Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Livros
Voz da América

Em Coelho Se Cala, John Updike
traça outro
painel surpreendente
da vida americana


Moacyr Scliar

Trechos do livro

A obra caudalosa do americano John Updike prova que é possível conciliar qualidade e quantidade, superfície e profundidade – quando o escritor tem talento (e energia) para tanto. Do talento de Updike a coletânea Coelho Se Cala e Outras Histórias (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 367 páginas; 41 reais) é uma excelente amostra. Ela reúne doze contos e uma novela mais longa, Coelho Se Cala, que é a peça de resistência do livro. Trata-se de uma espécie de posfácio da obra mais famosa do escritor, a tetralogia formada pelos romances Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho Cresce e Coelho Cai. Publicada num espaço de trinta anos, a partir de 1960, a série acompanha o personagem Harry "Coelho" Angstrom, um sujeito atlético e atraente, desde a juventude até o declínio, recuperando também a trajetória da América no período: a contestação dos anos 60, a revolução sexual e o advento da Aids. Escrito e ambientado em 1999, quase dez anos depois de o último livro da série ter vindo à tona, Coelho Se Cala debruça-se, com muito humor, sobre a família americana dos anos mais recentes. Mas a novela não é, nem de longe, o único atrativo da coletânea. Seus demais contos fornecem um painel abrangente da classe média da Nova Inglaterra, a região dos Estados Unidos onde o escritor vive. Ao retratar a sociedade de seu país, Updike não é cáustico como um Philip Roth, por exemplo. Está-se diante de um ficcionista amável – com o leitor e com seus personagens.

Em Coelho Se Cala, Harry Angstrom é evocado depois de sua morte. A viúva, Janice, casou com Ronnie Harrison, que por sua vez era casado com a amante de Harry, Thelma. O filho de Harry, Nelson, já quarentão, perdeu a revenda de veículos da família quando era dependente de cocaína. Recuperado, vive com a mãe e trabalha numa clínica para doentes mentais. Tem um filho adolescente, Roy, que mora em outra cidade e se comunica com o pai mandando-lhe e-mails com anedotas pornográficas. Quando a novela começa, uma mulher misteriosa chamada Annabelle procura Janice para dizer que sua mãe teve um caso com o mulherengo Harry. Annabelle pode, portanto, ser filha do "Coelho". Janice não quer nada com a moça, mas Nelson, ao contrário, aproxima-se de Annabelle, com quem rememora histórias de Harry, o que para ele funciona como terapia, permitindo-lhe reconciliar-se com a imagem paterna. O conflito se agudiza quando Nelson convida Annabelle para a ceia do Dia de Ação de Graças. A festa termina em briga, com o que Nelson decide sair da casa da mãe.

Os contos, mais antigos que a novela, seguem a mesma temática. Sexo é neles um elemento sempre presente, mas é o sexo complicado, tortuoso, da classe média americana. Em As Mulheres que Escaparam, Updike escreve: "Os anos 60 nos tinham ensinado o elevado valor moral do coito e relutávamos em abandonar uma atividade ao mesmo tempo tão prazerosa e tão saudável. Mas o fato é que não se podia dormir com todo mundo; éramos burgueses, responsáveis, tínhamos empregos e filhos e as obrigações demandavam energia". Garota de Nova York narra o caso extraconjugal de um representante comercial. Não é exatamente um romance lírico. "Havíamos dormido mal, um roncando na cara do outro, um se esquivando do cotovelo do outro", relata o protagonista.

Uma vida neurótica, uma vida não raro infeliz, mas uma vida confortável, sem grandes carências, sem grandes conflitos – assim é a existência dos personagens de Updike. E isso, em termos de ficção, cobra seu preço: não podemos esperar, nesse cenário, nenhum drama épico, nenhuma tragédia. Harry Angstrom não tem a grandeza de um dom Quixote ou de uma Emma Bovary. Em compensação, os personagens de Updike respiram autenticidade. O cotidiano americano é minuciosamente reconstruído. Está tudo ali: as cidades, os automóveis de marcas conhecidas, os restaurantes com seus cardápios padronizados. Em Coelho Se Cala, Updike oferece um misto de crônica e ficção, com a linguagem fluente e elegante que o consagrou. Ao lado de Philip Roth e Saul Bellow, ele é um dos mais argutos intérpretes de uma América cuja cultura tem marcado o mundo inteiro. E isso é mais que suficiente para colocá-lo entre os autores que realmente têm algo a dizer sobre a atualidade.

 

Grunhidos animais

"Nelson está precisando de mulher, meu Deus. No trabalho, suas possibilidades são parcas: cliente é tabu, e as colegas deviam ser também, mesmo se fossem menos feiosas – Katie, tão séria; Andrea, a arte-terapeuta, metida a besta; Elenita, a recepcionista dominicana, que pinta o cabelo de laranja; ou Esther, que é judia, mais velha e forte demais. Nos bares que Nelson freqüentava antigamente, as garotas agora são tão jovens que parecem bobas. Elas dizem "tipo assim" e "super" o tempo todo e prolongam as sílabas tônicas com afetação. Quando uma das moças que moram do outro lado de sua parede pára de rir e a voz rouquenha de algum namorado se entrelaça com a dela, e as palavras cada vez mais escassas se intercalam com grunhidos animais, a inveja de Nelson não conhece limites; é como se ele despisse uma boneca Barbie em sua mente e constatasse que ela é lisa e rígida, sem mamilos, com pernas que não se dobram."

Trecho de Coelho Se Cala

 

 
 
 
 
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