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EM
FOCO: Gustavo Franco
Nove
anos do real
"Só
agora talvez seja possível dizer
que o real deixou de pertencer a um
partido e a um presidente
e passou,
finalmente, a ser de todos nós"
O real
completou nove anos, agora sob nova administração.
Pouca gente atinou que, comparado aos oito padrões monetários
que vigoraram desde 1942, o real é a moeda mais bem-comportada
que o Brasil já teve: acumulou 155% de inflação
em sua existência, apenas 0,88% mensal em média.
Ilustração Ale Setti
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O cruzeiro foi instituído em 1942 e abolido em 1967, e durante
seus 292 meses de existência acumulou pouco mais de 31 000%
de inflação, ou seja, uma média mensal de 1,99%.
O cruzeiro novo, que lhe sucedeu, era um padrão transitório,
um expediente para cortar zeros. Durou quarenta meses, e a inflação
mensal média durante sua vigência foi de 1,61%. Em
maio de 1970, as cédulas de cruzeiros "velhos", dotadas de
um carimbo dentro de um círculo, foram substituídas
por cédulas inteiramente novas desenhadas por Aloísio
Magalhães.
Como
a inflação não recrudesceu, logo foram emitidas
cédulas de denominações maiores: uma de Cr$
500,00, cujo motivo eram "figuras representativas da formação
étnica brasileira", trazia um rosto por demais semelhante
ao do mais célebre dos canastrões americanos, o ator
Victor Mature. Em 1978 entrou em circulação a nota
de Cr$ 1 000,00, o popular "Barão".
Nessa
nova fase de sua existência (1970-1986), o cruzeiro acumulou
cerca de 206 000% de inflação, ou 4,1% mensais em
média ao longo de seus 190 meses de vida. Ironicamente, a
última cédula emitida a de Cr$ 100 000,00
trazia a figura de JK: quem mais poderia ser o patrono dessa era
do desenvolvimentismo inflacionista?
O
Plano Cruzado novamente cortou três zeros da moeda e tascou
carimbos tanto em JK quanto em Oswaldo Cruz e também em Rui
Barbosa. Villa-Lobos, Machado de Assis, Portinari e Carlos Chagas
foram homenageados em novas cédulas sem carimbos. O cruzado
durou 35 meses, nos quais acumulou uma inflação de
5 700%, ou 12,3% mensais em média.
O
cruzado foi substituído pelo cruzado novo, com outro corte
de três zeros, no âmbito do chamado Plano Verão.
Rui Barbosa, que já circulava sem carimbo, como Cz$ 1 000,00
ganhou um segundo carimbo, agora triangular, o mesmo dado a Portinari
e Carlos Chagas. Dessa vez Carlos Drummond de Andrade, Cecília
Meirelles e Augusto Ruschi foram homenageados em novas cédulas,
e a de NCz$ 200,00 apareceu com a efígie da República
(era 1989, o primeiro centenário), que depois seria a marca
registrada das cédulas do real. O cruzado novo durou quinze
meses com 5 930% de inflação, ou 31,4% mensais em
média!
Em
seqüência, o governo Collor reinventou o cruzeiro, que
nessa nova encarnação durou 41 meses e acumulou 118
000% de inflação, ou 18,8% mensais em média.
Drummond, Cecília Meirelles, Ruschi e a República
ganharam carimbos retangulares. Rondon, Carlos Gomes, Vital Brasil,
Câmara Cascudo e Mário de Andrade foram homenageados
em novas cédulas. Nessa ocasião, as famílias
de nossos heróis nacionais se dividiam quanto à "homenagem":
algumas insistiam em que o herói fosse "eternizado" numa
cédula afinal, eram muitas as vagas que se abriam
e outras proibiam o governo de avacalhar a imagem de seu
parente ilustre.
Em
meados de 1993, mais uma vez se fez um corte de zeros, e o padrão
monetário passou a se chamar cruzeiro real, que durou onze
meses, com 2.400% de inflação
acumulada ou 34% mensais em média, a pior de todas. Cascudo
e Mário de Andrade receberam carimbos redondos, e Anísio
Teixeira ganhou uma cédula nova, a última em que apareceu
um brasileiro ilustre. O Banco Central, a essa altura, já
começara a usar motivos regionais a fim de evitar problemas
com o excesso de candidaturas a herói; as cédulas
do real trouxeram a efígie da República e animais
variados no reverso.
Bem,
o real pôs fim a esse festival de humilhação
dos símbolos nacionais, e o fato mais marcante a assinalar
em seu nono aniversário é que passou o tempo de remoer
as polêmicas que cercaram seu nascimento, e que a nossa moeda
está muito bem-cuidada. Só agora talvez seja possível
dizer que o real deixou de pertencer a um partido e a um presidente
e passou, finalmente, a ser de todos nós.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com,
www.gfranco.com.br)
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