J. R. Guzzo
Alta ansiedade
"Jamais foi provada
a existência de alguma relação
entre peso baixo e felicidade;
é perfeitamente possível
ser magro e infeliz ao mesmo tempo. É
algo a pensar"
O jornalista
americano A.J. Liebling, grande estrela da fase gloriosa da revista New Yorker, e um dos melhores e maiores garfos que as mesas de Paris já conheceram,
dizia que pessoas que têm preocupações com a saúde
não deveriam escrever nunca sobre comida. Que escrevessem sobre remédios,
farmácias, hospitais mas não sobre o que se deve fazer, e
principalmente sobre o que não se deve fazer, na hora de sentar à
mesa. Liebling, que passou seguidas temporadas em Paris entre os anos 20 e 50
do século XX, era capaz de bater refeições prodigiosas; numa
época em que comer ainda era uma atividade considerada inocente, e numa
cidade que oferecia os melhores restaurantes do mundo, ele raramente deixava de
tirar todo o proveito possível das três oportunidades que o dia lhe
dava para alimentar-se. Achava que só se poderia esperar o pior do interesse
que os médicos, então, começavam a manifestar pelo colesterol.
Exercício físico, em sua opinião, era um perigo para o peso;
só lhe dava mais vontade de comer, enquanto um belo almoço jamais
lhe deu vontade de fazer exercício algum. Descreveu um curto período
em que decidiu internar-se num spa como "um episódio de insanidade
temporária".
Sua filosofia de vida, provavelmente,
não deve servir de modelo para ninguém Liebling morreu com
59 anos de idade, em 1963, algo que, mesmo para a época, era uma partida
prematura deste mundo. Mas talvez não seja demais sugerir que se receba
com alguma simpatia, nos dias de hoje, a recomendação que ele fez
tanto tempo atrás. Num mundo onde cresce sem parar a compulsão para
obrigar as pessoas a levar uma vida "correta" no maior número
possível das atividades que formam o seu dia a dia, a mesa tornou-se uma
das áreas que mais atraem a atenção dos gendarmes empenhados
em arbitrar o que é realmente bom para você. É uma provação
permanente. Médicos, nutricionistas, personal trainers, editores
e editoras de revistas dedicadas à forma física, ambientalistas,
militantes da produção orgânica, burocratas, chefs de cozinha, críticos de restaurantes e mais uma multidão de diletantes
prontos a dar testemunho expedem decretos cada vez mais frequentes, e cada vez
mais severos, sobre os deveres do cidadão na hora de comer. Seria um alívio,
sem dúvida, se sobrasse mais espaço para quem não está
interessado, não o tempo todo, em receber lições sobre poli-insaturados,
nutrientes minerais ou aportes adequados de fibras ao organismo e gostaria,
apenas, de ler ou ouvir um pouco mais sobre comida gostosa.
O
fato é que toda essa gente, quase sempre com as melhores intenções,
acabou construindo um crescente sistema de ansiedade em torno do pão nosso
de cada dia e o resultado é que o prazer de comer bem vai sendo
substituído pela obrigação de comer certo. Para começar,
o apetite é denunciado, na linguagem hoje corrente, como uma doença;
não se trata mais de algo a ser satisfeito, e sim a ser combatido. "Como
eliminar seu apetite", recomendam os títulos de reportagens dedicadas
à causa da alimentação sadia. A linhaça, o sorgo e
outras coisas alarmantes são apresentados como indispensáveis para
uma vida melhor, junto com os iogurtes magros e os bolos secos isso quando
não se cobra a ingestão equilibrada de fitonutrientes, compostos
fenólicos ou lipídios não graxos. É preciso, também,
comer de forma a preservar a biodiversidade e a reduzir as emissões de
carbono; desaconselha-se severamente, por exemplo, o consumo de alimentos produzidos
a mais de 150 quilômetros de distância da sua cidade, por exigirem
transporte dispendioso em combustíveis e poluidores da atmosfera.
Não
se vê muita alegria em nada disso. Modelos, atrizes e outras pessoas que
precisam pesar pouco para fazer sucesso chegam aos 30 anos de idade, ou mais,
praticamente sem ter feito uma única refeição decente na
vida. Propõe-se, como virtude alimentar, um mundo sombrio de pastas, mingaus,
poções, soros de proteína e sabe-se lá o que ainda
vem pela frente. Nem na própria casa, com frequência, o indivíduo
pode comer em sossego arrisca-se aos olhares reprovadores dos familiares
e a custosas discussões sobre o que ele deve fazer "pelo seu próprio
bem". Não está claro o que se ganha em toda essa história.
A perspectiva de morrer, um dia, no peso ideal? Jamais foi provada até
hoje a existência de alguma relação entre peso baixo e felicidade;
é perfeitamente possível ser magro e infeliz ao mesmo tempo. É
algo a pensar.
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