Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Governo
Por que os discursos
de Lula causam polêmica

Ao acrescentar partes improvisadas a seus
discursos, Lula acerta o coração do eleitor,
mas deixa patente o descompasso entre
o que diz e o que seu governo faz


Malu Gaspar e Alexandre Oltramari


Tuca Vieira/Folha Imagem
Lula, que já fez mais de 100 discursos em seis meses de governo: futebol e auto-estima

Desde que assumiu o Palácio do Planalto, Lula fez mais de 100 discursos. Ele aproveita qualquer solenidade para mandar seu recado e, com irrefreável pendor para o improviso, não raro seus discursos extrapolam o tema do momento e acabam por contemplar assuntos de interesse mais amplo, ganhando as manchetes do dia seguinte. Nos últimos tempos, Lula falou a negros, empresários, sem-terra, deficientes mentais, sindicalistas, doceiras, vereadores, juristas. Lula fala tanto, o tempo todo, que até dispensa cadeias nacionais de rádio e televisão. Até agora, convocou apenas uma. Em contraste, em seus primeiros seis meses de governo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não era de falar pouco, convocou cinco cadeias nacionais. Lula fala tanto porque, em política, a palavra é poder.

Encarregado de escrever os discursos oficiais do presidente, Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência da República, ex-professor de português com conhecimentos de grego e latim, só está por trás de uma parte daquilo que aparece nas declarações de Lula. A parte mais polêmica geralmente não sai da tela de seu computador. É criação pessoal de Lula, no improviso. Político carismático, Lula envolve emocionalmente os ouvintes com sua espontaneidade e é convincente em mensagens de otimismo porque ele mesmo é um produto da auto-estima e da vontade de vencer. Isso tudo é muito positivo para o exercício da Presidência, mas há um risco que já começa a ser notado no desempenho verbal de Luiz Inácio. Numa solenidade à beira do túmulo do sindicalista Chico Mendes e, depois, numa videoconferência no Banco Mundial, Lula deixou de falar sobre o papel dos brasileiros na construção do Brasil e aventurou-se a discorrer sobre a missão do homem na Terra. Numa cerimônia na Confederação Nacional da Indústria, Lula desprezou o Congresso e o Judiciário e disse que só Deus será capaz de impedir que o Brasil ocupe seu lugar de destaque no mundo. Na abertura de uma feira gaúcha, afirmou que assumiu um país quebrado e se proclamou o salvador nacional. "Quando fala, Lula se coloca entre a vontade divina e a vontade popular", diz Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Campinas. "Ao dizer que alguém terá de salvar o país e esse alguém é ele, Lula se apresenta como Moisés. É um discurso antigo, sem lugar no Estado moderno e democrático."

Em diversas ocasiões, Lula tem dito que seu governo, ao contrário dos anteriores, não tem o direito de errar, sob pena de desmoralizar a competência política das camadas populares, estrato social de onde provém. Com isso, o presidente tangencia o mito da infalibilidade, outra nódoa messiânica que mancha seus discursos. Na Roma antiga, para combater essa ilusão onipotente, diz a história que os guerreiros, quando voltavam de uma batalha vitoriosa, eram saudados com tal entusiasmo popular que um sacerdote era escalado para acompanhá-los nas bigas e ficar repetindo: "Lembra-te de que és mortal! Lembra-te de que és mortal!". Ao recordar esse ritual quando se referiu aos arroubos retóricos de Lula, o articulista João Mellão Neto escreveu o seguinte no jornal O Estado de S.Paulo: "Tratava-se de uma advertência prudente: o poder e o sucesso inebriam de tal forma que não raro levam os homens a perder o senso, se julgar infalíveis, desafiar os deuses e o destino".

Com certeza, Lula não chegou a tanto, mas seus improvisos começam a causar incômodo em função do descompasso entre o que o presidente diz e o que seu governo faz. Neste aspecto, Lula mantém um cacoete dos tempos de militância sindical. No universo das assembléias de trabalhadores, a palavra tem um valor tremendo, quase equivalente à ação. Quem fala melhor, quem arrebata a platéia, é aplaudido e tem sua proposta aprovada – e, na disputa pelo comando da massa, é isso que conta. No governo, porém, falar não é sinônimo de realizar. Falar, conquistar a platéia, é só o início. "O presidente fala demais porque governa pouco", diz o cientista político Otaciano Nogueira, ex-professor da Universidade de Brasília. "O discurso de Lula, com sua linguagem peregrina, é vago. Hegel, o filósofo, dizia que o discurso é um ato eficaz na medida em que precede a ação", completa. O descompasso entre a palavra do presidente e a ação do governo é particularmente acentuado num dos campos mais caros aos petistas – a área social.


