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Home  »  Revistas  »  Edição 2168 / 9 de junho de 2010


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Livros

O espírito livre que faltou à Rússia

Pela primeira vez, é traduzido no Brasil o clássico Eugênio Oneguin, de Alexander Pushkin. Considerada uma pedra fundamental da literatura russa, a obra é também o perfeito antídoto para o autoritarismo que marca a história do país


Nelson Ascher

Fotos Time Life Pictures/Getty Images; Corbis/Latinstock: Magnum Photos/Latinstock
DÂNDI IRÔNICO
Pushkin: oposição veemente à tirania czarista e morte em um duelo, por ciúme

Alexander Sergueievitch Pushkin (1799-1837), pai da literatura russa, fundou a tradição que deu ao mundo Gógol, Dostoievski, Tolstoi e Tchecov, todos reconhecidos e gratos a seu predecessor. Poeta, romancista, contista, dramaturgo e historiador, ele criou, numa carreira de duas décadas, a poesia, os contos e as peças que colocaram seu país no mapa cultural da Europa. Seus com-patriotas consideram Eugênio Oneguin (Record; 288 páginas; 47,90 reais) não só sua obra-prima, mas também um monumento que rivaliza com a Divina Comédia de Dante, o Fausto de Goethe e as tragédias de Shakespeare. Livro singular, esse romance em versos, antes inédito em nossa língua, sai agora finalmente em português graças a um trabalho de mais de dez anos do tradutor Dário Moreira de Castro Alves.


Oriundo da nobreza empobrecida e também de um remoto ancestral africano, Pushkin cresceu numa Rússia que, devido às guerras napoleônicas, começara a participar do concerto das nações. Quando nasceu, seu país não possuía ainda nem uma literatura de verdade nem uma linguagem capaz de acolhê-la, e até a aristocracia de seu tempo preferia falar francês. Jovem rebelde, apreciador das festas, da bebida, das belas mulheres e do jogo, sua existência foi sempre agitada. Contrário à tirania absolutista do czar, foi diversas vezes exilado em vários cantos do império. Após inúmeras aventuras, o poeta desposou uma beldade, Natalia Goncharova, mas, provocado por cartas anônimas que o levaram a duvidar da fidelidade da mulher, acabou morto em um duelo, aos 37 anos.

Escrita ao longo de sete anos, Eugênio Oneguin é uma obra difícil de definir. Embora seja um romance e flua, sem obstáculos, como a melhor prosa, está escrita em estrofes rimadas de catorze versos que equivalem, cada qual, a um soneto – de modo que o todo funciona seja como uma coletânea de poemas individuais, seja como um longo poema. Essa fusão perfeita de prosa e verso equivaleria, em termos brasileiros, a um texto no qual se combinassem harmonicamente o olho clínico e a elegância de Machado de Assis com o talento poético de um Manuel Bandeira ou de um Vinicius de Moraes. Não é à toa que se trata de obra dificílima de traduzir. Só em inglês já saíram mais de dez versões, nenhuma considerada inteiramente satisfatória. O trabalho de Dário Moreira de Castro Alves é sério e empenhado, mas há muito a ser aperfeiçoado em sua versificação: a tradução de uma obra dessas é trabalho inacabável.

Eugênio Oneguin, o protagonista, é um rapaz mimado que, após herdar uma fortuna, abandona entediado os prazeres da capital e se muda para sua propriedade rural. O fio central da história são os desencontros amorosos de Eugênio e uma mulher que ele conhece na província, Tatiana. Mas, como observou Vladimir Nabokov, admirador do livro e um de seus tradutores para o inglês, Pushkin faz um compêndio enciclopédico da vida russa de então, de seus costumes e surpresas, de suas alegrias e desencantos. Não há, para o autor, detalhe irrelevante. Seus versos conseguem deleitar o leitor apresentando os pratos de um banquete ou descrevendo um vestido.

O escritor argentino Jorge Luis Borges observou que os países tendem a eleger como seus máximos representantes literários os autores que menos refletem o caráter nacional: um Shakespeare hiperbólico numa Inglaterra afeita a se expressar sutilmente nas entrelinhas, um Goethe universalista numa Alemanha nacionalista, um Cervantes bem-humorado e tolerante na sisuda Espanha da Inquisição. A observação do argentino se aplica ainda com maior propriedade a Pushkin, que quase nada tem a ver com o que se tornou comum esperar de um escritor russo. Os dilemas da interioridade dilacerada, o desconforto existencial, as singularidades da alma russa, o patriotismo exacerbado, o fervor religioso, a militância política, a obsessão pela sociedade e sua reforma: nada disso atraía o jovem dândi irônico e bon-vivant, alheio a grandes arroubos emocionais. Embora amasse seu país e seu povo e desprezasse a tirania, o poeta era um individualista. Borges sugere que, nos autores arquetípicos, as nações talvez busquem um antídoto para o que têm de pior. Como que para confirmá-lo, Pushkin encarna a liberdade de espírito que tanto faltou nos dois últimos séculos de história russa.


O fundador da língua russa

Alexander Pushkin (1799-1837) é tido como o pai da literatura na Rússia – avaliação confirmada pelos grandes escritores do país


"Pushkin apareceu quando nascia nossa autoconsciência", diz Fiodor Dostoievski (1821-1881). O autor de Crime e Castigo, nacionalista feroz, quis fazer do antecessor um profeta do eslavismo – embora Pushkin fosse mais cosmopolita


Leon Tolstoi (1828-1910), em suas cartas e diários, menciona Pushkin várias vezes, sempre com reverência. O autor de Guerra e Paz admirava a precisão e a elegância da prosa de Pushkin


Prêmio Nobel de 1987, o poeta Joseph Brodsky (1940-1996) – um dissidente da União Soviética – reconhecia em Pushkin o escritor que conferiu dignidade ao idioma russo. "Ele deu à nação russa sua linguagem literária e, portanto, sua sensibilidade", escreveu
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