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Entrevista:
Fareed Zakaria
A
culpa é do petróleo
Especialista
americano diz que é a
riqueza fácil, não o Islã, que impede
a democracia nos países árabes

Juliana
Simão
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Daniela Picoral

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"Como
basta furar o chão para o dinheiro jorrar, não
houve incentivo para criar uma economia capitalista
moderna. De todos os países com petróleo,
apenas a Noruega é democrática"
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O jornalista
Fareed Zakaria é uma voz influente nos Estados Unidos quando
o assunto é política externa. Professor visitante
de política internacional e filosofia política na
Universidade Harvard, ele costuma ser convidado para conversas privadas
com assessores do primeiro time da Casa Branca e comparece ao Fórum
Econômico de Davos na condição de palestrante.
Editor-chefe das edições internacionais do semanário
americano Newsweek, Zakaria é também colaborador
regular dos jornais The New York Times, Washington Post e
do londrino The Times e apresenta um programa semanal na
rede de televisão ABC. Sua maior contribuição
para o debate intelectual está em três livros sobre
o mesmo tema, a democracia americana. O último deles
The Future of Freedom: Illiberal Democracy at Home and Abroad
(O Futuro da Liberdade: Democracias Não Liberais Dentro e
Fora dos Estados Unidos) foi lançado há dois
meses. Nascido numa família muçulmana de Bombaim,
na Índia, ele se mudou para os Estados Unidos para estudar
em Harvard e Yale, universidades da elite americana. Aos 39 anos,
casado e com dois filhos, Zakaria vive em Nova York, de onde concedeu
a VEJA a seguinte entrevista.
Veja
Por que a democracia é rara entre os países
de maioria muçulmana?
Zakaria Discordo daqueles que afirmam que o problema
do Oriente é a religião muçulmana. É
a mesma explicação simplista que foi dada sobre as
dificuldades de democratizar a Ásia. Dizia-se que esse tipo
de organização social entrava em choque com a herança
cultural do confucionismo. Também se falou da impossibilidade
de a América Latina se tornar liberal devido ao atraso das
culturas indígenas. Isso tudo é bobagem. Max Weber,
o primeiro teórico a afirmar que a cultura antecede a democracia,
acreditava que a ética protestante fora essencial para o
desenvolvimento do capitalismo e, conseqüentemente, da democracia.
Logo surgiram aqueles que seguiram essa linha de raciocínio
para concluir que a cultura católica era incompatível
com a democracia e o desenvolvimento econômico. Quem acreditaria
nessa teoria hoje? Basta observar os avanços democráticos
de nações católicas na Europa e até
na América Latina para chegar à conclusão de
que não existem barreiras culturais ou religiosas que impeçam
a democracia. É espantoso que as pessoas continuem a acreditar
nessas teorias reducionistas, até que um dia percebam que
as culturas se transformaram.
Veja
Como ocorre essa transformação cultural?
Zakaria Com boas lideranças, com a criação
de instituições democratizantes e com o desejo das
nações de romper com o passado para construir um Estado
moderno. Se essas ambições existirem no Iraque, por
exemplo, a democracia será um passo natural. Veja o caso
da Indonésia. É o mais populoso país muçulmano
e é também uma democracia. Se a religião fosse
um problema, seria impossível explicar o fato de a Indonésia
ter se transformado em um Estado democrático. Seria igualmente
difícil entender a democracia na Turquia e em Bangladesh.
Ou seja, há democracias islâmicas.
Veja
Mas não há nenhuma democracia em país
árabe. Por quê?
Zakaria A principal barreira à democracia
no mundo árabe não é o islamismo ou a cultura
árabe. É o petróleo. Todos os países
ricos do mundo árabe têm o petróleo como principal
fonte de renda. Essa especificidade fez com que os líderes
desses países nunca tenham sido forçados a modernizar
a sociedade e a economia. Como bastava furar o chão para
o dinheiro jorrar, não houve a necessidade de criar uma economia
capitalista moderna, que exige trabalho duro. Costumo dizer que
o petróleo é a maldição do mundo árabe.
Pelo menos no que diz respeito à modernização
econômica e política. De todos os países com
petróleo, apenas um, a Noruega, é democrático.
Veja
Como o senhor explica o caso da Venezuela, que é
um grande produtor petrolífero e um Estado democrático
há décadas?
Zakaria É um caso exemplar. A Venezuela é
um país rico que, por muitos anos, manteve os melhores índices
de qualidade de vida da América Latina. Mas o petróleo
gerou um Estado corrupto. O governo não modernizou as instituições
sociais, não criou novas fontes de renda, não desenvolveu
indústrias e talentos humanos nem educou as forças
de trabalho. Parecia satisfeito com o dinheiro fácil que
brotava do solo. Agora, com o presidente Hugo Chávez, a Venezuela
tornou-se pior do que muitas ditaduras. É uma das nações
mais ricas do mundo e 70% da população vive abaixo
da linha de pobreza.
