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Entrevista
"Escrevo sobre o que conheço"

Silvia
Rogar
Selmy Yassuda
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MANOEL
CARLOS
"Mulheres
Apaixonadas será a minha última novela.
Não tenho mais condições físicas.
Novela é uma estiva. Se não parar, minha mulher
se separa de mim"
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Aos
70 anos, Manoel Carlos é o único remanescente de uma
geração de autores que participou ativamente da construção
da televisão brasileira. Nos anos 50, escreveu mais de 100
peças para o Grande Teatro Tupi e, nas duas décadas
seguintes, criou e dirigiu programas que marcaram época,
como O Fino da Bossa, Jovem Guarda, Essa Noite Se Improvisa
e Família Trapo, todos da Rede Record. Foi o primeiro
diretor do Fantástico, da Rede Globo. Escreveu para
as TVs mexicana, argentina, colombiana e americana sem jamais ter
estado na maioria dos lugares onde a trama se desenrolava. Nessa
estrada, adquiriu domínio sobre todas as etapas da produção
televisiva. "Na TV ao vivo, a gente tinha de trocar cenário
sem fazer barulho", lembra. "Quem começou na TV Globo não
passou pela dificuldade da televisão sem tecnologia e sem
dinheiro." Manoel Carlos recebeu VEJA em seu apartamento no Leblon,
bairro carioca que tornou nacionalmente conhecido em suas novelas,
para a seguinte entrevista.
Divulgação
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Veja Por que o senhor elegeu a classe média a protagonista
de suas novelas?
Manoel
Carlos
Porque escrevo apenas sobre o que conheço. Nas minhas novelas
não há grã-finos porque nunca convivi com eles.
Muitos personagens, inclusive, nasceram das minhas observações
e lembranças da vida real. No caso de Mulheres Apaixonadas,
a mulher de classe média que tem caso com o motorista de
táxi baseia-se numa história que ocorreu no bairro
em que eu morava em São Paulo. Já o padre Pedro, que
balança o coração da personagem de Lavínia
Vlasak, é baseado num religioso espanhol que havia no meu
colégio. Ele despertava verdadeiras paixões.
Veja Em Mulheres Apaixonadas, o senhor aborda
o alcoolismo por meio de Santana (Vera Holtz) e a violência
doméstica por intermédio de Raquel (Helena Ranaldi).
Ambas são professoras e têm um bom padrão de
vida. A classe média não rejeita o fato de ver-se
retratada dessa forma?
Manoel Carlos Acho
que a classe média está mais aberta para esses assuntos.
A personagem da Vera é a que mais sensibiliza o público,
porque tenho a impressão de que não existe uma família
que não tem ou nunca teve um alcoólatra. Eu quis colocar
uma professora de adolescentes que bebesse, porque me parece que
isso acentua a gravidade do problema. No caso da violência
doméstica, não escolhi um pedreiro que toma umas cachaças
na esquina e enche a mulher de bolachas. Para mostrar que é
um drama comum a ricos, remediados e pobres, retratei o agressor
como um sujeito da classe média alta, que tem carro importado,
é gentil e educado.
Veja Por que as mulheres têm mais destaque nas
suas novelas?
Manoel
Carlos Há
um pouco de lenda nisso, mas não nego que acho as mulheres
mais interessantes. São menos hipócritas, mais verdadeiras,
percebem melhor as coisas. O que mais me impressiona é o
fato de a mulher ser muito confessional. Numa roda de amigas, ela
diz sem medo que é traída pelo marido. Um homem jamais
faria isso. Homens falam com homens sobre sexo, futebol, trabalho
e contam anedotas. Mulher fala de si própria. Além
de tudo, mulher fala mais. Isso para mim é importante, porque
tenho de escrever 34 páginas por dia.
Veja Como é sua rotina de trabalho?
Manoel Carlos Não
tenho nenhuma rotina. Não tenho hora para escrever, hora
para dormir nem hora para comer. Tenho um sono muito leve e, quando
acordo no meio da noite, é comum que a novela venha inteira
na minha cabeça. Aí eu me levanto e vou trabalhar
no meio da madrugada. É como se fosse uma doença que
toma conta de você, não dá para pensar em outra
coisa. Mas não perco o contato com a minha família
em hipótese alguma, e não deixo de ler seis jornais
por dia.
Veja Uma das marcas de suas novelas é a atualidade
dos diálogos, a rapidez com que expressões cotidianas
de um grupo etário ou social são transpostas para
a televisão. Como o senhor se abastece das informações
necessárias para conseguir esse resultado?
Manoel
Carlos
Levo uma vida absolutamente normal. Vou a banco, entro em fila de
casa lotérica e freqüento feira e bancas de jornal.
Ando pela rua e converso com as pessoas. É assim que assimilo
as diferentes expressões. A Globo é uma torre de marfim,
de onde as pessoas costumam sair pouco. Já eu saio todos
os dias, mesmo fazendo novela. Só não posso ir ao
cinema porque me atrapalha. Também não leio romances
quando estou escrevendo.
Veja Por quê?
Manoel
Carlos Quando
você escreve uma novela, tem de acreditar que só existe
uma história no mundo a sua. Se não for assim,
você pára de escrever. Tenho pavor de que isso aconteça.
