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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
A
razão da estagnação
"Muita
gente leiga critica o elevado nível
dos juros oferecidos pelo Estado, quando
a verdade é outra, e vive afirmando que
estamos pagando 9% do PIB em juros,
quando o que se paga está mais próximo de 0%"
É
assustadora a confusão disseminada pelo jornalismo econômico
brasileiro. Quase todos os jornais estamparam como manchete de primeira
página a recente decisão do Comitê de Política
Monetária do Banco Central (Copom) de manter os juros devido
à "volatilidade externa".
A verdade
é que ninguém sabe se o Copom manteve os juros. Para
dar essa notícia teremos de esperar um ano inteiro e aí
verificar qual foi a inflação do período e
descontá-la da taxa do Copom. Só então saberemos
o nível dos juros deste país, para tomar, tardiamente,
as decisões financeiras apropriadas.
Aliás,
uma das razões dos juros altos é justamente esta:
ninguém sabe ao certo qual será o verdadeiro juro
que receberá dos títulos públicos nos próximos
doze meses, um absurdo monumental.
Desde
1994, o Brasil adotou o chamado nominalismo econômico, em
que os juros dependem da inflação futura, abandonando
o realismo econômico de até então, quando os
juros eram reais e não nominais.
Depois
de 1994, todo investidor é obrigado a chutar, prever, adivinhar
a inflação futura embutida na taxa do Copom. Ninguém
tem mais certeza da inflação, nem dos juros. Como
fruto dessa incerteza, os aplicadores acrescentam um prêmio
de risco elevadíssimo para se precaver.
Se
usarmos a inflação de maio como indicativo para o
ano, o IGP-10 apontava uma inflação anualizada de
15%. Comparado com os 16% da taxa do Copom e descontado também
o imposto de renda, o juro anual será menor do que zero,
um juro real negativo. Por isso, temos hoje fuga de capital e volatilidade
no câmbio. Ninguém quer perder dinheiro.
Como
nada disso é noticiado pela imprensa, muita gente leiga fica
criticando o elevado nível de juros oferecidos pelo Estado,
quando a verdade é outra, e vive afirmando que estamos pagando
9% do PIB em juros, quando atualmente o que se paga está
mais próximo de 0% do PIB, o extremo oposto.
Antes
de 1994, para quem não se esqueceu, os títulos da
dívida interna eram precificados por seus juros reais, e
não pelos nominais como agora. Infelizmente, o governo FHC,
não entendendo a essência do Plano Real, reimplantou
o nominalismo econômico, cuja primeira conseqüência
foi aumentar o risco e a incerteza quanto aos juros futuros. Na
era do realismo econômico, os juros eram menores, justamente
porque os juros reais eram transparentes e previamente conhecidos.
Quem
está criando essa volatilidade toda não são
os investidores estrangeiros, mas essa política econômica
nominalista, que permite que o juro real flutue mês a mês,
de forma imprevisível, numa volatilidade made in Brazil,
que aumenta nosso risco à toa.
Tenho
um título brasileiro de 1907 com juros de 4% ao ano, quando
o capital era escasso e o Brasil, um fim de mundo. Por que pagamos
mais do que o dobro hoje, num mundo com capital abundante?
Os
4% de 1907 eram reais e não nominais, eram denominados em
barras de ouro, na época a melhor garantia contra a inflação,
e rendiam 4% de juros transparentes e sem incertezas. Foi a eliminação
do padrão ouro que introduziu o nominalismo econômico
e resultou na recessão de 1929.
Para
piorar essa situação, o governo FHC introduziu o nominalismo
econômico também na taxação dos juros.
Hoje, ninguém sabe ao certo como os juros serão taxados
no final da aplicação, depende da inflação
futura. O imposto se tornou volátil, pode ser 20% do rendimento
dos juros, se não houver inflação, pode ser
50%, 60% e até 80%, se a inflação for elevada.
Mais um risco que o investidor acrescenta aos juros.
O
nominalismo econômico foi responsável pela crise da
dívida externa mundial de 1983, pelo enfraquecimento do sistema
bancário internacional, pelos equivocados Acordos da Basiléia,
pelo surgimento dos fundos especulativos, pela volatilidade do nosso
Bônus 40, pela aceleração da inflação,
enfim, pela maioria de nossos problemas.
O
abandono dessa escola nominalista reduziria de imediato nosso juro,
traria títulos com juros precificados, como todos os demais
produtos deste país, com uma taxação clara
e conhecida. Temos muitos economistas competentes da escola realista,
e eles são muito facilmente identificáveis. Basta
perguntar qual o juro determinado pelo Copom que eles respondem:
"Honestamente, não sei".
Daqui a um mês, quando noticiarem que o Copom "baixou" o juro,
lembrem-se deste artigo. Vocês só saberão a
verdade no ano que vem.
Stephen
Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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