Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Tales Alvarenga
Projeto de passado

"Nada existe de saudosismo na atitude
de sentir falta de um passado demolido.
Acontece que o futuro costuma nascer da
reelaboração do passado. Quando não se
tem passado, fica impossível reelaborar
as coisas que preencherão o futuro"

O Brasil não tem um projeto de futuro. Também não tem um projeto de passado. O passado brasileiro vem sendo desmontado por todos nós. No site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, há uma lista de 906 objetos que foram furtados, a maior parte de arte sacra. Nem todos os roubos de arte sacra são denunciados à polícia. Nem todas as denúncias à polícia acabam indo para o arquivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico. Logo, o número de 906 peças surrupiadas dá apenas uma pálida idéia da rapina real nos altares e sacristias. Essas peças saem das igrejas e vão enfeitar salas de empresas ou residências da plutocracia. Os novos donos dessas obras deveriam devolvê-las ao domínio público, em benefício do passado nacional e em benefício da própria biografia, já que é impossível uma peça de igreja viajar para algum outro lugar se não aparecer um larápio em algum elo da operação.

As metrópoles brasileiras também estão sendo surrupiadas há um século. São incessantemente reconstruídas sobre suas próprias demolições e expandem-se para os lados de modo selvagem. Hoje, as capitais brasileiras do passado estão irreconhecíveis. Salvo pequenas áreas apresentáveis, tudo é de uma feiúra descomunal. No caso das obras de arte sacra, é possível em tese recolhê-las de volta. As nossas cidades ninguém as devolverá.

Nada existe de saudosismo na atitude de sentir falta de um passado demolido. Acontece que o futuro costuma nascer da reelaboração do passado. Quando não se tem passado, fica impossível reelaborar as coisas que preencherão o futuro. O maior compositor brasileiro, Heitor Villa-Lobos, foi buscar na música folclórica os elementos que reelaboraria para fazer suas composições. O segundo maior compositor brasileiro, Tom Jobim, reelaborou Villa-Lobos. Mas que compositor jovem vai poder reelaborar o que estão produzindo hoje na área musical essas gralhas sertanejas, lacrimosas e estridentes? O Brasil se esqueceu de várias gerações de seus músicos, inclusive de muitos que estão por aí, vivos mas emudecidos pelo som dominante do sertão e do pagode.

Na área política, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, fez a reelaboração da política econômica do governo Fernando Henrique. Adicionou mais austeridade ao modelo. Não se passa semana, no entanto, sem que petistas de alto calibre tentem bombardear o modelo de Palocci, que é uma defesa contra a inflação. Alguns fazem propostas que parecem ecoar a despreocupação de Juscelino Kubitschek com o equilíbrio das contas públicas. Outros exigem maior intervenção do Estado na economia, um eco do presidente Getúlio Vargas. Além de ditador, Vargas foi um estatista.

Esses petistas heterodoxos que querem afrouxar a luta contra a inflação e aumentar as garras do Estado não usam o passado como inspiração. O que eles querem é voltar literalmente ao passado. Lula deveria calá-los. Getúlio e Juscelino foram homens com os defeitos do seu tempo. A grande qualidade que os distingue era a capacidade de liderar o país numa direção clara. Getúlio criou a Petrobras, a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, e a Companhia Vale do Rio Doce. JK atraiu multinacionais, cruzou o Brasil de alto a baixo com rodovias e iniciou o ciclo das mega-hidrelétricas. Eram ambos sonhadores práticos. Essa parte da herança que deixaram – a capacidade de imaginar o futuro e de impor um objetivo claro ao país, compatível com os instrumentos de que dispunham para alcançá-lo –, é isso que está faltando aos governantes de hoje.

 
 
 
 
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