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Livros
Voz da América
Em Coelho Se Cala, John Updike
traça outro
painel surpreendente
da vida americana

Moacyr
Scliar
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A
obra caudalosa do americano John Updike prova que é possível
conciliar qualidade e quantidade, superfície e profundidade
quando o escritor tem talento (e energia) para tanto. Do
talento de Updike a coletânea Coelho Se Cala e Outras
Histórias (tradução de Paulo Henriques
Britto; Companhia das Letras; 367 páginas; 41 reais) é
uma excelente amostra. Ela reúne doze contos e uma novela
mais longa, Coelho Se Cala, que é a peça de
resistência do livro. Trata-se de uma espécie de posfácio
da obra mais famosa do escritor, a tetralogia formada pelos romances
Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho Cresce e
Coelho Cai. Publicada num espaço de trinta anos, a partir
de 1960, a série acompanha o personagem Harry "Coelho" Angstrom,
um sujeito atlético e atraente, desde a juventude até
o declínio, recuperando também a trajetória
da América no período: a contestação
dos anos 60, a revolução sexual e o advento da Aids.
Escrito e ambientado em 1999, quase dez anos depois de o último
livro da série ter vindo à tona, Coelho Se Cala
debruça-se, com muito humor, sobre a família americana
dos anos mais recentes. Mas a novela não é, nem de
longe, o único atrativo da coletânea. Seus demais contos
fornecem um painel abrangente da classe média da Nova Inglaterra,
a região dos Estados Unidos onde o escritor vive. Ao retratar
a sociedade de seu país, Updike não é cáustico
como um Philip Roth, por exemplo. Está-se diante de um ficcionista
amável com o leitor e com seus personagens.
Em Coelho Se Cala, Harry Angstrom é evocado depois
de sua morte. A viúva, Janice, casou com Ronnie Harrison,
que por sua vez era casado com a amante de Harry, Thelma. O filho
de Harry, Nelson, já quarentão, perdeu a revenda de
veículos da família quando era dependente de cocaína.
Recuperado, vive com a mãe e trabalha numa clínica
para doentes mentais. Tem um filho adolescente, Roy, que mora em
outra cidade e se comunica com o pai mandando-lhe e-mails com anedotas
pornográficas. Quando a novela começa, uma mulher
misteriosa chamada Annabelle procura Janice para dizer que sua mãe
teve um caso com o mulherengo Harry. Annabelle pode, portanto, ser
filha do "Coelho". Janice não quer nada com a moça,
mas Nelson, ao contrário, aproxima-se de Annabelle, com quem
rememora histórias de Harry, o que para ele funciona como
terapia, permitindo-lhe reconciliar-se com a imagem paterna. O conflito
se agudiza quando Nelson convida Annabelle para a ceia do Dia de
Ação de Graças. A festa termina em briga, com
o que Nelson decide sair da casa da mãe.
Os contos, mais antigos que a novela, seguem a mesma temática.
Sexo é neles um elemento sempre presente, mas é o
sexo complicado, tortuoso, da classe média americana. Em
As Mulheres que Escaparam, Updike escreve: "Os anos 60 nos
tinham ensinado o elevado valor moral do coito e relutávamos
em abandonar uma atividade ao mesmo tempo tão prazerosa e
tão saudável. Mas o fato é que não se
podia dormir com todo mundo; éramos burgueses, responsáveis,
tínhamos empregos e filhos e as obrigações
demandavam energia". Garota de Nova York narra o caso extraconjugal
de um representante comercial. Não é exatamente um
romance lírico. "Havíamos dormido mal, um roncando
na cara do outro, um se esquivando do cotovelo do outro", relata
o protagonista.
Uma vida neurótica, uma vida não raro infeliz, mas
uma vida confortável, sem grandes carências, sem grandes
conflitos assim é a existência dos personagens
de Updike. E isso, em termos de ficção, cobra seu
preço: não podemos esperar, nesse cenário,
nenhum drama épico, nenhuma tragédia. Harry Angstrom
não tem a grandeza de um dom Quixote ou de uma Emma Bovary.
Em compensação, os personagens de Updike respiram
autenticidade. O cotidiano americano é minuciosamente reconstruído.
Está tudo ali: as cidades, os automóveis de marcas
conhecidas, os restaurantes com seus cardápios padronizados.
Em Coelho Se Cala, Updike oferece um misto de crônica
e ficção, com a linguagem fluente e elegante que o
consagrou. Ao lado de Philip Roth e Saul Bellow, ele é um
dos mais argutos intérpretes de uma América cuja cultura
tem marcado o mundo inteiro. E isso é mais que suficiente
para colocá-lo entre os autores que realmente têm algo
a dizer sobre a atualidade.
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Grunhidos
animais
"Nelson
está precisando de mulher, meu Deus. No trabalho,
suas possibilidades são parcas: cliente é
tabu, e as colegas deviam ser também, mesmo se
fossem menos feiosas Katie, tão séria;
Andrea, a arte-terapeuta, metida a besta; Elenita, a
recepcionista dominicana, que pinta o cabelo de laranja;
ou Esther, que é judia, mais velha e forte demais.
Nos bares que Nelson freqüentava antigamente, as
garotas agora são tão jovens que parecem
bobas. Elas dizem "tipo assim" e "super" o tempo todo
e prolongam as sílabas tônicas com afetação.
Quando uma das moças que moram do outro lado
de sua parede pára de rir e a voz rouquenha de
algum namorado se entrelaça com a dela, e as
palavras cada vez mais escassas se intercalam com grunhidos
animais, a inveja de Nelson não conhece limites;
é como se ele despisse uma boneca Barbie em sua
mente e constatasse que ela é lisa e rígida,
sem mamilos, com pernas que não se dobram."
Trecho
de Coelho Se Cala
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