Joedson Alves/AE
Marcia Gouthier/Folha Imagem
Joedson Alves/AE
Os ministros Luiz Dulci, que prepara os discursos, Antonio Palocci, homem forte da economia, e José Dirceu, que passará a cuidar também da área social do governo: a tróica de ouro

Quase nada deslancha. O programa Fome Zero começou como um fiasco, a reforma agrária é tão lenta que os sem-terra voltaram a incendiar o país. Na semana passada, na terceira reunião com os governadores, o presidente tentou um enfoque novo na área social. Decidiu-se a unificar os programas sociais, mantidos com verbas da União, Estados e municípios, sob a coordenação geral – é claro – do todo-poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu. A idéia é organizar a massa de beneficiados, evitando que uns sejam contemplados por vários programas sociais e outros acabem excluídos de todos, como acontece hoje. Ninguém sabe se a unificação dará certo nem se é um mecanismo mais eficiente do que o modelo atual, em que há programas diferentes dirigidos para núcleos específicos da população. Mas a iniciativa mostra que a política social do governo Lula, sobre a qual o presidente tanto fala, ainda não encontrou seu caminho. No Palácio do Planalto, ao contrário das assembléias sindicais, Lula está percebendo que governar é mais complicado.

Nas duas décadas de oposição, Lula e o PT pareciam acreditar que bastava a vontade, a disposição de fazer, para que as coisas se materializassem. Nessa toada, boa parte dos problemas nacionais seria combatida com eficácia desde que houvesse gente decente nos postos de comando e a chamada "vontade política". Agora, os petistas estão percebendo que o voluntarismo, um tanto ingênuo, não é suficiente. Os petistas assumiram a chefia da nação com algumas bandeiras sociais óbvias para quem acompanhava o discurso do PT na oposição. Acabar com a miséria era uma delas. Nada aconteceu nesse terreno. Nem mesmo o programa Fome Zero produziu os efeitos anunciados antes de sua criação. Revelou-se um fracasso até agora, quando se esperava que funcionasse como uma vitrine exuberante das realizações pragmáticas de um governo de esquerda. Melhorar a condição social dos brasileiros é uma tarefa difícil e ninguém espera que esse desafio seja vencido em pouco tempo. Os petistas, no entanto, elevaram de tal forma as expectativas dos eleitores que, agora, dificuldades naturais de início de governo parecem incapacidade de agir. E Lula, com seus pronunciamentos improvisados, continua a alimentar esperanças que é incapaz de saciar, até pela limitação de recursos financeiros, para não falar da inépcia técnica de parte de sua equipe de auxiliares. Ironicamente, o que vai bem no governo do PT é a política econômica ortodoxa do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, um petista que ficaria bem no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso.

Com seus improvisos, metáforas e parábolas, seus laivos de messianismo e até de paternalismo, visíveis quando se dirige às platéias como quem fala aos filhos, Lula faz um jogo político cujo pano de fundo é complexo. No exterior, existe a percepção de que Lula pode ser uma novidade, uma alternativa entre os radicalismos de esquerda e de direita. Na imprensa internacional, o presidente brasileiro de origem operária produz um fascínio indisfarçável. É fenômeno de outra categoria, mas lembra um pouco o encantamento do intelectual francês Régis Debray por Che Guevara e a paixão do cantor Sting pelos índios ianomâmis. E replica uma década depois a atenção que o mundo deu ao presidente eleito da Polônia, Lech Walesa, líder do movimento Solidariedade, que fazia oposição ao governo socialista a partir da massa metalúrgica do porto de Gdansk. São os ricos inebriados pelos exóticos.


Joedson Alves/AE
O presidente em reunião com os governadores, em Brasília: em busca do apoio às reformas

O exotismo de Lula é altamente positivo. Tornou-se presidente de um país de 170 milhões de habitantes, tendo iniciado a vida como retirante nordestino. É um fenômeno de ascensão inédito no Brasil e muito raro em qualquer país. Nisso está toda a carga de acertos e erros que os fascínios costumam produzir. Até agora, Lula convenceu os investidores nacionais e estrangeiros ao mostrar-se ortodoxamente competente ao lidar com os fundamentos da economia, contendo a inflação, domando o câmbio e mantendo um notável rigor fiscal – mas o custo do ajuste tem sido altamente penoso, em especial para a massa que o vê como um igual.

