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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Em
Canudos como
em Benfica
Coincidências
entre os dois
episódios apontam
para constantes perturbadoras na história
do Brasil
Mais
de 100 anos separam a Guerra de Canudos, travada no interior da
Bahia, entre 1896 e 1897, e a rebelião dos presos de Benfica,
no Rio de Janeiro, na semana passada. Mas certas cenas e certos
rituais de um e outro episódio se parecem. Uma das muitas
cenas impressionantes de Canudos, tal qual relatada em Os Sertões,
de Euclides da Cunha, é a que ocorria nos fins de tarde,
quando os tiroteios cessavam e os inimigos se quedavam cada um em
seu canto, Antônio Conselheiro e seus seguidores no arraial
que habitavam no fundo do vale e os soldados do Exército
nas trincheiras sobre os morros. De repente, descreve Euclides,
"um rumor indefinido" quebrava o silêncio. Que era aquele
rumor que subia as encostas e chegava aos soldados? Não era
"um surdo tropear de assalto", explica Euclides, "era pior": "O
inimigo, embaixo, no arraial invisível, rezava".
Durante
os longos plantões à porta do presídio, na
semana passada, no Rio, os parentes dos presos ou melhor,
as parentes, porque são sempre as mulheres que acorrem nessas
horas faziam o quê? Entoavam hinos evangélicos.
Nas rezas em Canudos as vozes femininas também sobressaíam:
eram "ladainhas tristes, em que predominavam, ao invés de
brados varonis, vozes de mulheres, surgindo da ruinaria de um campo
de combate". Em Benfica, as vozes que se elevavam ao céu
também surgiam "da ruinaria de um campo de combate". E houve
mais religião, nos acontecimentos do Rio, quando um pastor
evangélico desceu de helicóptero e foi pregar aos
presos. "Fiz uma oração e muitos caíram possessos
do demônio", disse o pastor, Marcos Pereira da Silva. "Depois
consegui convencê-los a terminar a rebelião." Em Canudos,
entre os jagunços devotados ao Conselheiro, havia não
poucos assassinos assassinos mas tomados de fervor religioso.
Os
presos que mataram outros presos, em Benfica, arrancavam braços,
pernas e cabeça das vítimas. Juntar os vários
pedaços virou um desafio para os legistas. Em Canudos, segundo
o relato de Alvim Martins Horcades, um estudante de medicina convocado
para atender as vítimas, "foram degolados quase todos os
prisioneiros". "Acontecia certas ocasiões estarem muitos
daqueles miseráveis dormindo e serem acordados para se lhes
dar a morte", escreve Horcades. Eles eram forçados a caminhar
até a presença de soldados que, "peritos na arte",
avançavam com os sabres nas carótidas. Mais tarde,
corpos e cabeças eram empilhados e queimados, "e então
terrível fumaceira espalhava-se por todo o acampamento".
O ato de mutilar os corpos equivale a matar mais de uma vez. Em
Benfica como em Canudos, uma vez só era pouco.
Canudos
e Benfica são eventos muito diferentes. Mas certos padrões
comuns sugerem constantes perturbadoras a assombrar a história
do Brasil. Lembre-se, como curiosidade adicional, que "favela" é
uma palavra transplantada de Canudos para o Rio de Janeiro. "Favela"
era o nome de um morro nas cercanias do arraial do Conselheiro.
Tornado célebre durante a guerra, acabou por batizar o primeiro
morro do Rio onde se ergueram barracos para servir de moradas
segundo alguns porque ali se alojaram soldados vindos do front,
segundo outros porque o caos urbanístico lembrava o improvisado
povoado baiano. Canudos e Benfica juntam-se também no fanatismo
que as anima. Mas separam-se, e esse é um ponto intrigante,
na natureza desse fanatismo.
Euclides
trata de "fanáticos" os seguidores do Conselheiro. Talvez
não fossem mais fanáticos do que os inimigos, que
viam neles uma ameaça ao nascente regime republicano, à
paz social e aos bons costumes. De toda forma, em matéria
de fanatismo, é mais fácil entender Canudos. De um
lado, ali, havia os fanáticos da fé e, de outro, os
fanáticos da ordem, ou da suposta ordem dois grupos
arquiconhecidos na história dos povos. Já em Benfica
a luta envolveu duas facções criminosas, o Comando
Vermelho e o Terceiro Comando. Os homens do Comando Vermelho, em
maioria de quatro para um no presídio, invadiram o andar
onde estavam os presos do Terceiro Comando. Foi então que
se deu a carnificina, o Comando Vermelho investindo com fúria
contra o inimigo. Por que a fúria? Se ela fosse dirigida
contra a polícia seria mais aceitável. A polícia,
afinal, em princípio (e sublinhe-se o "em princípio")
é o maior inimigo dos bandidos. Por que toda uma fúria
fanática, capaz de matar e mutilar, contra outra facção
bandida?
Claro,
sempre se soube de lutas de facções na Máfia
e grupos similares. Mas são lutas movidas por interesses
precisos, e por isso os assassinatos obedecem a motivos objetivos.
Já o combate de Benfica foi uma explosão de ódio
irracional e incontrolável, como os das torcidas organizadas
do futebol, só que pior, tragicamente pior. Está para
ser desvendado o mistério da devoção apaixonada
de uma pessoa ao Comando Vermelho, Terceiro Comando ou que nome
tenham. Não pode ser só para conseguir um emprego
no tráfico. Há nela muito mais que isso uma
entrega total e incondicional. As paixões presentes em Canudos
são muito mais compreensíveis.
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