Entrevista • Pavan Sukhdev
O
preço da biodiversidade |
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Alexandre
Schneider
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"A
verdadeira inovação é fruto
de limitações.
Em uma economia
verde, haverá ainda mais inovação,
porque
as empresas terão de fabricar
os mesmos produtos sem poluir" |
Em 2007, em um encontro do G8,
o grupo dos oito países mais ricos do mundo, em Potsdam, na Alemanha, decidiu-se
que era necessário criar um painel responsável por calcular o custo
dos danos ao ambiente causados pelo homem. O indiano Pavan Sukhdev, economista
sênior do Deutsche Bank, foi convidado para coordenar esse projeto, chamado
de "A economia dos ecossistemas e da biodiversidade" (Teeb, na sigla
em inglês) e vinculado ao Programa das Nações Unidas para
o Meio Ambiente. O resultado será apresentado em outubro em uma conferência
sobre biodiversidade em Nagoya, no Japão. Sukhdev concedeu a seguinte entrevista
ao editor Diogo Schelp em São Paulo, onde participou de palestras para
divulgar dados preliminares de seu estudo. Ele avalia que o prejuízo causado
pela destruição do ambiente só pode ser revertido com uma
transição para um sistema econômico mais sustentável.
É o que Sukhdev chama de "economia verde".
Qual é o custo da destruição
da natureza?
A perda anual representa entre 2,5 trilhões e 4,5 trilhões
de dólares. Nessa conta está incluída apenas a destruição
das florestas, dos mananciais e da vegetação dos mangues. O cálculo
foi feito com base no valor atual dos serviços que esses recursos naturais
prestam ao homem, como ar puro, água doce, produtos florestais, turismo
ecológico, potencial biológico das espécies, prevenção
de inundações e controle de secas.
Quem mais
perde com os danos ao ambiente?
Há quem pense que a defesa ambiental
é um luxo para os ricos. A realidade é o oposto. A proteção
da biodiversidade é uma necessidade para os pobres, principalmente os da
zona rural. Eles sobrevivem dos benefícios diretos das florestas, dos recursos
hídricos e do solo. Essa dependência se explica porque os pobres
não têm muitos bens acumulados. Como têm pouca riqueza privada,
precisam da riqueza pública, na forma de serviços ecológicos,
para sobreviver. Se continuarmos no atual ritmo de destruição
ambiental, em 2050 o prejuízo será equivalente a 7% do PIB mundial.
Pode parecer pouco em relação à riqueza global, mas é
muito se comparado aos benefícios e ao sustento que a natureza proporciona
às famílias dos agricultores pobres. Por isso, acredito que a maneira
certa de calcular o custo da destruição do ambiente é compará-lo
não ao PIB, mas à renda da população pobre. Por esse
critério, os prejuízos causados pelo mau uso dos recursos naturais
representam entre 50% e 80% da renda dos pobres. Enquanto não mudarmos
a maneira de fazer negócios, vamos continuar perdendo as vantagens dos
serviços ambientais e, por consequência, prejudicando a sobrevivência
da maior parcela da humanidade.
O que é
preciso mudar na maneira de fazer negócios?
A visão
dominante, hoje, é a da necessidade de escolher entre desenvolvimento e
ambiente, ou entre riqueza e biodiversidade. Esses elementos não são
intercambiáveis. Os empresários também podem ser prejudicados
pela devastação ambiental. Há pelo menos três maneiras
de convencê-los disso. A primeira é mostrar os riscos crescentes
ao seu negócio. Se a empresa atua no setor agrícola, por exemplo,
pode ter gastos mais elevados com fertilizantes e até perder a capacidade
de produzir em determinada região se houver escassez de água causada
pelo mau uso do recurso. A segunda maneira é revelar as oportunidades de
negócio relacionadas à exploração sustentável
da natureza. A indústria dos produtos orgânicos é um exemplo
disso. Trata-se de um mercado que cresceu a um ritmo de 200% nos últimos
quatro anos, no mundo todo. A terceira forma de eliminar a dicotomia entre desenvolvimento
e ambiente é incentivar os empresários a explorar o potencial de
uma nova área de inovação: a criação de tecnologias
sustentáveis inspiradas em soluções da natureza. Em resumo,
os empresários precisam começar a investir em capital natural, aquele
formado pelos benefícios dos ecossistemas e da biodiversidade. Essa economia
verde terá de substituir o modelo atual.
Por
que o modelo econômico atual não é sustentável?
O
mundo nunca se recuperou para valer da grande recessão do início
dos anos 30. O modelo que nos tirou daquela situação, válido
até hoje, surgiu após a II Guerra e era baseado no aumento da produção
alimentada pelo consumo. O progresso econômico passou então a ser
medido pelo crescimento do PIB (produto interno bruto), basicamente a soma de
toda a riqueza produzida por uma nação. Desde então, estamos
presos nesse esquema. Durante algum tempo, o progresso baseado no crescimento
do PIB serviu a um bom propósito, porque elevou uma grande parcela da sociedade
a um patamar de grande bem-estar. Atualmente, esse modelo é tão
anacrônico quanto o transporte transoceânico de passageiros em navios.
Nas últimas décadas, o mundo enfrentou quatro grandes recessões.
