Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Sem compromisso

Celebridade vai ficar na memória como
um folhetim em que só se faz sexo casual


Marcelo Carneiro


Fotos divulgação

Os vilões Laura e Marcos (à esq.), e Inácio e Darlene: tirando o atraso

Na novela Celebridade, amor e sexo não combinam. A menos de um mês de seu término, o folhetim da Rede Globo registra um altíssimo nível de cenas entre os lençóis, mas poucas delas são fruto de romances tradicionais. Para os personagens do autor Gilberto Braga, o sexo é uma necessidade, uma diversão ou até uma ferramenta para manipular os outros – tudo menos uma conseqüência daquele amor infinito que costumava alimentar heróis e heroínas de novela. Os mais libertinos são os vilões Laura (Cláudia Abreu) e Marcos (Márcio Garcia). Além de se divertirem entre eles, os dois pulam de cama em cama sempre que podem tirar vantagem disso. Laura – que não por acaso tem o apelido de "Cachorra" – já experimentou do lesbianismo ao sadomasoquismo. Menos calculistas, mas também adeptos do sexo sem compromisso, são os personagens Inácio (Bruno Gagliasso), Darlene (Deborah Secco), Vladimir (Marcelo Faria) e Jaqueline (Juliana Paes). Os três últimos mantêm, desde o começo da história, um triângulo amoroso. No momento, Vladimir e Jaqueline estão libidinosamente unidos. Eis um diálogo típico entre os dois: "Ai, bombeirão, nosso caso podia virar uma coisa séria de verdade", diz ela. E ele responde: "Mas por que complicar? Isso já está seriíssimo". Darlene e Inácio têm protagonizado seqüências ousadas. Ela não tem certeza se já esqueceu Vladimir, e ele é um adolescente problemático. Ainda assim, os dois vão tirando o atraso na cama – enquanto decidem o que querem da vida. O curioso é que, sim, há casais apaixonados, como Fernando (Marcos Palmeira) e Maria Clara (Malu Mader), Nelito (Taumaturgo Ferreira) e Eliete (Isabela Garcia). Mas esses fazem pouco – ou nenhum – sexo.

O tratamento do sexo passou por várias fases na teledramaturgia do horário nobre. Em 1977, a Globo suspendeu Despedida de Casado, de Walter George Durst, quando as chamadas para a novela já estavam no ar. Tudo porque a sinopse mostrava uma heroína (Regina Duarte) que, ao se separar, buscava os prazeres da vida de solteira. "Por muito tempo, a mulher que fazia sexo era a prostituta ou a mocinha que era seduzida, ficava grávida e depois abandonada como punição", diz o especialista em novelas Mauro Alencar. Com o tempo, o sexo foi ganhando espaço, mas ainda se mantinha dentro de um contexto clássico, em que herói e mocinha trocavam carinhos durante dezenas de capítulos e só então iam para a cama. O sexo sem compromisso ficava restrito a um ou outro personagem, normalmente cômico. Gilberto Braga inverteu a equação. Pode até ser que o autor se mostre um romântico de última hora e inunde o final da novela com casais fogosos e comprometidos. Mas Celebridade vai ficar na memória por sua visão desapaixonada – e até cínica – da vida de alcova de seus personagens.

 
 
 
 
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