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Diogo
Mainardi
A
bomba do boi-bumbá
"Eu
gostaria que Lula esclarecesse que
ensinamentos os intelectuais podem tirar
do boi-bumbá. Aliás, nem sei o que é um
intelectual para Lula, se é um catedrático
petista da USP ou simplesmente alguém
com o ginasial completo"
Em Parintins, Lula ironizou os intelectuais dizendo que eles tinham
muito a aprender com a festa do boi-bumbá. Uma semana antes,
já havia reclamado que os intelectuais se aposentam aos 53
anos, enquanto os cortadores de cana precisam trabalhar até
os 60. Antes de assumir o poder, Lula gostava de se cercar de intelectuais.
Agora mudou. Debocha deles.
Dois intelectuais compareceram à festa do boi-bumbá
deste ano Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura. Ambos
lulistas, por sinal. Foram convidados pelo guaraná Kuat,
o principal patrocinador do evento. Assistiram aos desfiles no camarote
do Kuat Clube, trajando camisetas Kuat, e, da mesma forma que as
menos intelectualizadas Joana Prado e Samara Filipo, puderam usufruir
as comodidades da ilha do Kuat e do iate Kuat. É uma
prova de que os intelectuais são bem menos abestalhados do
que Lula imagina. Se fossem tão abestalhados assim, pagariam
suas viagens do próprio bolso.
Pelo que consegui entender, o boi-bumbá funciona como os
desfiles das escolas de samba, só que há apenas dois
blocos, Caprichoso e Garantido, e o enredo é sempre o mesmo,
ano após ano. Baseia-se numa lenda local. A mulher grávida
do negro Francisco deseja comer uma língua de boi. O negro
Francisco sacrifica o boi predileto de seu patrão para satisfazer
a mulher. O patrão fica contrariado e manda matar o negro
Francisco, que foge para o meio do mato e pede ajuda a um pajé.
O pajé ressuscita o boi, e tudo termina em festa. Eu gostaria
que Lula esclarecesse que ensinamento os intelectuais podem tirar
dessa história. O único que eu consigo tirar é
que o povo é infinitamente estúpido, mas não
creio que o presidente se referisse a isso. Aliás, eu nem
sei o que é um intelectual para Lula, se é um catedrático
petista da USP ou simplesmente alguém com o ginasial completo.
O fato de os intelectuais se aposentarem aos 53 anos também
não me parece escandaloso. Lula, que não é
um intelectual nem nada, conseguiu uma barganha ainda melhor, aposentando-se
aos 50 anos, com rendimentos especiais. Muito mais justo do que
comparar os intelectuais aos cortadores de cana teria sido compará-los
aos usineiros. O governo prometeu investimentos de 550 milhões
de reais para a estocagem de álcool. Além disso, os
usineiros do Nordeste pleiteiam 500 milhões de subsídios,
um pouco mais do que embolsaram no ano passado. Os brasileiros plantam
cana há 500 anos. Nada mudou de lá para cá.
Ainda fazemos queimadas, ainda usamos mão-de-obra escrava,
ainda embriagamos os pobres com aguardente de má qualidade,
ainda surrupiamos o dinheiro público.
Nos anos 60, quando a economia chinesa começou a afundar,
Mao lançou a chamada campanha de reeducação,
em que os intelectuais eram ridicularizados em público e
mandados para trabalhos forçados no campo. Lula não
é Mao. Ele pode achar que existe mais sabedoria no boi-bumbá
do que em Aristóteles, mas nunca vai mandar os intelectuais
cortar cana. Só vai persegui-los com erros de concordância.
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