Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Entrevista
"Escrevo sobre o que conheço"


Silvia Rogar

 
Selmy Yassuda

MANOEL CARLOS
"Mulheres Apaixonadas será a minha última novela. Não tenho mais condições físicas. Novela é uma estiva. Se não parar, minha mulher se separa de mim"

Aos 70 anos, Manoel Carlos é o único remanescente de uma geração de autores que participou ativamente da construção da televisão brasileira. Nos anos 50, escreveu mais de 100 peças para o Grande Teatro Tupi e, nas duas décadas seguintes, criou e dirigiu programas que marcaram época, como O Fino da Bossa, Jovem Guarda, Essa Noite Se Improvisa e Família Trapo, todos da Rede Record. Foi o primeiro diretor do Fantástico, da Rede Globo. Escreveu para as TVs mexicana, argentina, colombiana e americana sem jamais ter estado na maioria dos lugares onde a trama se desenrolava. Nessa estrada, adquiriu domínio sobre todas as etapas da produção televisiva. "Na TV ao vivo, a gente tinha de trocar cenário sem fazer barulho", lembra. "Quem começou na TV Globo não passou pela dificuldade da televisão sem tecnologia e sem dinheiro." Manoel Carlos recebeu VEJA em seu apartamento no Leblon, bairro carioca que tornou nacionalmente conhecido em suas novelas, para a seguinte entrevista.


Divulgação


Veja – Por que o senhor elegeu a classe média a protagonista de suas novelas?
Manoel Carlos – Porque escrevo apenas sobre o que conheço. Nas minhas novelas não há grã-finos porque nunca convivi com eles. Muitos personagens, inclusive, nasceram das minhas observações e lembranças da vida real. No caso de Mulheres Apaixonadas, a mulher de classe média que tem caso com o motorista de táxi baseia-se numa história que ocorreu no bairro em que eu morava em São Paulo. Já o padre Pedro, que balança o coração da personagem de Lavínia Vlasak, é baseado num religioso espanhol que havia no meu colégio. Ele despertava verdadeiras paixões.

Veja – Em Mulheres Apaixonadas, o senhor aborda o alcoolismo por meio de Santana (Vera Holtz) e a violência doméstica por intermédio de Raquel (Helena Ranaldi). Ambas são professoras e têm um bom padrão de vida. A classe média não rejeita o fato de ver-se retratada dessa forma?
Manoel Carlos –
Acho que a classe média está mais aberta para esses assuntos. A personagem da Vera é a que mais sensibiliza o público, porque tenho a impressão de que não existe uma família que não tem ou nunca teve um alcoólatra. Eu quis colocar uma professora de adolescentes que bebesse, porque me parece que isso acentua a gravidade do problema. No caso da violência doméstica, não escolhi um pedreiro que toma umas cachaças na esquina e enche a mulher de bolachas. Para mostrar que é um drama comum a ricos, remediados e pobres, retratei o agressor como um sujeito da classe média alta, que tem carro importado, é gentil e educado.

Veja – Por que as mulheres têm mais destaque nas suas novelas?
Manoel Carlos – Há um pouco de lenda nisso, mas não nego que acho as mulheres mais interessantes. São menos hipócritas, mais verdadeiras, percebem melhor as coisas. O que mais me impressiona é o fato de a mulher ser muito confessional. Numa roda de amigas, ela diz sem medo que é traída pelo marido. Um homem jamais faria isso. Homens falam com homens sobre sexo, futebol, trabalho e contam anedotas. Mulher fala de si própria. Além de tudo, mulher fala mais. Isso para mim é importante, porque tenho de escrever 34 páginas por dia.

Veja – Como é sua rotina de trabalho?
Manoel Carlos – Não tenho nenhuma rotina. Não tenho hora para escrever, hora para dormir nem hora para comer. Tenho um sono muito leve e, quando acordo no meio da noite, é comum que a novela venha inteira na minha cabeça. Aí eu me levanto e vou trabalhar no meio da madrugada. É como se fosse uma doença que toma conta de você, não dá para pensar em outra coisa. Mas não perco o contato com a minha família em hipótese alguma, e não deixo de ler seis jornais por dia.

Veja – Uma das marcas de suas novelas é a atualidade dos diálogos, a rapidez com que expressões cotidianas de um grupo etário ou social são transpostas para a televisão. Como o senhor se abastece das informações necessárias para conseguir esse resultado?
Manoel Carlos – Levo uma vida absolutamente normal. Vou a banco, entro em fila de casa lotérica e freqüento feira e bancas de jornal. Ando pela rua e converso com as pessoas. É assim que assimilo as diferentes expressões. A Globo é uma torre de marfim, de onde as pessoas costumam sair pouco. Já eu saio todos os dias, mesmo fazendo novela. Só não posso ir ao cinema porque me atrapalha. Também não leio romances quando estou escrevendo.

Veja – Por quê?
Manoel Carlos – Quando você escreve uma novela, tem de acreditar que só existe uma história no mundo – a sua. Se não for assim, você pára de escrever. Tenho pavor de que isso aconteça. O romancista tem essas crises, mas põe o livro de lado e recomeça depois. Mas como um autor de novelas pode parar de escrever uma novela que está no ar? Não pode. Tem de acreditar que a sua história é a melhor que existe e seguir até o fim.  