O romancista tem essas crises, mas põe o livro de lado e
recomeça depois. Mas como um autor de novelas pode parar
de escrever uma novela que está no ar? Não pode. Tem
de acreditar que a sua história é a melhor que existe
e seguir até o fim.
Veja Com mais de cinqüenta anos de televisão,
o senhor ainda tem esse tipo de medo?
Manoel Carlos Claro.
Eu também não teria estrutura para agüentar uma
novela que não dá certo. Deve ser uma experiência
simplesmente desastrosa. Uma novela que não dá certo
é como carregar um cadáver nas costas. Isso pode acontecer
comigo. Faltam três meses para terminar a novela e eu fico
contando na folhinha. Só se pode ter certeza do sucesso no
fim, não dá para achar que se ganhou de véspera.
Veja Até que ponto a pressão por audiência
interfere em seu processo de criação?
Manoel
Carlos
Posso garantir que a Globo não faz pressão. Se a audiência
cair, não pense que alguém da direção
da emissora ligará para dizer que a novela não está
indo bem. Eu é que me pressiono. Quando entra uma cena que
considero lenta, anoto o minuto exato em que ela foi ao ar, para
conferir no medidor de audiência que tenho em casa como foi
o ibope. Novela é uma surpresa. Às vezes não
assisto a um capítulo porque acho que ficou tão ruim
que tenho vergonha. Mas não é raro que as pessoas
gostem do que não gosto.
Divulgação
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Veja O senhor se incomoda com o merchandising em suas
novelas?
Manoel
Carlos
Não, de maneira nenhuma. Se não existisse merchandising,
eu pediria para incluir de graça a citação
de produtos nas falas dos personagens. Isso dá mais veracidade
às cenas. Evidentemente, tomamos cuidado para não
cair no exagero. Nas minhas novelas só não entra merchandising
de bebida alcoólica e de cigarro. Meus personagens eventualmente
bebem e fumam, mas não aparece nenhuma marca. E os atores
podem aceitar ou não fazer merchandising de um determinado
produto. O Marcello Antony é um que não faz merchandising
de nada, por convicção.
Veja O senhor recebeu críticas pelo excesso
de cenas de sexo na série Presença de Anita. Quanto
a Mulheres Apaixonadas, houve quem se incomodasse com algumas
cenas tórridas. O que pensa disso?
Manoel
Carlos
Não acho que eu exagere nesse ponto. As pessoas com quem
converso na rua nunca criticam as cenas de sexo que escrevo. Pelo
contrário, costumam elogiar. Mas sempre estou aberto para
rever certos aspectos. Não quero ofender ninguém,
nem criar problemas para a família brasileira. Quero fazer
novelas de que as pessoas gostem. Não faço o tipo
"minha novela eu não mudo".
Veja O senhor já fez grandes mudanças
em suas novelas por causa do público?
Manoel
Carlos
Já mudei muito, mas foram mudanças pontuais. Em Laços
de Família, o ator Henrique Pagnoncellis entrou para
fazer seis capítulos com a Capitu (Giovanna Antonelli) e,
como agradou, ficou até o fim. Em Baila Comigo, não
matei o Fernando Torres por causa das cartas que recebia. Numa delas,
o sujeito dizia que tinha ficado órfão havia pouco
tempo e, caso o Fernando saísse da novela, ele se sentiria
perdendo o pai pela segunda vez. No caso de Mulheres Apaixonadas,
a quantidade de pedidos para eu poupar a Fernanda (Vanessa
Gerbelli, que vive uma história de amor com o personagem
de Tony Ramos) foi enorme. Por causa disso, a personagem teve
uma sobrevida de mais de 100 capítulos. Mas sua morte já
está decidida.
Veja A que tipo de programa o senhor assiste?
Manoel
Carlos
Novela, telejornal e programa de entrevistas. Mas muita novela,
sempre. Eu assisto a um pouco de cada uma, de todos os canais. E
acho engraçado quando vejo atores de televisão dizendo
que não vêem novela. A maioria declara que só
assiste ao Boris Casoy e ao Jô. Como ator de novela não
gosta de ver novela? Tem ator que diz: "Meu negócio é
teatro". Mas, quando você vai olhar, ele fez uma única
peça em dez anos e nunca parou de trabalhar em novela. Acho
que é até uma ingratidão, porque eles vivem
essencialmente do salário da televisão. Ao aparecer
numa novela, ganham projeção. Quando está no
ar, ator faz baile de debutantes, cobra para ir a um show. O teatro
não tem esses subprodutos.
Veja Mas teatro dá status...
Manoel
Carlos Sim,
mas eles não levam em conta que ator de teatro tem de ter
uma formação cultural que a televisão não
exige. É difícil um ator de teatro ser absolutamente
inculto e desinformado. Na televisão, uma boa parte dos atores
nunca leu um livro. Na TV, tem gente que sonha com as capas, mas
nem lê as revistas.
Veja
Qual será sua próxima novela?
Manoel
Carlos
No que depender de mim, Mulheres Apaixonadas será
a última. Não tenho mais condições físicas.
Escrever novela é uma estiva. Tenho contrato com a Globo
até 2008 e gostaria de fazer duas minisséries por
ano. Trabalho com muita vontade, e gosto do que faço. Mas,
se eu não parar de escrever novelas, minha mulher se separa
de mim. Aos 30, 40 anos, você pode adiar projetos por dez
anos. Aos 70, fica mais difícil.
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