Veja
O senhor escreveu que só os países com renda
per capita superior a 6 000 dólares podem ser realmente democráticos.
Como explicar a existência de democracias em nações
com renda per capita menores, como o Brasil?
Zakaria É um argumento bastante polêmico
e estou sendo mal interpretado. O que escrevi em meu livro O
Futuro da Liberdade é que, fazendo uma retrospectiva
histórica, as nações que tiveram sucesso em
sua transição democrática eram aquelas que
tinham três caraterísticas básicas: legislação
desenvolvida, economia de mercado não necessariamente
no estilo americano, mas com produtividade e crescimento
e classe média ativa. Não é por coincidência
que quando esses três elementos coexistiam os países
também apresentavam boa distribuição de renda.
Em média, a transição democrática falhou
em países cuja renda per capita era menor que 3.000
dólares. Em contraste, sempre que ocorreu em países
com renda per capita acima de 6.000 dólares,
a revolução democrática deu certo. Claro que
a vida é muito mais complicada do que essas estatísticas.
Mas é importante notar que foi a classe média que
sustentou os movimentos democráticos em todos os países.
Veja
O senhor não acredita que uma revolução
de massa possa resultar em democracia?
Zakaria A classe média não lutou sozinha
pela democracia. Mas, geralmente, foi ela que batalhou pelos contratos
sociais, pela Justiça independente, pelos organismos que
transformam a democracia de direito em democracia de fato. O que
está na raiz do desenvolvimento das nações
não é a democracia, mas a liberdade individual. Claro
que existem países em que a abertura política veio
de baixo ou foi imposta de cima. A Venezuela é um desses
casos. E observe como está o país hoje: um sistema
populista que quase não difere de uma ditadura.
Veja
Em seu último livro, o senhor afirma que a proliferação
da democracia pode ser tanto uma conquista boa quanto ruim. Por
quê?
Zakaria Não se pode negar que democracia é
uma grande conquista. Mas para atingi-la verdadeiramente é
preciso mais que eleições. A democracia requer uma
série de instituições e tradições
que preservem e protejam a liberdade dos indivíduos e as
regras da lei. São essas instituições que dão
vida à democracia tal como a conhecemos no Ocidente e fazem
dela muito mais que um mero concurso de beleza. Sem esses fatores,
as democracias são como conchas vazias. Não têm
conteúdo e não fazem o menor sentido.
Veja
Como diferenciar uma democracia verdadeira daquilo que
o senhor chama de "concha vazia"?
Zakaria Quando olhamos para o mundo e vemos os processos
democráticos atuais, com eleições e corridas
presidenciais se desenvolvendo em países sem tradições
liberais, percebemos que não estamos diante de verdadeiras
democracias. Estamos criando o que chamo de Estados democráticos
não liberais, sistemas que não são melhores
que uma ditadura. Esse é o grande problema dos tempos atuais:
políticos como o presidente Hugo Chávez, da Venezuela,
aprenderam a manipular o conceito de democracia. Eu sou um amigo
da democracia. Como todo amigo verdadeiro, prefiro criticar os problemas
a festejar as conquistas.
Veja
No Oriente Médio, o que vem primeiro: o dinheiro
fácil do petróleo ou a falta de tradição
democrática?
Zakaria Sem dúvida há aspectos das
sociedades árabes que dificultam o desenvolvimento de Estados
liberais. Além da mentalidade conservadora dos líderes
árabes, a região sempre foi marcada por conflitos
armados e culturas tribais. Mas isso só explica parte da
equação. O Japão, que também tinha uma
cultura feudal, conseguiu criar uma economia capitalista e treinar
os cidadãos para competir nessa nova realidade. O mesmo aconteceu
na Coréia do Sul, em Taiwan e em Cingapura. Sabe por quê?
Porque eles não tinham a abundância de recursos naturais
que o Oriente Médio tem. Quando o dinheiro não vem
fácil, o Estado precisa prover as condições
básicas para a modernização econômica.
No caso árabe, o petróleo traz divisas que não
são repartidas entre os cidadãos. Ao contrário,
gera desigualdades e péssima distribuição de
renda.
Veja
O senhor propõe uma "reforma do petróleo"
no Iraque. O que significa isso?
Zakaria A reforma do petróleo equivaleria no Oriente
Médio à reforma agrária em outros países.
Afinal, o que significa a reforma agrária senão tirar
da mão de uns poucos o mais importante recurso natural, que
na maioria das nações é a terra? A idéia
é dividi-la para que todos tenham uma fonte de renda e, dessa
forma, também possam participar de uma economia de mercado.