Veja – Com mais de cinqüenta anos de televisão, o senhor ainda tem esse tipo de medo?
Manoel Carlos – Claro. Eu também não teria estrutura para agüentar uma novela que não dá certo. Deve ser uma experiência simplesmente desastrosa. Uma novela que não dá certo é como carregar um cadáver nas costas. Isso pode acontecer comigo. Faltam três meses para terminar a novela e eu fico contando na folhinha. Só se pode ter certeza do sucesso no fim, não dá para achar que se ganhou de véspera.  

Veja – Até que ponto a pressão por audiência interfere em seu processo de criação?
Manoel Carlos – Posso garantir que a Globo não faz pressão. Se a audiência cair, não pense que alguém da direção da emissora ligará para dizer que a novela não está indo bem. Eu é que me pressiono. Quando entra uma cena que considero lenta, anoto o minuto exato em que ela foi ao ar, para conferir no medidor de audiência que tenho em casa como foi o ibope. Novela é uma surpresa. Às vezes não assisto a um capítulo porque acho que ficou tão ruim que tenho vergonha. Mas não é raro que as pessoas gostem do que não gosto.  


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Veja – O senhor se incomoda com o merchandising em suas novelas?
Manoel Carlos – Não, de maneira nenhuma. Se não existisse merchandising, eu pediria para incluir de graça a citação de produtos nas falas dos personagens. Isso dá mais veracidade às cenas. Evidentemente, tomamos cuidado para não cair no exagero. Nas minhas novelas só não entra merchandising de bebida alcoólica e de cigarro. Meus personagens eventualmente bebem e fumam, mas não aparece nenhuma marca. E os atores podem aceitar ou não fazer merchandising de um determinado produto. O Marcello Antony é um que não faz merchandising de nada, por convicção.

Veja – O senhor recebeu críticas pelo excesso de cenas de sexo na série Presença de Anita. Quanto a Mulheres Apaixonadas, houve quem se incomodasse com algumas cenas tórridas. O que pensa disso?
Manoel Carlos – Não acho que eu exagere nesse ponto. As pessoas com quem converso na rua nunca criticam as cenas de sexo que escrevo. Pelo contrário, costumam elogiar. Mas sempre estou aberto para rever certos aspectos. Não quero ofender ninguém, nem criar problemas para a família brasileira. Quero fazer novelas de que as pessoas gostem. Não faço o tipo "minha novela eu não mudo".

Veja – O senhor já fez grandes mudanças em suas novelas por causa do público?
Manoel Carlos – Já mudei muito, mas foram mudanças pontuais. Em Laços de Família, o ator Henrique Pagnoncellis entrou para fazer seis capítulos com a Capitu (Giovanna Antonelli) e, como agradou, ficou até o fim. Em Baila Comigo, não matei o Fernando Torres por causa das cartas que recebia. Numa delas, o sujeito dizia que tinha ficado órfão havia pouco tempo e, caso o Fernando saísse da novela, ele se sentiria perdendo o pai pela segunda vez. No caso de Mulheres Apaixonadas, a quantidade de pedidos para eu poupar a Fernanda (Vanessa Gerbelli, que vive uma história de amor com o personagem de Tony Ramos) foi enorme. Por causa disso, a personagem teve uma sobrevida de mais de 100 capítulos. Mas sua morte já está decidida.

Veja – A que tipo de programa o senhor assiste?
Manoel Carlos – Novela, telejornal e programa de entrevistas. Mas muita novela, sempre. Eu assisto a um pouco de cada uma, de todos os canais. E acho engraçado quando vejo atores de televisão dizendo que não vêem novela. A maioria declara que só assiste ao Boris Casoy e ao Jô. Como ator de novela não gosta de ver novela? Tem ator que diz: "Meu negócio é teatro". Mas, quando você vai olhar, ele fez uma única peça em dez anos e nunca parou de trabalhar em novela. Acho que é até uma ingratidão, porque eles vivem essencialmente do salário da televisão. Ao aparecer numa novela, ganham projeção. Quando está no ar, ator faz baile de debutantes, cobra para ir a um show. O teatro não tem esses subprodutos.

Veja – Mas teatro dá status...
Manoel Carlos – Sim, mas eles não levam em conta que ator de teatro tem de ter uma formação cultural que a televisão não exige. É difícil um ator de teatro ser absolutamente inculto e desinformado. Na televisão, uma boa parte dos atores nunca leu um livro. Na TV, tem gente que sonha com as capas, mas nem lê as revistas.

Veja – Qual será sua próxima novela?
Manoel Carlos – No que depender de mim, Mulheres Apaixonadas será a última. Não tenho mais condições físicas. Escrever novela é uma estiva. Tenho contrato com a Globo até 2008 e gostaria de fazer duas minisséries por ano. Trabalho com muita vontade, e gosto do que faço. Mas, se eu não parar de escrever novelas, minha mulher se separa de mim. Aos 30, 40 anos, você pode adiar projetos por dez anos. Aos 70, fica mais difícil.

 
 
 
 
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