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Carta
ao leitor
Liturgia
do cargo
Dida Sampaio/Ag. Estado
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| Lula:
o presidente não deveria usar o prestígio do cargo
avalizando um grupo que afronta a lei |
Durante a campanha presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva
foi injustamente combatido como alguém que representava um
risco para a estabilidade do país. Desde que assumiu, Lula
provou que os críticos estavam errados. Como até os
adversários são obrigados a admitir, está promovendo
uma política econômica séria e conservadora.
Nos seis primeiros meses de seu governo, o dólar retrocedeu
a patamares muito inferiores aos observados antes da posse, o risco
Brasil desabou e a inflação vem sendo mantida sob
controle. Não é pouca coisa. Nota-se um problema,
no entanto. Lula improvisa demais em discursos e confraternizações.
Nessas ocasiões, seu índice de desastres tem sido
alto. Lula é um homem espontâneo e isso, nele, aparece
como grande qualidade. O risco está no excesso de espontaneidade.
Na
quarta-feira passada, num encontro com líderes do Movimento
dos Sem-Terra no Palácio do Planalto, o presidente botou
o boné do MST na cabeça, ao mesmo tempo em que o cerimonial
não via nada de mais na iniciativa de um representante do
movimento que começou a fazer embaixadas com uma bola de
futebol como se estivesse num desinibido fim de semana no sítio.
O MST viola as leis do país. Invade a propriedade privada,
depreda e saqueia, tudo em nome de uma bandeira social. Nessa situação,
o presidente da República não deveria emprestar o
prestígio de seu cargo para chancelar um grupo que se tornou
conhecido pela contínua agressão às instituições
do país e à legalidade.
Esse
tipo de improvisação tem ocorrido praticamente todas
as semanas. Na anterior, o presidente afrontara o Judiciário
e o Congresso ao dizer que ninguém, nem mesmo eles, impediria
o Brasil de ocupar o lugar de destaque a que faz jus, como se os
dois poderes da República estivessem mesmo jogando contra
os interesses nacionais. Está na hora de o presidente se
convencer finalmente de que deve levar mais em conta aquilo que
o ex-presidente José Sarney chamava de "liturgia do cargo".
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