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• Televisão: Uma aula de cinema nos clássicos do TCMEntrevista: Daron AcemogluÉ a destruição criativaOtimista,
o economista do MIT diz que o Brasil encontrou
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"Sem instituições saudáveis,
um país simplesmente não consegue reunir a melhor tecnologia nem a melhor educação" |
Gilberto Tadday![]() |
O economista Daron Acemoglu tem 42 anos, mas
um currículo de quem já viveu o dobro. Nascido em Istambul, na Turquia,
e educado na Inglaterra, ele começou a dar aulas no prestigiado Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT) aos 25 anos. Ganhou doze prêmios, publicou
dois livros e está escrevendo mais dois em parceria com colegas
um sobre princípios da economia, outro sobre o que leva as nações
a fracassar, já com editora no Brasil. Seu mote central é que os
países crescem, ou deixam de crescer, em razão de suas instituições
políticas e econômicas. A boa notícia é que, segundo
ele, o Brasil encontrou seu caminho institucional. Quanto mais destruição
criativa, processo tão próprio de um capitalismo dinâmico,
melhor. A seguir, a entrevista.
Se um país
pudesse optar por ter a melhor tecnologia, a melhor educação
ou as melhores instituições, o que o senhor recomendaria?
As
melhores instituições. A tecnologia e a educação
são fundamentais para o crescimento econômico, mas, sem instituições
saudáveis, um país não consegue reunir a melhor tecnologia
nem a melhor educação.
O que são instituições
saudáveis?
Grosso modo, são instituições políticas
e econômicas. As econômicas precisam garantir o direito de propriedade
e uma ordem legal que permita que as pessoas comprem, vendam, contratem etc. O
empresário tem de saber que pode contratar alguém sem o risco de
ser roubado pelo empregado, e o empregado precisa saber que pode ser contratado
com a segurança de que receberá seu salário e não
será escravizado. Sem essas instituições, não há
mercado. As instituições políticas, em certa medida, confundem-se
com as econômicas porque também precisam garantir uma ordem legal
homogênea, em que a lei seja aplicada a todos. O importante não
são leis duras, mas leis que valham para todos. Há países
com punições duríssimas contra roubo, como cortar a
mão fora, mas a lei não vale para a elite dirigente, que
pode esbaldar-se roubando quanto quiser sem perder mão nenhuma. Num sentido
mais específico, instituições políticas saudáveis
garantem a partilha do poder político. É o sistema em que o
dirigente que não está agradando à sociedade é substituído
por outro sem ruptura.
Isso não
é democracia?
É parecido, mas não é democracia. As
instituições saudáveis, que meu colega James Robinson
e eu chamamos de "instituições inclusivas", porque incluem todas as pessoas, não surgiram na democracia. Elas foram um grande
passo para a democracia, mas vieram à luz na Inglaterra da Revolução
Gloriosa, em 1688. O rei não era eleito. O voto não era universal.
Só 2% dos ingleses votavam, quase todos os membros do Parlamento
eram riquíssimos. Foi nesse ambiente não democrático
que começaram a surgir instituições inclusivas. A mudança-chave
ocorreu quando o Parlamento passou a controlar o poder do rei, atribuindo-se a
prerrogativa de tributar, declarar guerra, definir gastos militares. Com isso,
mais a aprovação de uma carta de direitos, a Inglaterra começou
a criar um sistema de controle e vigilância do poder e do Parlamento.
Mais
de 300 anos depois da Revolução Gloriosa, a democracia não
virou condição para criar boas instituições?
A democracia
não é necessária, nem suficiente. Veja o caso da Venezuela
e da Argentina. Hugo Chávez assumiu em 1999, Néstor Kirchner em
2003. Ambos chegaram ao poder democraticamente, nenhum virou presidente com fraude
eleitoral. Chávez, para ficar no caso mais agudo, não é um
ditador maluco. É um megalomaníaco. Mas eu entendo de onde ele veio.
