|
|
Tales
Alvarenga
Projeto
de passado
"Nada
existe de saudosismo na atitude
de sentir falta de um passado demolido.
Acontece que o futuro costuma nascer da
reelaboração do passado. Quando não se
tem passado, fica impossível reelaborar
as coisas que preencherão o futuro"
O
Brasil não tem um projeto de futuro. Também não
tem um projeto de passado. O passado brasileiro vem sendo desmontado
por todos nós. No site do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, há uma lista de 906 objetos
que foram furtados, a maior parte de arte sacra. Nem todos os roubos
de arte sacra são denunciados à polícia. Nem
todas as denúncias à polícia acabam indo para
o arquivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico.
Logo, o número de 906 peças surrupiadas dá
apenas uma pálida idéia da rapina real nos altares
e sacristias. Essas peças saem das igrejas e vão enfeitar
salas de empresas ou residências da plutocracia. Os novos
donos dessas obras deveriam devolvê-las ao domínio
público, em benefício do passado nacional e em benefício
da própria biografia, já que é impossível
uma peça de igreja viajar para algum outro lugar se não
aparecer um larápio em algum elo da operação.
As
metrópoles brasileiras também estão sendo surrupiadas
há um século. São incessantemente reconstruídas
sobre suas próprias demolições e expandem-se
para os lados de modo selvagem. Hoje, as capitais brasileiras do
passado estão irreconhecíveis. Salvo pequenas áreas
apresentáveis, tudo é de uma feiúra descomunal.
No caso das obras de arte sacra, é possível em tese
recolhê-las de volta. As nossas cidades ninguém as
devolverá.
Nada
existe de saudosismo na atitude de sentir falta de um passado demolido.
Acontece que o futuro costuma nascer da reelaboração
do passado. Quando não se tem passado, fica impossível
reelaborar as coisas que preencherão o futuro. O maior compositor
brasileiro, Heitor Villa-Lobos, foi buscar na música folclórica
os elementos que reelaboraria para fazer suas composições.
O segundo maior compositor brasileiro, Tom Jobim, reelaborou Villa-Lobos.
Mas que compositor jovem vai poder reelaborar o que estão
produzindo hoje na área musical essas gralhas sertanejas,
lacrimosas e estridentes? O Brasil se esqueceu de várias
gerações de seus músicos, inclusive de muitos
que estão por aí, vivos mas emudecidos pelo som dominante
do sertão e do pagode.
Na
área política, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
fez a reelaboração da política econômica
do governo Fernando Henrique. Adicionou mais austeridade ao modelo.
Não se passa semana, no entanto, sem que petistas de alto
calibre tentem bombardear o modelo de Palocci, que é uma
defesa contra a inflação. Alguns fazem propostas que
parecem ecoar a despreocupação de Juscelino Kubitschek
com o equilíbrio das contas públicas. Outros exigem
maior intervenção do Estado na economia, um eco do
presidente Getúlio Vargas. Além de ditador, Vargas
foi um estatista.
Esses
petistas heterodoxos que querem afrouxar a luta contra a inflação
e aumentar as garras do Estado não usam o passado como inspiração.
O que eles querem é voltar literalmente ao passado. Lula
deveria calá-los. Getúlio e Juscelino foram homens
com os defeitos do seu tempo. A grande qualidade que os distingue
era a capacidade de liderar o país numa direção
clara. Getúlio criou a Petrobras, a Companhia Siderúrgica
Nacional, em Volta Redonda, e a Companhia Vale do Rio Doce. JK atraiu
multinacionais, cruzou o Brasil de alto a baixo com rodovias e iniciou
o ciclo das mega-hidrelétricas. Eram ambos sonhadores práticos.
Essa parte da herança que deixaram a capacidade de
imaginar o futuro e de impor um objetivo claro ao país, compatível
com os instrumentos de que dispunham para alcançá-lo
, é isso que está faltando aos governantes de
hoje.
|