Para o capitalismo voltar a funcionar, é preciso entender a riqueza como
uma combinação do capital físico (produtos e serviços
feitos pelo homem, bens monetários), do capital humano (saúde, educação,
inteligência), do capital social (segurança nas ruas e outros elementos
da convivência em sociedade) e do capital natural (a possibilidade de respirar
ar puro e beber água limpa). O modelo de progresso econômico quantificado
apenas pelo PIB é uma falácia. Estamos presos em um esquema que
privilegia a quantidade contra a qualidade. Isso é ilógico.
O
senhor pode dar um exemplo?
Basta analisar a questão dos subsídios.
Atualmente, a indústria do petróleo recebe mais de 300 bilhões
de dólares por ano para subsidiar preço e produção.
Qualquer cidadão sabe que os combustíveis fósseis estão
entre os maiores culpados pelo aquecimento global. Apesar de ser antieconômica
e poluente, a exploração de petróleo e derivados é
sustentada com dinheiro público. A pesca recebe 27 bilhões de dólares
anuais de ajuda, o que representa um terço do faturamento global da indústria
pesqueira. O resultado disso é que os estoques de peixe nos oceanos estão
entrando em colapso. Esse é um exemplo claro da falta de lógica
da busca inconsequente pelo aumento da produção.
Como
o setor financeiro pode lucrar em uma economia verde?
Os bancos correm para
os setores onde estão os negócios mais bem-sucedidos. Em uma economia
verde não será diferente. As empresas com o melhor retorno financeiro,
aquelas com maior estabilidade e bom padrão de crescimento, serão
sempre privilegiadas pelos banqueiros. Se o meu acionista quer o melhor desempenho
com os riscos mais baixos possíveis, por que não investiria em empresas
verdes, sustentáveis?
Como o senhor
define a economia verde?
Trata-se de um modelo econômico que reduz
o risco de escassez ecológica e dano ambiental. Estima-se que o impacto
da atividade das 3 000 principais corporações do mundo na
mudança climática, nos recursos hídricos, no desperdício
de material e na poluição tenha um custo de 2,25 trilhões
de dólares por ano. Isso representa 3% da economia global e não
inclui acidentes ambientais como o vazamento de petróleo no Golfo do México.
Uma economia verde deverá contabilizar os custos que a atividade empresarial
impõe à sociedade e terá de lidar com eles. A riqueza, então,
passará a ser medida com base no acúmulo de capital humano, natural
e social, e não apenas físico.
Para
diminuir o impacto ambiental da atividade econômica, será preciso
reduzir o padrão de consumo da humanidade?
Nos países ricos,
sim. Para uma pessoa rica, o consumo representa apenas acúmulo de bens.
O morador de Saint-Tropez, na França, não está preocupado
em poder comprar dois hambúrgueres ou um só, mas se o seu iate é
maior do que o do vizinho. Que melhoria de qualidade de vida é essa? Isso
é puro consumismo. A população dos países pobres,
no entanto, ainda precisa elevar o seu padrão de vida. O acesso a alguns
serviços públicos e a certas formas de riqueza depende do aumento
do consumo. O desafio global é conseguir um equilíbrio no nível
de bem-estar das populações.
Nos
países ricos, a queda no consumo não levaria ao fim da inovação
tecnológica?
O seu iPhone e o meu BlackBerry teriam um preço
muito mais alto para o consumidor final se as empresas tivessem de pagar pelo
impacto de despejar cinquenta ou sessenta produtos químicos na natureza
ou pela reciclagem dos metais contidos no aparelho. Se o custo ambiental do produto
fosse incluído no preço final, aí, sim, as empresas teriam
de inovar. Atualmente, a inovação apenas tem substituído
consumo por mais consumo. Isso é preguiça. A verdadeira inovação
é fruto de limitações, de oportunidades e da engenhosidade
humana. Celulares como o seu ou o meu podem até tornar a nossa vida mais
fácil, mas uma terceira pessoa pode ter sofrido as consequências
ambientais da produção desses aparelhos. Em uma economia verde,
haverá ainda mais inovação, porque as empresas terão
de descobrir uma maneira de fabricar os mesmos produtos sem poluir e substituindo
determinados materiais por outros, mais sustentáveis.
Que
papel os governos terão na transição para a economia verde?
Os
cidadãos não precisam de um estado-babá. Eu administro o
meu próprio portfólio de investimentos, assim como cada indivíduo
cuida do seu dinheiro. Como economista ambiental, há uma espécie
que, na minha opinião, não precisa ser salva: a das empresas improdutivas
e pouco sustentáveis. Os governos deveriam simplesmente deixá-las
morrer. Precisamos, isso sim, de segurança na rua, de transportes públicos
de qualidade e a custo decente, de ar puro para respirar. Tudo isso engloba o
que eu chamo de riqueza pública, e a função dos governos
é resguardá-la.
Como convencer
os governos a adotar essa postura?
Atualmente, os governos estão
presos ao seguinte modelo: o crescimento do PIB influencia nos lucros corporativos,
estes elevam o nível de arrecadação de impostos, que por
sua vez alimenta o orçamento deficitário do estado. Uma maneira
de sair desse círculo vicioso é mudar a taxação de
recursos. Em vez de arrecadar impostos sobre a renda e os bens, como é
feito hoje, seria melhor taxar os efeitos externos negativos da atividade empresarial.
As alíquotas deveriam ser aplicadas sobre o uso dos recursos naturais e
dos materiais. O modelo atual apenas incentiva o mau uso do capital. |