A Venezuela, país profundamente desigual, tinha uma larga fatia da sociedade
sem direitos políticos ou econômicos. Chávez chegou querendo
dar voz a esse vasto segmento social. Mas, assim que assumiu, o que
fez? Começou a centralizar o poder e a violar os direitos de propriedade,
criando um clima de insegurança. Na Argentina, Kirchner, o marido,
não fez igual, mas fez parecido. Trouxe de volta a retórica populista
e tomou medidas arbitrárias na economia. A democracia não controlou
Chávez nem Kirchner. Não é o que acontece no Brasil.
O
que acontece no Brasil?
O caráter ou a personalidade do dirigente
não estão em jogo. Não estou dizendo que Kirchner
é mau e Lula é bom, nem estou dizendo o contrário. A questão é institucional. As instituições informam
o presidente de que ele não pode governar como bem entender.
Há pesos e contrapesos. O próximo presidente do Brasil, seja quem for, vai governar num ambiente já inteiramente diferente do da Venezuela. O Brasil está encontrando seu caminho, e essa moldura institucional é a melhor garantia de que o país poderá
seguir avançando.
Existe uma receita básica para
criar e manter boas instituições?
Entendemos melhor o que dificulta
o florescimento das instituições do que o mecanismo que as faz nascer.
Mas é um processo sem fórmula mágica. A democracia brasileira
hoje é mais sólida do que era 25 anos atrás, quando acabou
a ditadura. Fortaleceu-se no processo. Acho que o surgimento das instituições
conta com um elemento de sorte. Na Inglaterra do século XVII, houve uma
confluência de fatores que favoreceram o nascimento de instituições
inclusivas. Nessa época, a França não tinha as mesmas
condições. A Alemanha não as teve nem 100 anos depois.
Existe um componente de sorte.
O Brasil
e os EUA tiveram um começo parecido. Eram ambos colônias europeias,
de economia agrícola e escravocrata, com extensão continental. O
salto à frente dos EUA também foi um golpe de sorte?
A sorte teve
um papel, mas foi mais que isso. Nos EUA, a escravidão ficou mais restrita
ao sul. No norte, havia pequenos fazendeiros, pequenos empresários, uma
economia mais independente da escravidão. No Mississippi, o algodão
era o rei do pedaço, mas no norte, em Massachusetts ou Nova York, o papel
econômico do algodão era quase nenhum. No Brasil, a economia escravocrata
teve dimensão mais nacional, uma influência estrutural. Nos EUA,
como o norte não foi tão contaminado, houve condições
de empurrar o país para a frente, com a adoção das tecnologias
que chegavam da Inglaterra no século XIX. O norte só cumpriu
esse papel porque quase a metade da sua economia era aberta, não era monopolizada
por políticos, nem por meia dúzia de famílias, nem por empresas
protegidas da concorrência por todo tipo de barreira. Os EUA já
eram excepcionalmente bons em abrir espaço para gente nova, como Eli
Whitney e Thomas Edison, que tinham origem modesta e apostaram num negócio. É incrível que, já naquela época, gente assim pudesse abrir uma empresa e explorar nova tecnologia. Esse foi o elemento
decisivo para a ascensão meteórica dos Estados Unidos.
Como
os EUA conseguiram superar as desigualdades entre o norte e o sul?
Com duas instituições
nacionais: a polícia e a imprensa. A polícia nacional, ou o exército,
serve para pôr as coisas em ordem. Nos EUA, o poder de polícia foi
amplamente usado no sul para proteger os negros que lutavam contra a opressão
racial e combater o monopólio do poder político. Sem o exército,
talvez o sul chegasse aonde está hoje, mas o ritmo avassalador das reformas
deveu-se à intervenção federal. O outro polo é a imprensa.
Havia um movimento pelos direitos civis, parte no sul e parte no norte, mas o
movimento no norte era muito mais vibrante. Até 1900, o norte pouco sabia
do sul, mas, quando a mídia começou a se fortalecer, informando
a todos o que se passava, o movimento dos direitos civis tornou-se muito mais
poderoso. A imprensa, em qualquer democracia funcional, é central. Por
isso, é tão atacada. Quem vai impedir o governante de exercer o
poder de modo arbitrário, beneficiar seu primo ou cunhado, e silenciar
o rival em potencial? A única força capaz de fazer isso é
a sociedade, que só saberá do que se passa pela imprensa.
