Edição 1810 . 9 de julho de 2003

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Carta ao leitor
Liturgia do cargo


Dida Sampaio/Ag. Estado
Lula: o presidente não deveria usar o prestígio do cargo avalizando um grupo que afronta a lei


Durante a campanha presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva foi injustamente combatido como alguém que representava um risco para a estabilidade do país. Desde que assumiu, Lula provou que os críticos estavam errados. Como até os adversários são obrigados a admitir, está promovendo uma política econômica séria e conservadora. Nos seis primeiros meses de seu governo, o dólar retrocedeu a patamares muito inferiores aos observados antes da posse, o risco Brasil desabou e a inflação vem sendo mantida sob controle. Não é pouca coisa. Nota-se um problema, no entanto. Lula improvisa demais em discursos e confraternizações. Nessas ocasiões, seu índice de desastres tem sido alto. Lula é um homem espontâneo e isso, nele, aparece como grande qualidade. O risco está no excesso de espontaneidade.

Na quarta-feira passada, num encontro com líderes do Movimento dos Sem-Terra no Palácio do Planalto, o presidente botou o boné do MST na cabeça, ao mesmo tempo em que o cerimonial não via nada de mais na iniciativa de um representante do movimento que começou a fazer embaixadas com uma bola de futebol como se estivesse num desinibido fim de semana no sítio. O MST viola as leis do país. Invade a propriedade privada, depreda e saqueia, tudo em nome de uma bandeira social. Nessa situação, o presidente da República não deveria emprestar o prestígio de seu cargo para chancelar um grupo que se tornou conhecido pela contínua agressão às instituições do país e à legalidade.

Esse tipo de improvisação tem ocorrido praticamente todas as semanas. Na anterior, o presidente afrontara o Judiciário e o Congresso ao dizer que ninguém, nem mesmo eles, impediria o Brasil de ocupar o lugar de destaque a que faz jus, como se os dois poderes da República estivessem mesmo jogando contra os interesses nacionais. Está na hora de o presidente se convencer finalmente de que deve levar mais em conta aquilo que o ex-presidente José Sarney chamava de "liturgia do cargo".

 
 
 
 
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