A revanche filipina


"Habituados a ler na imprensa
estadunidense que a União Européia
é pouco mais que um lobby de
agricultores ineficientes, nossos Ph.Ds.
ignoram a modernização da Península Ibérica"

 

ILUSTRAÇÃO BETO NEJME


O último capítulo da novela do grampo sobre a privatização das teles vai ainda dar muito o que falar. É normal. Trata-se de uma das maiores operações de privatização do mundo e da maior transferência de riqueza levada a cabo entre nós desde 1759, quando o marquês de Pombal estatizou os bens urbanos e rurais dos jesuítas espalhados pela América portuguesa. De modo geral, subsiste a impressão de que o governo estava meio despreparado para conduzir uma empreitada tão complexa como a da privatização das teles. Assim, se o edital do leilão tivesse sido redigido com o necessário rigor, os eventuais consórcios de "aventureiros" seriam barrados lá atrás, no próprio ato de inscrição. Seriam resguardados o interesse nacional e a pessoa do presidente da República, abusivamente solicitado por auxiliares trapalhões para enxotar a "ratada" (segundo o ex-ministro Mendonça de Barros) que acabou levando a Tele Norte Leste. Sobretudo, o poder público e seus aliados do setor privado foram completamente surpreendidos pela estratégia do grupo ibérico capitaneado pela Telefónica. Quando se ouvem as gravações das conversas no site da Folha de S.Paulo, a incapacidade do governo em divisar os objetivos do consórcio ibérico ganha um tom patético. No exato momento em que André Lara Resende, conversando com o presidente da República, forçava seu sotaque de carioca esperto para fazer piadas sobre a pretendida estultice lusitana, a Portugal Telecom manobrava junto com seus parceiros espanhóis para dar um tombo em todo mundo e abocanhar a ex-Telesp com o filé mignon do mercado brasileiro.

Num contexto mais amplo, o episódio mostra o desconhecimento de uma realidade patente há algum tempo: o renascimento da geopolítica ibérica. Presos a uma visão arcaica de Portugal e da Espanha e habituados a ler na imprensa estadunidense que a União Européia é pouco mais que um lobby de agricultores ineficientes, nossos Ph.Ds. ignoram a modernização da Península Ibérica e suas conseqüências na América Latina. Como é sabido, catapultadas pelas fusões e concentrações que ocorrem na Europa, grandes empresas lusitanas e espanholas estão penetrando nos mercados de suas ex-colônias americanas. No campo cultural há mudanças importantes. Assim, muitas editoras tradicionais hispano-americanas foram compradas por grandes empresas espanholas. Atreladas a uma concepção global do universo de leitores hispanófonos, tais empresas terão menor sensibilidade editorial para as abordagens mais especificamente regionais da criação científica e literária latino-americana. Mais importante ainda é o avanço da Espanha e da língua espanhola nas telecomunicações latino-americanas. Logo as grandes empresas da área vão tornar-se provedoras de serviços da internet. Há rumores no mercado de que o verdadeiro comprador da ex-TV Manchete é... a Telefónica. A StarMedia, provedora de serviços da internet em língua espanhola, destacou-se algumas semanas atrás como a primeira empresa de telecomunicações latino-americana com ações cotadas na Bolsa de Nova York. Para além da América Latina, o alvo distanciado dessas estratégias é o rico mercado formado pelos cidadãos hispanófonos dos Estados Unidos, onde o espanhol aparece como a segunda língua falada no país. No frigir dos ovos, as grandes manobras nas telecomunicações e na mídia eletrônica vão consolidar o predomínio da língua espanhola sobre o português, tanto na Península Ibérica como na América.

Em 1580, formou-se a União Ibérica, quando os Filipes de Espanha passaram a ser também reis de Portugal. O espanhol virou a língua da corte. Todo português do reino ou das colônias que se prezasse -- do padre Antônio Vieira a Gregório de Matos -- devia também falar e escrever em espanhol. Em 1640, Portugal restaurou sua independência e acelerou a decadência da hegemonia da Espanha e da língua espanhola. A revanche filipina está chegando agora, via internet. Vamos todos ter de aprender espanhol, "duela a quien duela", como dizia o ex-presidente Collor.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador





Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line