Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Reforma agrária
O boné é apenas um detalhe

O importante é o governo Lula tirar da
cabeça a idéia de que se pode negociar
com os líderes do MST


Alexandre Secco


Alan Marques/Folha Imagem
Lula, com o boné do MST e a bola do MST, depois de comer biscoitinhos do MST: sem-terra recebem tratamento vip

Pergunte ao Professor: Faça a sua pergunta ao geógrafo Jaime Tadeu Oliva, autor de Espaço e Modernidade - Temas da Geografia do Brasil, da Editora Atual, que esta semana responderá as dúvidas dos leitores sobre reforma agrária

Os sem-terra já foram flagrados invadindo terras produtivas, ocupando prédios públicos, saqueando armazéns e mantendo agricultores em cárcere privado. Tudo isso é ilegal. Na semana passada, uma comissão de representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) esteve no Palácio do Planalto para discutir o problema fundiário do Brasil com o presidente da República. Os visitantes chegaram com uma bagagem fora do comum nessas audiências. Traziam uma bola de futebol, biscoitos fabricados em um acampamento e nenhuma vontade de negociar. Comportando-se como negociadores, levaram ao governo suas exigências em matéria de assentamento de famílias no campo e como tais foram recebidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não os repreendeu pela febre de invasões que estão promovendo no campo nem exigiu deles nenhuma contrapartida por eventuais concessões do governo. Lula colocou na cabeça um boné do MST, convidou a turma para bater uma bola no seu sítio em algum fim de semana e apresentou-lhes algumas metas do governo destinadas a acalmar os sem-terra.

"O governo joga no nosso time", afirmou sobre o encontro João Pedro Stedile, o líder do MST. "Vamos ganhar de cinco a zero do latifúndio." Tem sido assim desde o governo de José Sarney. À medida que os governantes aumentam a distribuição de lotes para os sem-terra, eles, como contrapartida, elevam o número de invasões para mostrar aos governos que nenhuma meta cumprida é suficiente para satisfazê-los. Na audiência de duas horas e meia com Lula, os sem-terra apresentaram sua pauta de reivindicações e oito integrantes do governo falaram sobre o que pretendem fazer para acelerar a reforma agrária. Com o aparente intuito de reforçar sua posição no encontro com o presidente e os ministros, os sem-terra protagonizaram uma série de manifestações nos dias anteriores ao encontro. Nada se comentou sobre isso na reunião.


Leo Caldas/Folha Imagem
Sem-terra em ação: invasões, saques, cárcere privado e depredação em nome do social

Os sem-terra efetuaram saques em Pernambuco, invadiram pedágios e ocuparam prédios públicos transformando servidores em reféns. Enquanto o presidente falava com os sem-terra, um grupo mantinha bloqueada uma estrada em Minas Gerais, um outro ocupava o prédio do Incra em Cuiabá e um terceiro invadia um escritório da Companhia Energética de Alagoas. Quando colocou na cabeça o boné do MST, Lula provavelmente nada mais fez do que atender ao pedido de algum fotógrafo presente à reunião. O ato, no entanto, carregou-se de enorme poder simbólico. Se o presidente da República recebe no palácio um grupo que desrespeita as leis do país e, ainda por cima, usa o boné com o emblema desse movimento, ele está de alguma forma endossando o confronto que os integrantes do MST procuram como tática política.

A disposição do governo em receber os sem-terra indica que o presidente e sua equipe trabalham com a certeza de que o MST é um movimento com o qual se pode negociar e com o qual é até conveniente que se bata uma bola no fim de semana. Bola de futebol é uma das paixões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como era de um de seus antecessores, o general Emílio Médici, que comparecia aos jogos com rádio de pilha no ouvido e cabeceou uma bola ao receber os jogadores da seleção vitoriosa na Copa de 70, no México. Não se encontram, no entanto, sinais de disposição para a negociação na história do MST. A luta pela reforma agrária, que começou como uma bandeira social justa ainda no governo de José Sarney, foi se transformando rapidamente num movimento em busca do confronto. Tratando pessoas humildes como massa de manobra, os lideres sem-terra aglomeram os miseráveis em acampamentos à beira de estradas e os impelem às invasões de fazendas. Escolhem as terras produtivas, cujo arrombamento equivale à ocupação de uma fábrica na cidade por estranhos que se julgam com direito de também ser proprietários de uma empresa.

 

Com reportagem de Monica Weinberg

 

 
 
 
 
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