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A revanche filipina
Num contexto mais amplo, o episódio mostra o desconhecimento de uma realidade patente há algum tempo: o renascimento da geopolítica ibérica. Presos a uma visão arcaica de Portugal e da Espanha e habituados a ler na imprensa estadunidense que a União Européia é pouco mais que um lobby de agricultores ineficientes, nossos Ph.Ds. ignoram a modernização da Península Ibérica e suas conseqüências na América Latina. Como é sabido, catapultadas pelas fusões e concentrações que ocorrem na Europa, grandes empresas lusitanas e espanholas estão penetrando nos mercados de suas ex-colônias americanas. No campo cultural há mudanças importantes. Assim, muitas editoras tradicionais hispano-americanas foram compradas por grandes empresas espanholas. Atreladas a uma concepção global do universo de leitores hispanófonos, tais empresas terão menor sensibilidade editorial para as abordagens mais especificamente regionais da criação científica e literária latino-americana. Mais importante ainda é o avanço da Espanha e da língua espanhola nas telecomunicações latino-americanas. Logo as grandes empresas da área vão tornar-se provedoras de serviços da internet. Há rumores no mercado de que o verdadeiro comprador da ex-TV Manchete é... a Telefónica. A StarMedia, provedora de serviços da internet em língua espanhola, destacou-se algumas semanas atrás como a primeira empresa de telecomunicações latino-americana com ações cotadas na Bolsa de Nova York. Para além da América Latina, o alvo distanciado dessas estratégias é o rico mercado formado pelos cidadãos hispanófonos dos Estados Unidos, onde o espanhol aparece como a segunda língua falada no país. No frigir dos ovos, as grandes manobras nas telecomunicações e na mídia eletrônica vão consolidar o predomínio da língua espanhola sobre o português, tanto na Península Ibérica como na América. Em 1580, formou-se a União Ibérica, quando os Filipes de Espanha passaram a ser também reis de Portugal. O espanhol virou a língua da corte. Todo português do reino ou das colônias que se prezasse -- do padre Antônio Vieira a Gregório de Matos -- devia também falar e escrever em espanhol. Em 1640, Portugal restaurou sua independência e acelerou a decadência da hegemonia da Espanha e da língua espanhola. A revanche filipina está chegando agora, via internet. Vamos todos ter de aprender espanhol, "duela a quien duela", como dizia o ex-presidente Collor. Luiz Felipe de Alencastro é historiador
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