Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Em Canudos como
em Benfica

Coincidências entre os dois episódios apontam
para constantes perturbadoras na história do Brasil

Mais de 100 anos separam a Guerra de Canudos, travada no interior da Bahia, entre 1896 e 1897, e a rebelião dos presos de Benfica, no Rio de Janeiro, na semana passada. Mas certas cenas e certos rituais de um e outro episódio se parecem. Uma das muitas cenas impressionantes de Canudos, tal qual relatada em Os Sertões, de Euclides da Cunha, é a que ocorria nos fins de tarde, quando os tiroteios cessavam e os inimigos se quedavam cada um em seu canto, Antônio Conselheiro e seus seguidores no arraial que habitavam no fundo do vale e os soldados do Exército nas trincheiras sobre os morros. De repente, descreve Euclides, "um rumor indefinido" quebrava o silêncio. Que era aquele rumor que subia as encostas e chegava aos soldados? Não era "um surdo tropear de assalto", explica Euclides, "era pior": "O inimigo, embaixo, no arraial invisível, rezava".

Durante os longos plantões à porta do presídio, na semana passada, no Rio, os parentes dos presos – ou melhor, as parentes, porque são sempre as mulheres que acorrem nessas horas – faziam o quê? Entoavam hinos evangélicos. Nas rezas em Canudos as vozes femininas também sobressaíam: eram "ladainhas tristes, em que predominavam, ao invés de brados varonis, vozes de mulheres, surgindo da ruinaria de um campo de combate". Em Benfica, as vozes que se elevavam ao céu também surgiam "da ruinaria de um campo de combate". E houve mais religião, nos acontecimentos do Rio, quando um pastor evangélico desceu de helicóptero e foi pregar aos presos. "Fiz uma oração e muitos caíram possessos do demônio", disse o pastor, Marcos Pereira da Silva. "Depois consegui convencê-los a terminar a rebelião." Em Canudos, entre os jagunços devotados ao Conselheiro, havia não poucos assassinos – assassinos mas tomados de fervor religioso.

Os presos que mataram outros presos, em Benfica, arrancavam braços, pernas e cabeça das vítimas. Juntar os vários pedaços virou um desafio para os legistas. Em Canudos, segundo o relato de Alvim Martins Horcades, um estudante de medicina convocado para atender as vítimas, "foram degolados quase todos os prisioneiros". "Acontecia certas ocasiões estarem muitos daqueles miseráveis dormindo e serem acordados para se lhes dar a morte", escreve Horcades. Eles eram forçados a caminhar até a presença de soldados que, "peritos na arte", avançavam com os sabres nas carótidas. Mais tarde, corpos e cabeças eram empilhados e queimados, "e então terrível fumaceira espalhava-se por todo o acampamento". O ato de mutilar os corpos equivale a matar mais de uma vez. Em Benfica como em Canudos, uma vez só era pouco.

Canudos e Benfica são eventos muito diferentes. Mas certos padrões comuns sugerem constantes perturbadoras a assombrar a história do Brasil. Lembre-se, como curiosidade adicional, que "favela" é uma palavra transplantada de Canudos para o Rio de Janeiro. "Favela" era o nome de um morro nas cercanias do arraial do Conselheiro. Tornado célebre durante a guerra, acabou por batizar o primeiro morro do Rio onde se ergueram barracos para servir de moradas – segundo alguns porque ali se alojaram soldados vindos do front, segundo outros porque o caos urbanístico lembrava o improvisado povoado baiano. Canudos e Benfica juntam-se também no fanatismo que as anima. Mas separam-se, e esse é um ponto intrigante, na natureza desse fanatismo.

Euclides trata de "fanáticos" os seguidores do Conselheiro. Talvez não fossem mais fanáticos do que os inimigos, que viam neles uma ameaça ao nascente regime republicano, à paz social e aos bons costumes. De toda forma, em matéria de fanatismo, é mais fácil entender Canudos. De um lado, ali, havia os fanáticos da fé e, de outro, os fanáticos da ordem, ou da suposta ordem – dois grupos arquiconhecidos na história dos povos. Já em Benfica a luta envolveu duas facções criminosas, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. Os homens do Comando Vermelho, em maioria de quatro para um no presídio, invadiram o andar onde estavam os presos do Terceiro Comando. Foi então que se deu a carnificina, o Comando Vermelho investindo com fúria contra o inimigo. Por que a fúria? Se ela fosse dirigida contra a polícia seria mais aceitável. A polícia, afinal, em princípio (e sublinhe-se o "em princípio") é o maior inimigo dos bandidos. Por que toda uma fúria fanática, capaz de matar e mutilar, contra outra facção bandida?

Claro, sempre se soube de lutas de facções na Máfia e grupos similares. Mas são lutas movidas por interesses precisos, e por isso os assassinatos obedecem a motivos objetivos. Já o combate de Benfica foi uma explosão de ódio irracional e incontrolável, como os das torcidas organizadas do futebol, só que pior, tragicamente pior. Está para ser desvendado o mistério da devoção apaixonada de uma pessoa ao Comando Vermelho, Terceiro Comando ou que nome tenham. Não pode ser só para conseguir um emprego no tráfico. Há nela muito mais que isso – uma entrega total e incondicional. As paixões presentes em Canudos são muito mais compreensíveis.

 
 
 
 
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