Além da questão econômica, há um importante
fator social: ao ganhar um pedaço de terra, o cidadão
passa a se sentir parte da sociedade em que vive. Com o petróleo,
o conceito é o mesmo: redistribuir o principal recurso do
Iraque, tirando do governo e entregando ao povo.
Veja
Como isso pode ser feito?
Zakaria Há várias maneiras de realizar
essa reforma. Uma delas seria através da criação
de um fundo nacional do petróleo. Uma espécie de órgão
central teria a responsabilidade de administrar e recolher as receitas
provenientes de sua extração. O fundo só poderia
aplicar recursos em políticas predeterminadas pelo governo.
Ou seja, em programas de educação e saúde.
Essa estratégia está sendo adotada com bons resultados
no Chade, um país do norte da África, desde 1995.
Veja
Como se poderia evitar o desvio desse dinheiro por funcionários
e políticos corruptos?
Zakaria Em países com alto grau de corrupção,
esse fundo de administração do petróleo poderia
realmente se tornar um problema e não uma solução.
É por isso que esse órgão no Chade é
independente do governo, observado por entidades internacionais
e auditado anualmente por empresas privadas. No caso do Iraque,
o novo governo teria de fazer o mesmo: abrir as contas públicas
para que o mundo possa saber o que está sendo feito com o
dinheiro. O petróleo permite essa contabilidade. Basta verificar
quantos barris foram vendidos e a que preço. Depois, determinar
a porcentagem desse total que será investida em programas
de saúde, educação, moradia popular etc. Se
o novo governo iraquiano não tiver esse grau de transparência,
pode-se pensar em outra solução para a democratização
do petróleo.
Veja
Qual seria essa outra estratégia?
Zakaria Semelhante à que os Estados Unidos têm
no Estado do Alasca. Todo o dinheiro que o governo recolhe com a
venda de barris de petróleo no Estado é devolvido
à população em forma de desconto em impostos.
Hoje, cada morador do Alasca recebe 8.000
dólares por ano. É a sua participação
nos lucros que o Estado obtém com o uso do patrimônio
público. Mais uma vez, trata-se de uma reforma agrária.
O dinheiro sai das mãos do governo e de poucos oligarcas
e vai parar na conta corrente do cidadão. Sem intermediários.
O mais interessante é que o dinheiro volta para a economia
doméstica, revitalizando o comércio e a indústria.
Veja
O presidente George W. Bush afirma que a criação
de uma democracia no Iraque funcionará como exemplo para
o Oriente Médio. Quais as chances de que isso dê certo?
Zakaria Tudo depende da forma como os Estados Unidos
vão administrar o Iraque nos próximos anos. Temos
de pensar em duas fases distintas. Primeiro, é preciso construir
naquele país as instituições liberais que são
a espinha dorsal da democracia. Depois, é necessário
ajudar os iraquianos a administrar essas instituições.
Só então poderemos apresentar o Iraque como um exemplo
para o resto da região. Por outro lado, se os Estados Unidos
resolverem voltar para casa em nove meses, por causa da eleição
presidencial, não há chance alguma de que o Iraque
dê certo como país.
Veja
Os exemplos de administração pós-guerra
na Bósnia e no Afeganistão oferecem algumas indicações
para a reconstrução no Iraque?
Zakaria A primeira lição que aprendemos
na Bósnia é que não podemos marcar eleições
muito cedo. Na Iugoslávia, a velha ordem comunista foi rapidamente
destruída, mas novas lideranças demoraram muito tempo
para despontar. No momento em que o país marcou suas primeiras
eleições livres, a transição para a
democracia estava fadada ao fracasso. Isso porque os políticos
apelaram para os votos da forma mais sensível aos eleitores:
o ódio religioso. O que veio em seguida foi o recrudescimento
do nacionalismo sérvio, croata e bósnio. As eleições
foram vistas pelos diversos grupos étnicos e religiosos como
a oportunidade para impor sua própria ordem política
na Bósnia. Da mesma forma, se o processo democrático
for mal conduzido no Iraque, há grande possibilidade de o
caos iugoslavo se repetir no Oriente Médio.
Veja
O Iraque será uma nação dos sunitas,
dos xiitas, dos curdos ou dos americanos?
Zakaria O Iraque se tornará inevitavelmente um
país democrático. Como os xiitas são maioria,
eles deverão dominar o Parlamento e governar a nação
por um bom período. Por isso temos de pensar também
na criação de outras formas de representação
política para contentar os demais grupos étnicos e
religiosos.
Veja
E como fazer isso?
Zakaria Talvez seja preciso pensar em um Estado cuja
representação seja proporcional aos grupos religiosos
ou numa estrutura federal descentralizada. Há muitas formas
de criar uma estrutura política legítima e multifacetada.
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