Os discursos não serão suficientes para rever esse quadro adverso, de desemprego recorde e renda em queda livre. No plano externo, o Brasil ainda precisa desesperadamente de capital internacional. Ainda que os investidores estejam bem impressionados, o que valorizou os títulos brasileiros e derrubou a cotação do dólar, os investimentos externos diretos caíram quase 60% nos primeiros cinco meses do ano em relação ao mesmo período de 2002, o que compromete o crescimento. O complicado é que, em razão disso, talvez o governo tenha de bater de novo à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI), o que sempre irrita a esquerda do PT, já alvoroçada por outros motivos. Para amenizar tais sinais dramáticos, Lula, recorrendo ao discurso mais uma vez, prometeu, há duas semanas, que o "espetáculo do crescimento" começaria neste mês de julho. Não começou nem vai começar tão cedo. Lula talvez esteja confiando naquilo que a professora Maria Tereza Sadek, da Universidade de São Paulo, escreveu num artigo intitulado Discurso Político: Notas para um Debate: "A fala é um instrumento legítimo de poder, a fala é poder, a despeito de seu rigor argumentativo ou de seu compromisso com a verdade".

Um dos temas prediletos nos discursos de Lula é o poder de cada pessoa e da nação inteira de formatar seu destino individual ou coletivo. Também aplica metáforas esportivas e fala na importância da família, elementos que já estavam presentes em seus discursos como líder sindical dos anos 70. Sob esse aspecto, Lula não inventou um personagem para ser presidente. O presidente é ele mesmo, o cidadão Luiz Inácio, com sua espantosa biografia de sucesso. Com ajuda dessa biografia, de seu carisma e seu linguajar acessível, Lula tem uma sintonia fina com a maioria dos brasileiros, que o identificam como um igual. "Ele é um dos raros políticos que falam a linguagem do povo da primeira à última linha. Quando ele fala, as pessoas rezam para que ele acerte", diz o senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho. Com isso, Lula parece às vezes convencido de que tem o direito de dizer qualquer coisa, de fazer promessas quase impossíveis de serem cumpridas. Essa imagem pública explica, em parte, por que mantém uma alta taxa de popularidade, de 76%. Será, no entanto, difícil manter esse grau enorme de aceitação popular se a expectativa em torno de seu governo for pautada pelo exagero retórico que se tem manifestado no Palácio do Planalto com uma desinibição crescente.

 

"Não tem chuva, não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem um Congresso Nacional, nem um Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar seu lugar de destaque."
Na Confederação Nacional da Indústria, em Brasília, no dia 24 de junho, ao se colocar, equivocadamente, acima dos demais poderes da República

"Tem jogador que pega a bola, não olha pro lado, dá uma bicuda e não marca o gol. Tem outro que olha pro lado, vê um companheiro livre, passa a bola e marca o gol. Nós não temos tempo para dar bicuda."
Na Feira Nacional do Doce, em Pelotas, no dia 17 de junho, ao pedir paciência e repisar o tema de que seu governo, ao contrário dos outros, não tem direito a cometer erros

"A dura realidade é que todos nós temos um pouco de louco dentro de nós."
No lançamento da Política Nacional de Saúde Mental, em Brasília, no dia 28 de maio, ao tentar levantar a auto-estima dos deficientes mentais presentes à cerimônia, mas usando o termo politicamente incorreto "louco"

"Nossa responsabilidade é infinitamente maior que a de qualquer outro presidente na história deste país. Exatamente porque não sou um homem que veio de cima."
Na missa dos trabalhadores, em São Bernardo do Campo, no dia 1º de maio, ao voltar ao tema de que seu governo não pode falhar, sob pena de desmoralizar quem veio das camadas populares da sociedade

"O Brasil estava quebrado e alguém vai ter de salvar este país!"
Na Feira Nacional do Doce, em Pelotas, no dia 17 de junho, ao referir-se à "herança maldita" de seu antecessor e colocar a si próprio na condição de salvador nacional

"Quem planta um feijãozinho vai ter de esperar noventa dias. Quem planta um milhozinho vai ter de esperar 150 dias. Criar um porquinho vai demorar seis meses para comer o bichinho."
Na inauguração de um terminal ferroviário, em Alto Araguaia (MT), no dia 6 de junho, ao justificar a lentidão com que seu governo está implantando a reforma agrária

"Eu olho para vocês e me vejo olhando para os meus filhos. Prefiro dizer uma verdade dura para o meu povo a mentir descaradamente."
Na Feira Nacional do Doce, em Pelotas, no dia 17 de junho, ao apresentar-se, em tom paternal, como um político diferente dos demais, que, segundo o presidente, costumam mentir

 

 

 


 
 
 
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