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Governo
Por
que os discursos
de Lula causam polêmica
Ao
acrescentar partes improvisadas a seus
discursos, Lula acerta o coração do eleitor,
mas deixa patente o descompasso entre
o que diz e o que seu governo faz

Malu
Gaspar e Alexandre Oltramari
Tuca Vieira/Folha Imagem
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| Lula,
que já fez mais de 100 discursos em seis meses de governo:
futebol e auto-estima |
Desde
que assumiu o Palácio do Planalto, Lula fez mais de 100 discursos.
Ele aproveita qualquer solenidade para mandar seu recado e, com
irrefreável pendor para o improviso, não raro seus
discursos extrapolam o tema do momento e acabam por contemplar assuntos
de interesse mais amplo, ganhando as manchetes do dia seguinte.
Nos últimos tempos, Lula falou a negros, empresários,
sem-terra, deficientes mentais, sindicalistas, doceiras, vereadores,
juristas. Lula fala tanto, o tempo todo, que até dispensa
cadeias nacionais de rádio e televisão. Até
agora, convocou apenas uma. Em contraste, em seus primeiros seis
meses de governo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que
não era de falar pouco, convocou cinco cadeias nacionais.
Lula fala tanto porque, em política, a palavra é poder.
Encarregado
de escrever os discursos oficiais do presidente, Luiz Dulci, secretário-geral
da Presidência da República, ex-professor de português
com conhecimentos de grego e latim, só está por trás
de uma parte daquilo que aparece nas declarações de
Lula. A parte mais polêmica geralmente não sai da tela
de seu computador. É criação pessoal de Lula,
no improviso. Político carismático, Lula envolve emocionalmente
os ouvintes com sua espontaneidade e é convincente em mensagens
de otimismo porque ele mesmo é um produto da auto-estima
e da vontade de vencer. Isso tudo é muito positivo para o
exercício da Presidência, mas há um risco que
já começa a ser notado no desempenho verbal de Luiz
Inácio. Numa solenidade à beira do túmulo do
sindicalista Chico Mendes e, depois, numa videoconferência
no Banco Mundial, Lula deixou de falar sobre o papel dos brasileiros
na construção do Brasil e aventurou-se a discorrer
sobre a missão do homem na Terra. Numa cerimônia na
Confederação Nacional da Indústria, Lula desprezou
o Congresso e o Judiciário e disse que só Deus será
capaz de impedir que o Brasil ocupe seu lugar de destaque no mundo.
Na abertura de uma feira gaúcha, afirmou que assumiu um país
quebrado e se proclamou o salvador nacional. "Quando fala, Lula
se coloca entre a vontade divina e a vontade popular", diz Roberto
Romano, professor de ética e filosofia política da
Universidade Estadual de Campinas. "Ao dizer que alguém terá
de salvar o país e esse alguém é ele, Lula
se apresenta como Moisés. É um discurso antigo, sem
lugar no Estado moderno e democrático."
Em
diversas ocasiões, Lula tem dito que seu governo, ao contrário
dos anteriores, não tem o direito de errar, sob pena de desmoralizar
a competência política das camadas populares, estrato
social de onde provém. Com isso, o presidente tangencia o
mito da infalibilidade, outra nódoa messiânica que
mancha seus discursos. Na Roma antiga, para combater essa ilusão
onipotente, diz a história que os guerreiros, quando voltavam
de uma batalha vitoriosa, eram saudados com tal entusiasmo popular
que um sacerdote era escalado para acompanhá-los nas bigas
e ficar repetindo: "Lembra-te de que és mortal! Lembra-te
de que és mortal!". Ao recordar esse ritual quando se referiu
aos arroubos retóricos de Lula, o articulista João
Mellão Neto escreveu o seguinte no jornal O Estado de
S.Paulo: "Tratava-se de uma advertência prudente: o poder
e o sucesso inebriam de tal forma que não raro levam os homens
a perder o senso, se julgar infalíveis, desafiar os deuses
e o destino".
Com
certeza, Lula não chegou a tanto, mas seus improvisos começam
a causar incômodo em função do descompasso entre
o que o presidente diz e o que seu governo faz. Neste aspecto, Lula
mantém um cacoete dos tempos de militância sindical.
No universo das assembléias de trabalhadores, a palavra tem
um valor tremendo, quase equivalente à ação.
Quem fala melhor, quem arrebata a platéia, é aplaudido
e tem sua proposta aprovada e, na disputa pelo comando da
massa, é isso que conta. No governo, porém, falar
não é sinônimo de realizar. Falar, conquistar
a platéia, é só o início. "O presidente
fala demais porque governa pouco", diz o cientista político
Otaciano Nogueira, ex-professor da Universidade de Brasília.
"O discurso de Lula, com sua linguagem peregrina, é vago.
Hegel, o filósofo, dizia que o discurso é um ato eficaz
na medida em que precede a ação", completa. O descompasso
entre a palavra do presidente e a ação do governo
é particularmente acentuado num dos campos mais caros aos
petistas a área social.
