Panorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Eleições: A fé na transferência de votosGeral
• Diplomacia: Lula abriu 68 novas representaçõesGuia
• Lavanderia: Escolha a máquina certa para suas necessidadesArtes e Espetáculos
• Televisão: Uma aula de cinema nos clássicos do TCMBrasil"Era para levantar tudo,
|
Moreira Mariz![]() |
| TRABALHO CARO Delegado Onézimo Sousa: oferta de 1,6 milhão de reais para saber tudo o que falavam os adversários |
Na semana passada, VEJA revelou a existência de um grupo
que se reunia dentro do comitê eleitoral do PT, em Brasília, com
a missão de espionar adversários e integrantes do próprio
partido. A notícia estremeceu as relações até então
amigáveis entre os principais atores ligados à campanha presidencial.
O PSDB anunciou que pretende convocar para depor no Congresso os personagens
que tentaram montar uma rede de espionagem onde funciona o comitê de comunicação
da pré-campanha da ex-ministra Dilma Rousseff. "Haverá um
acirramento", avisou Eduardo Jorge, vice-presidente executivo dos tucanos.
Já os petistas correm em sentido oposto, tentando pôr um ponto
final à discussão. "Não fomos nós que colocamos
esse assunto absurdo em pauta. Esse tipo de debate não interessa ao país",
afirma o presidente do PT, José Eduardo Dutra. Na sexta-feira passada,
em entrevista a VEJA, o delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo
Sousa revelou detalhes que ajudam a dimensionar com maior exatidão o
que se planejou nos subterrâneos do comitê petista - forçando
uma intervenção direta do comando da campanha com ordens expressas
de parar com tudo.
Apontado como o chefe do grupo de espionagem, o policial garante que sua atuação se restringiu a uma reunião de planejamento. O que foi proposto, segundo ele, era inaceitável. Em carta a VEJA, ele reafirmou que divergia "cabalmente quanto à metodologia e ao direcionamento dos trabalhos a ser ali executados". O comitê petista queria identificar um suposto membro da cúpu-la da campanha que estaria vazando informações estratégicas. Para isso, era necessário reunir os extratos telefônicos e rastrear com quem cada um deles conversava. Acreditava que por meio do cruzamento de números o traidor seria facilmente identificado. A outra missão era ainda mais explosiva: monitorar o ex-governador José Serra, candidato à Presidência pelo PSDB, e o deputado tucano Marcelo Itagiba, seus familiares e amigos. Os aloprados do comitê queriam saber tudo o que os dois faziam e falavam.
No início de abril, ainda distante do atual clima de euforia com o resultado das pesquisas eleitorais, havia uma disputa interna pelo controle da campanha. De um lado, o ex-prefeito Fernando Pimentel, coordenador e amigo de Dilma. Do outro, um grupo do PT de São Paulo ligado ao vice-presidente do partido, o deputado Rui Falcão. Onézimo Sousa conta que foi convidado para uma conversa com Pimentel, na área reservada de um restaurante tradicional de Brasília. No local marcado, não encontrou o coordenador da campanha, mas um representante do comitê, o jornalista Luiz Lanzetta. Responsável pela parte de comunicação da campanha, Lanzetta explicou ao delegado que o objetivo deles era montar um grupo de espionagem. Não haveria contrato, e o pagamento - 1,6 milhão de reais, o equivalente a 160 000 por mês - seria feito pelo empresário Benedito de Oliveira Neto, um prestador de serviços que enriqueceu durante o governo Lula e estava presente à reunião, da qual participou também o ínclito, reto e vertical ex-jornalista e agora escritor Amaury Ribeiro.
O senhor foi apontado como chefe de um grupo contratado para
es-pionar adversários e petistas rivais?
Fui convidado numa reunião da qual participaram o Lanzetta, o Amaury (Ribeiro), o Benedito (de Oliveira, responsável pela parte financeira) e outro colega meu, mas o negócio não se concretizou. Havia
problemas de metodologia e direcionamento do trabalho que eles queriam.
Como assim?
Primeiro, queriam que a gente identificasse a origem de vazamentos que
estavam acontecendo dentro do comitê. Havia a suspeita de que um dos coordenadores
da campanha estaria sabotando o trabalho da equipe. Depois, queriam investigações
sobre o governador José Serra e o deputado Marcelo Itagiba.
Que tipo de investigação?
Era para levantar tudo, inclusive coisas pessoais. O Lanzetta disse que
eles precisavam saber tudo o que eles faziam e falavam. Grampos telefônicos...
Pediram ao senhor para grampear os telefones do ex-governador
Serra?
Explicitamente, não. Mas, quando me disseram que queriam saber tudo
o que se falava, ficou implícita a intenção. Ninguém
é capaz de saber tudo o que se fala sobre alguém sem ouvir suas
conversas. Respondendo objetivamente, é claro que eles queriam grampear
o telefone do ex-governador.
Disseram exatamente que tipo de informação interessava?
Tudo o que pudesse ser usado contra ele na campanha, principalmente coisas
da vida pessoal. Esse é o problema do direcionamento que eu te disse.
O material não era para informação apenas. Era para ser
usado na campanha. Na hora, adverti que aquilo ia acabar virando um novo escândalo
dos aloprados.
Quem fez essa proposta?
Fui convidado para um encontro com Fernando Pimentel. Chegando lá
no restaurante, estava o Luiz Lanzetta, que eu não conhecia, mas que
se apresentou como representante do prefeito.
Ele pediu para investigar os petistas também?
Disse que estava preocupado, que tinha ocorrido uma reunião entre
os seis coordenadores da campanha e que tudo o que havia sido discutido foi
parar nos jornais. Havia alguém vazando informações, e
ele queria saber quem era. Suspeitava do Rui Falcão.
O ex-prefeito Fernando Pimentel informou que não conhece o delegado e que Luiz Lanzetta não fala em seu nome. O jornalista, que continua trabalhando no comitê da campanha, disse que "fez uma bobagem" ao tentar criar um grupo que tinha como objetivo apenas evitar ataques dos adversários.