom nisso. Ao entretenedor
só cabe divertir. Não é o caso de um presidente,
cujo ramo não se confunde com os de Ratinho e Silvio Santos.
Em
face de espetáculos como o de Lula com o MST, a pergunta
é: "Qual é a mensagem?". E a resposta mais correta
talvez seja: "Nenhuma". Imaginar que o fato de ter vestido o boné
do MST significa adesão ao movimento é simplista.
Mais plausível é supor que, não sabendo o que
fazer com a questão, brinca com ela. Eis a que cheira a opção
presidencial pelo entretenimento: produzir uma bruma que disfarce
a pouca decisão e a falta de clareza de propósitos,
em torno não só da reforma agrária, mas de
uma vasta gama de itens. Para matar o tempo, joga-se diversão
para a platéia.
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