Joedson Alves/AE
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Marcia Gouthier/Folha Imagem
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Joedson Alves/AE
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| Os
ministros Luiz Dulci, que prepara os discursos, Antonio Palocci,
homem forte da economia, e José Dirceu, que passará
a cuidar também da área social do governo: a tróica
de ouro |
Quase
nada deslancha. O programa Fome Zero começou como um fiasco,
a reforma agrária é tão lenta que os sem-terra
voltaram a incendiar o país. Na semana passada, na terceira
reunião com os governadores, o presidente tentou um enfoque
novo na área social. Decidiu-se a unificar os programas sociais,
mantidos com verbas da União, Estados e municípios,
sob a coordenação geral é claro
do todo-poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu. A idéia
é organizar a massa de beneficiados, evitando que uns sejam
contemplados por vários programas sociais e outros acabem
excluídos de todos, como acontece hoje. Ninguém sabe
se a unificação dará certo nem se é
um mecanismo mais eficiente do que o modelo atual, em que há
programas diferentes dirigidos para núcleos específicos
da população. Mas a iniciativa mostra que a política
social do governo Lula, sobre a qual o presidente tanto fala, ainda
não encontrou seu caminho. No Palácio do Planalto,
ao contrário das assembléias sindicais, Lula está
percebendo que governar é mais complicado.
Nas
duas décadas de oposição, Lula e o PT pareciam
acreditar que bastava a vontade, a disposição de fazer,
para que as coisas se materializassem. Nessa toada, boa parte dos
problemas nacionais seria combatida com eficácia desde que
houvesse gente decente nos postos de comando e a chamada "vontade
política". Agora, os petistas estão percebendo que
o voluntarismo, um tanto ingênuo, não é suficiente.
Os petistas assumiram a chefia da nação com algumas
bandeiras sociais óbvias para quem acompanhava o discurso
do PT na oposição. Acabar com a miséria era
uma delas. Nada aconteceu nesse terreno. Nem mesmo o programa Fome
Zero produziu os efeitos anunciados antes de sua criação.
Revelou-se um fracasso até agora, quando se esperava que
funcionasse como uma vitrine exuberante das realizações
pragmáticas de um governo de esquerda. Melhorar a condição
social dos brasileiros é uma tarefa difícil e ninguém
espera que esse desafio seja vencido em pouco tempo. Os petistas,
no entanto, elevaram de tal forma as expectativas dos eleitores
que, agora, dificuldades naturais de início de governo parecem
incapacidade de agir. E Lula, com seus pronunciamentos improvisados,
continua a alimentar esperanças que é incapaz de saciar,
até pela limitação de recursos financeiros,
para não falar da inépcia técnica de parte
de sua equipe de auxiliares. Ironicamente, o que vai bem no governo
do PT é a política econômica ortodoxa do ministro
Antonio Palocci, da Fazenda, um petista que ficaria bem no governo
tucano de Fernando Henrique Cardoso.
Com
seus improvisos, metáforas e parábolas, seus laivos
de messianismo e até de paternalismo, visíveis quando
se dirige às platéias como quem fala aos filhos, Lula
faz um jogo político cujo pano de fundo é complexo.
No exterior, existe a percepção de que Lula pode ser
uma novidade, uma alternativa entre os radicalismos de esquerda
e de direita. Na imprensa internacional, o presidente brasileiro
de origem operária produz um fascínio indisfarçável.
É fenômeno de outra categoria, mas lembra um pouco
o encantamento do intelectual francês Régis Debray
por Che Guevara e a paixão do cantor Sting pelos índios
ianomâmis. E replica uma década depois a atenção
que o mundo deu ao presidente eleito da Polônia, Lech Walesa,
líder do movimento Solidariedade, que fazia oposição
ao governo socialista a partir da massa metalúrgica do porto
de Gdansk. São os ricos inebriados pelos exóticos.
Joedson Alves/AE
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| O
presidente em reunião com os governadores, em Brasília:
em busca do apoio às reformas |
O
exotismo de Lula é altamente positivo. Tornou-se presidente
de um país de 170 milhões de habitantes, tendo iniciado
a vida como retirante nordestino. É um fenômeno de
ascensão inédito no Brasil e muito raro em qualquer
país. Nisso está toda a carga de acertos e erros que
os fascínios costumam produzir. Até agora, Lula convenceu
os investidores nacionais e estrangeiros ao mostrar-se ortodoxamente
competente ao lidar com os fundamentos da economia, contendo a inflação,
domando o câmbio e mantendo um notável rigor fiscal
mas o custo do ajuste tem sido altamente penoso, em especial
para a massa que o vê como um igual.
Os
discursos não serão suficientes para rever esse quadro
adverso, de desemprego recorde e renda em queda livre. No plano
externo, o Brasil ainda precisa desesperadamente de capital internacional.
