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Reforma
agrária
O
boné é
apenas um detalhe
O
importante é o governo Lula tirar da
cabeça a idéia de que se pode negociar
com os líderes do MST

Alexandre
Secco
Alan Marques/Folha Imagem
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| Lula,
com o boné do MST e a bola do MST, depois de comer biscoitinhos
do MST: sem-terra recebem tratamento vip |
Os
sem-terra já foram flagrados invadindo terras produtivas,
ocupando prédios públicos, saqueando armazéns
e mantendo agricultores em cárcere privado. Tudo isso é
ilegal. Na semana passada, uma comissão de representantes
do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) esteve no Palácio
do Planalto para discutir o problema fundiário do Brasil
com o presidente da República. Os visitantes chegaram com
uma bagagem fora do comum nessas audiências. Traziam uma bola
de futebol, biscoitos fabricados em um acampamento e nenhuma vontade
de negociar. Comportando-se como negociadores, levaram ao governo
suas exigências em matéria de assentamento de famílias
no campo e como tais foram recebidos. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva não os repreendeu pela febre de invasões
que estão promovendo no campo nem exigiu deles nenhuma contrapartida
por eventuais concessões do governo. Lula colocou na cabeça
um boné do MST, convidou a turma para bater uma bola no seu
sítio em algum fim de semana e apresentou-lhes algumas metas
do governo destinadas a acalmar os sem-terra.
"O
governo joga no nosso time", afirmou sobre o encontro João
Pedro Stedile, o líder do MST. "Vamos ganhar de cinco a zero
do latifúndio." Tem sido assim desde o governo de José
Sarney. À medida que os governantes aumentam a distribuição
de lotes para os sem-terra, eles, como contrapartida, elevam o número
de invasões para mostrar aos governos que nenhuma meta cumprida
é suficiente para satisfazê-los. Na audiência
de duas horas e meia com Lula, os sem-terra apresentaram sua pauta
de reivindicações e oito integrantes do governo falaram
sobre o que pretendem fazer para acelerar a reforma agrária.
Com o aparente intuito de reforçar sua posição
no encontro com o presidente e os ministros, os sem-terra protagonizaram
uma série de manifestações nos dias anteriores
ao encontro. Nada se comentou sobre isso na reunião.
Leo Caldas/Folha Imagem
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| Sem-terra
em ação: invasões, saques, cárcere
privado e depredação em nome do social |
Os
sem-terra efetuaram saques em Pernambuco, invadiram pedágios
e ocuparam prédios públicos transformando servidores
em reféns. Enquanto o presidente falava com os sem-terra,
um grupo mantinha bloqueada uma estrada em Minas Gerais, um outro
ocupava o prédio do Incra em Cuiabá e um terceiro
invadia um escritório da Companhia Energética de Alagoas.
Quando colocou na cabeça o boné do MST, Lula provavelmente
nada mais fez do que atender ao pedido de algum fotógrafo
presente à reunião. O ato, no entanto, carregou-se
de enorme poder simbólico. Se o presidente da República
recebe no palácio um grupo que desrespeita as leis do país
e, ainda por cima, usa o boné com o emblema desse movimento,
ele está de alguma forma endossando o confronto que os integrantes
do MST procuram como tática política.
A
disposição do governo em receber os sem-terra indica
que o presidente e sua equipe trabalham com a certeza de que o MST
é um movimento com o qual se pode negociar e com o qual é
até conveniente que se bata uma bola no fim de semana. Bola
de futebol é uma das paixões do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, como era de um de seus antecessores, o general Emílio
Médici, que comparecia aos jogos com rádio de pilha
no ouvido e cabeceou uma bola ao receber os jogadores da seleção
vitoriosa na Copa de 70, no México. Não se encontram,
no entanto, sinais de disposição para a negociação
na história do MST. A luta pela reforma agrária, que
começou como uma bandeira social justa ainda no governo de
José Sarney, foi se transformando rapidamente num movimento
em busca do confronto. Tratando pessoas humildes como massa de manobra,
os lideres sem-terra aglomeram os miseráveis em acampamentos
à beira de estradas e os impelem às invasões
de fazendas. Escolhem as terras produtivas, cujo arrombamento equivale
à ocupação de uma fábrica na cidade
por estranhos que se julgam com direito de também ser proprietários
de uma empresa.
Com
reportagem de Monica
Weinberg
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