No
Brasil, os políticos de estados menos desenvolvidos são os donos
do jornal, da rádio ou da TV local, que não têm nenhum interesse
em minar seu próprio poder.
Isso é um problema sério, mas
não é incomum. No caso americano, os sulistas não liam o The New York Times. Liam os jornais locais, que estavam no bolso da elite
local que controlava o Partido Democrata, a polícia e a Ku Klux Klan. Essa
desigualdade entre regiões acontece mesmo. É comum uma região
ficar para trás em termos de instituições econômicas,
respeito aos direitos humanos, aplicação homogênea da lei,
combate à corrupção. Em todos os países de certa extensão
territorial excluo lugares minúsculos como Singapura, Hong Kong
houve, em algum momento, uma situação de desigualdade interna.
Mas, nos casos mais bem-sucedidos, a imprensa quase sempre foi um dado fundamental.
A televisão, por ter dimensão nacional, poderia fazer um trabalho
excepcional nesse campo, mas nunca o faz. Talvez a TV seja um veículo mais
próprio para entreter do que para noticiar e informar. Sempre que um regime
é ameaçado por uma revelação incômoda, pode
apostar: a revelação sempre sai num jornal ou numa revista.
O
senhor vê o futuro com otimismo?
Sou otimista. Acredito que mais países
conseguirão construir instituições inclusivas e abraçarão
o crescimento econômico. Só não sou tão otimista quanto
ao meio ambiente. Em algum momento, dentro dos próximos quinze anos, China,
Rússia, França, Alemanha, EUA, Inglaterra, Brasil e Índia
terão de fazer algum sacrifício em nome do meio ambiente. Não
sei o que acontecerá se algum desses países simplesmente se negar
a qualquer sacrifício. Hoje, não estamos preocupados com isso, mas
acho que deveríamos estar.
Com a
crise financeira mundial, o capitalismo de estado chegou para ficar?
É
cedo para dizer. Nos EUA, o estado terá maior interferência no setor financeiro, mas não acredito que vá além disso.
O governo americano salvou a GM e a Chrysler, é verdade, mas isso não
é tão raro assim. Há muitas indústrias que nem
teriam existido sem o governo. Nem a internet existiria. A questão central
é se os governos estarão envolvidos na economia como coadjuvantes
ou protagonistas.
Qual a sua aposta para
o futuro do Brasil?
Acredito que, dentro de cinquenta anos, não
teremos grandes mudanças no mundo. Não veremos países como
França ou Inglaterra ficar subitamente pobres, por exemplo, mas tudo
sugere que Brasil, Índia e China estarão no primeiro pelotão.
Serão nações poderosas pelo seu impacto econômico
e terão atingido níveis de renda próximos aos dos países
mais pobres da União Europeia de hoje, como Portugal.
O
que pode impedir que isso aconteça?
A economia se fechar. A globalização
não é perfeita, ela produz desigualdade, mas eliminou enormes bolsões
de pobreza. A China jamais estaria tendo desempenho miraculoso com uma economia
fechada, apostando só no mercado doméstico. O mesmo vale para o
Brasil. Crescimento econômico nunca é fácil, há muitos
obstáculos para remover. A China terá de se livrar de todas aquelas
estatais e das barreiras comerciais, terá de abrir seu sistema político.
Vai acontecer? É fundamental um processo contínuo de destruição
criativa, gente nova chegando com novas ideias, novos produtos, nova energia,
deslocando quem já está dentro. O Brasil dos anos 60 ou
70 tinha grandes empresas cujas conexões políticas as protegiam
de disputas com a concorrência. O Brasil estagnou. Hoje, a economia
não é rósea, mas é mais competitiva, mais dinâmica.
Continuará? Ou os dinossauros vão parar tudo outra vez? Essa
é a questão-chave.