Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Os perigos de
virar Buffalo Bill

À falta de decisões e clareza de propósitos,
o Palácio do Planalto esmera-se em
produzir
diversão

Como se chama isso? Em inglês, é "entertainer". Com muita relutância se escreve aqui a palavra estrangeira, mas é que, em português, não existe um equivalente preciso. É a pessoa que se põe à frente do palco e, falando e gesticulando, dirigindo-se a uns e outros, caprichando nas tiradas de humor, contando piadas e eventualmente cantando e dançando, comanda a cena, com a responsabilidade de segurar o ritmo do espetáculo e manter o astral da platéia. É o "entretenedor", para recorrer a palavra inexistente, mas que seria a exata expressão do que se quer dizer. O animador de auditório, ultimamente mais chamado, na televisão, de "apresentador", ou "apresentadora", pertence à raça dos entretenedores. O verbo solto e o raciocínio rápido, a desinibição e a capacidade de improvisação são suas ferramentas de ofício. O presidente Lula viveu, na última quarta-feira, um dia de entretenedor.

Não que não tivesse, antes, representado o mesmo papel. Lula, já há algum tempo, exibe tiques de "apresentador". Mas a quarta-feira foi um dia cheio nessa especialidade, o mais cheio de seus seis meses de Presidência. Foi o dia em que ele recebeu os dirigentes do Movimento dos Sem-Terra, no Palácio do Planalto, e, não bastassem as evoluções com boné e bola de futebol que caracterizaram o evento, ainda contracenou, horas depois, com o grupo É o Tchan. Na recepção ao MST, o presidente superou-se. Apanhou dois biscoitos, da cesta de quitutes que lhe fora oferecida, e enfiou um na boca de cada um dos dois visitantes de quem recebera o presente. Quando outro dos visitantes lhe entregou a bola de futebol, costurada por crianças de um acampamento de sem-terra, pediu-lhe que fizesse umas embaixadinhas. Foi atendido. Conteve-se ao ser instado, ele próprio, a ensaiar umas embaixadas. Alegou que o protocolo não permitia. Mas convidou os emessetistas, como tem sido inevitável, seja com quem for que lhe cruze o caminho, a disputar uma pelada na Granja do Torto. O show estava completo. Diante de tanto riso e movimento, o fato de ter levado o chapéu do MST à cabeça, por alguns segundos, foi um detalhe. Depois, com a turma do Tchan, que integrava uma delegação da Associação Brasileira dos Produtores de Disco, ali presente para agradecer a sanção de uma legislação mais rígida contra a pirataria de CDs, posou com gosto ao lado das beldades Scheila Carvalho e Sheila Melo. "Morram de inveja", dizia aos fotógrafos.

Lula é um grande comunicador. Não é por outro motivo que chegou aonde chegou. Sua carreira prova que o verbo, não importa que com erros de português – isso é o de menos .–, ainda é a arma mais importante dos políticos. Pela eloqüência firmou-se como líder, graças a ela colheu adesões, capturou imaginações, seduziu e arrebatou. Sua palavra, sempre soando firme e corajosa, mesmo que às vezes repousasse num emaranhado confuso de idéias, valeu-lhe o vínculo direto com um público crescente. Mais recentemente, depois da guinada, digamos, "humanizadora" da última campanha eleitoral, revelou-se também um ladrão emérito da simpatia das platéias. Seu magnetismo não vinha mais apenas (ou, talvez, simplesmente não vinha mais) da palavra, indignada como muitos queriam ouvir, desafiadora como muitos não ousavam. Com avassaladora competência, impunha-se agora como o amigo, o pai e o irmão, a gente-como-a-gente, o espelho e o resumo do povo brasileiro. Com isso, acrescentou mais uma tonelada de potência a seu talento de comunicador. Armou uma ligação com o público como talvez nenhum presidente antes.

O problema é que há uma distância entre o comunicador e o entretenedor. Alguém que está no ramo da política, e passa de comunicador a entretenedor, vira o fio. Repete Bufallo Bill, quando passou a dissipar seus dotes de caçador, vaqueiro e combatente de índios em exibições de feira. Não se está falando aqui de vulgaridade. Não é que seja vulgar comandar no Palácio um espetáculo com boné, biscoitos e bola de futebol, ou com as moças do Tchan. Nem é vulgar Buffalo Bill passar a representar a si mesmo. O problema do Buffalo Bill de feira é que encena um número vazio de sentido, em que as proezas e os inimigos são de mentira. O comunicador, para ser bom mesmo, tem de ter uma mensagem a comunicar. O velho Lula era bom nisso. Ao entretenedor só cabe divertir. Não é o caso de um presidente, cujo ramo não se confunde com os de Ratinho e Silvio Santos.

Em face de espetáculos como o de Lula com o MST, a pergunta é: "Qual é a mensagem?". E a resposta mais correta talvez seja: "Nenhuma". Imaginar que o fato de ter vestido o boné do MST significa adesão ao movimento é simplista. Mais plausível é supor que, não sabendo o que fazer com a questão, brinca com ela. Eis a que cheira a opção presidencial pelo entretenimento: produzir uma bruma que disfarce a pouca decisão e a falta de clareza de propósitos, em torno não só da reforma agrária, mas de uma vasta gama de itens. Para matar o tempo, joga-se diversão para a platéia.

 
 
 
 
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