Ainda que os investidores estejam bem impressionados, o que valorizou
os títulos brasileiros e derrubou a cotação
do dólar, os investimentos externos diretos caíram
quase 60% nos primeiros cinco meses do ano em relação
ao mesmo período de 2002, o que compromete o crescimento.
O complicado é que, em razão disso, talvez o governo
tenha de bater de novo à porta do Fundo Monetário
Internacional (FMI), o que sempre irrita a esquerda do PT, já
alvoroçada por outros motivos. Para amenizar tais sinais
dramáticos, Lula, recorrendo ao discurso mais uma vez, prometeu,
há duas semanas, que o "espetáculo do crescimento"
começaria neste mês de julho. Não começou
nem vai começar tão cedo. Lula talvez esteja confiando
naquilo que a professora Maria Tereza Sadek, da Universidade de
São Paulo, escreveu num artigo intitulado Discurso Político:
Notas para um Debate: "A fala é um instrumento legítimo
de poder, a fala é poder, a despeito de seu rigor argumentativo
ou de seu compromisso com a verdade".
Um
dos temas prediletos nos discursos de Lula é o poder de cada
pessoa e da nação inteira de formatar seu destino
individual ou coletivo. Também aplica metáforas esportivas
e fala na importância da família, elementos que já
estavam presentes em seus discursos como líder sindical dos
anos 70. Sob esse aspecto, Lula não inventou um personagem
para ser presidente. O presidente é ele mesmo, o cidadão
Luiz Inácio, com sua espantosa biografia de sucesso. Com
ajuda dessa biografia, de seu carisma e seu linguajar acessível,
Lula tem uma sintonia fina com a maioria dos brasileiros, que o
identificam como um igual. "Ele é um dos raros políticos
que falam a linguagem do povo da primeira à última
linha. Quando ele fala, as pessoas rezam para que ele acerte", diz
o senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho. Com isso, Lula parece
às vezes convencido de que tem o direito de dizer qualquer
coisa, de fazer promessas quase impossíveis de serem cumpridas.
Essa imagem pública explica, em parte, por que mantém
uma alta taxa de popularidade, de 76%. Será, no entanto,
difícil manter esse grau enorme de aceitação
popular se a expectativa em torno de seu governo for pautada pelo
exagero retórico que se tem manifestado no Palácio
do Planalto com uma desinibição crescente.
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"Não
tem chuva, não
tem geada, não tem terremoto,
não tem cara feia, não
tem um Congresso Nacional, nem um Poder Judiciário.
Só Deus será capaz de impedir que a gente
faça este país ocupar seu lugar de destaque."
Na Confederação
Nacional da Indústria, em
Brasília, no dia 24 de junho, ao se colocar,
equivocadamente, acima dos
demais poderes da República
"Tem
jogador que pega a bola,
não olha pro lado, dá uma
bicuda e não marca o gol. Tem outro que olha
pro lado, vê um companheiro livre, passa a bola
e marca o gol. Nós não temos tempo para
dar bicuda."
Na Feira Nacional do Doce,
em Pelotas, no
dia 17 de junho, ao pedir paciência e repisar
o tema de que seu governo,
ao contrário dos outros, não
tem direito a cometer erros
"A
dura realidade é que todos nós temos um
pouco de louco dentro de nós."
No lançamento
da Política Nacional de Saúde Mental,
em Brasília, no dia 28 de maio, ao tentar levantar
a auto-estima dos deficientes mentais presentes à
cerimônia, mas usando o termo politicamente incorreto
"louco"
"Nossa
responsabilidade é infinitamente maior que a
de qualquer outro presidente na história deste
país. Exatamente porque não sou um homem
que veio de cima."
Na missa dos
trabalhadores, em São Bernardo do Campo,
no dia 1º de maio,
ao voltar ao tema de que seu governo não
pode falhar, sob pena de desmoralizar quem veio
das camadas populares da sociedade
"O
Brasil estava quebrado
e alguém vai ter
de salvar este país!"
Na Feira Nacional
do Doce, em Pelotas, no
dia 17 de junho, ao referir-se à "herança
maldita" de seu antecessor e colocar a
si próprio na condição de
salvador nacional
"Quem
planta um feijãozinho vai ter de esperar noventa
dias. Quem planta um milhozinho vai ter de esperar 150
dias. Criar um porquinho vai demorar seis meses para
comer o bichinho."
Na inauguração
de um terminal ferroviário, em Alto
Araguaia (MT), no dia 6 de junho, ao justificar
a lentidão com que seu governo
está implantando
a reforma agrária
"Eu
olho para vocês e
me vejo olhando para os
meus filhos. Prefiro dizer
uma verdade dura para o
meu povo a mentir
descaradamente."
Na Feira Nacional
do Doce, em Pelotas, no
dia 17 de junho, ao apresentar-se,
em tom paternal, como um
político diferente dos demais, que, segundo o
presidente, costumam mentir
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