Epidemia

A tragédia africana

Número de vítimas da Aids
na África já é quase igual ao
da peste negra na Europa medieval

Daniel Hessel Teich

 


Há uma bomba de efeito retardado plantada no coração da África. Ela matará mais de 22 milhões de homens, mulheres e crianças no decorrer da próxima década. O número é 200 vezes maior do que o de todas as vítimas da bomba atômica que destruiu Hiroshima, em 1945. Ou 100 vezes o total de mortos na Guerra do Vietnã. Esse extermínio em massa e silencioso é provocado pela Aids. Enquanto na Europa, nos Estados Unidos e mesmo no Brasil as campanhas de prevenção e novas drogas têm conseguido deter a epidemia e prolongar a vida de milhares de portadores do HIV, para os africanos contaminados praticamente não há esperança. A doença, combinada a pobreza e falta de informação, tem provocado ali uma tragédia de proporções inacreditáveis. A própria agência das Nações Unidas para Aids, Unaids, já considera inevitável nos próximos dez anos a morte de todas as pessoas hoje portadoras do vírus no continente. Isso significa que a Aids vai produzir na África um estrago de proporções semelhantes às da peste negra, que no século XIV dizimou cerca de 25 milhões de pessoas, um terço da população da Europa na época.

Desde o começo da epidemia de Aids, no início dos anos 80, já morreram 11,5 milhões de pessoas vítimas da doença na África meridional, número quase igual ao da população da cidade de São Paulo. Só no ano passado foram 2 milhões de mortos, com a média de 5.500 funerais a cada dia. No Zimbábue, país que junto com Botsuana tem as mais altas taxas de contaminação do mundo, 25% de todos os adultos estão infectados pelo vírus. Ali, entre a população analfabeta a Aids é conhecida como "iyoyo", ou "aquela coisa" uma doença misteriosa associada a definhamento, febre e infecções, capaz de uma devastação sem limites. Um levantamento da Divisão de Populações da ONU mostra que, em 2005, a expectativa de vida em Zimbábue vai cair mais de um terço, de 66 para 41 anos. Em Botsuana, a situação é ainda mais dramática, com queda de 29 anos na expectativa de vida. Os próprios especialistas da ONU ficaram chocados quando compilaram esses números pela primeira vez, há um ano. "Achamos que as contas estavam erradas e levamos meses checando tudo de novo", afirma Peter Piot, diretor da Unaids.

Caixão em domicílio As contas, infelizmente, estavam corretas. Elas mostram que na África Subsaariana, em 1997, 1,5 milhão de crianças ficaram órfãs em decorrência da Aids, o que equivale a mais de 90% do total mundial. Na Zâmbia, país vizinho ao Zimbábue, uma em cada quatro crianças com menos de 15 anos é órfã, o índice mais alto do mundo, com tendência para crescer mais até pelo menos 2020. Meio milhão de crianças de todas as camadas sociais tiveram seus pais mortos pela Aids. Esse número deve dobrar na próxima década, segundo estimativas da ONU. Nas áreas rurais desse país são comuns casos de meninas órfãs se casando com 12 ou 13 anos de idade. Os parentes que deveriam arcar com sua tutela não têm como alimentá-las e ainda ganham algum dinheiro com o dote do noivo para a família, um costume na região. Na capital, Lusaka, o número de meninos de rua saltou de 35.000 para 90.000 em oito anos e 75% das famílias cuidam de pelo menos um órfão. A morte atingiu tamanho grau de banalização que vendedores ambulantes percorrem as ruas da cidade em Kombi e vans oferecendo caixões em domicílio.

Nem mesmo o país mais rico do continente foi poupado da matança causada pelo HIV. Em pouco mais de uma década, a África do Sul viu brotar praticamente do nada 2,9 milhões de casos, deixando um rastro de 360.000 mortos. O país que marcou a história da medicina ao realizar o primeiro transplante de coração, em 1967, tenta desesperadamente conter a doença. A Aids atinge principalmente a população negra e pobre e ameaça chacoalhar a economia do país. Em cada grupo de dez pessoas contaminadas no mundo no ano passado, uma era sul-africana. Num dos maiores centros de mineração, a cidade de Carltonville, onde mais da metade dos 88.000 trabalhadores vivem afastados da família em alojamentos coletivos, estima-se que cerca de 25% dos adultos estejam contaminados. O índice é quase duas vezes maior que o de outras regiões do país. Uma das razões é que ali há cerca de 500 prostitutas, a maioria infectada. Cada vez que os mineiros voltam para junto de suas mulheres e namoradas, a centenas de quilômetros de distância, o vírus vai junto e alonga ainda mais a corrente da morte.

Empresas de vários países africanos já calculam perder entre 6% e 8% dos lucros em gastos com funcionários contaminados, incluindo o pagamento de funerais e medicamentos básicos como antibióticos. Na África, o tratamento anual com inibidores de protease, a mais moderna droga contra a doença, custa para um único paciente o equivalente a um ano de estudo de 400 crianças. A África do Sul, com suas minas de ouro e diamante, tem orçamento anual de aproximadamente 10 milhões de dólares para a Aids. Isso não dá para pagar nem mesmo o AZT necessário para reduzir as chances de as gestantes contaminadas infectarem seus bebês. "Por muito tempo nossa nação fechou os olhos para a Aids, desejando que a verdade não fosse tão real assim", penitenciou-se o virtual sucessor de Nelson Mandela no comando do país, Thabo Mbeki. "Agora enfrentamos o risco de ver todos os nossos sonhos serem estilhaçados."

 

 

 

 

 

 

 




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