Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Especial

Os que colaboraram...

O secretário executivo da Fazenda, Bernard Appy, o de Política Econômica, Marcos Lisboa, e o deputado federal Paulo Bernardo (PT-PR) estão entre os mais fiéis escudeiros de Antonio Palocci. Os dois primeiros trabalham a seu lado. O último é a voz do ministro no Congresso

 
Roberto Stuckert/Ag. O Globo
Rafael Neddermeyer/AE
Ana Araújo
BERNARD APPY
O braço armado
PAULO BERNARDO
O homem na Câmara
MARCOS LISBOA
O formulador

 

...e os que nem sempre ajudam

Em público, eles fazem juras de amor ao ministro preferido de Lula. Nos bastidores, muitas vezes disparam flechas envenenadas. Em palcos diferentes, o ministro José Dirceu, o senador Aloizio Mercadante e o ministro Jaques Wagner criticaram Palocci por diversos motivos

 
Sérgio Dutti/AE
Sebastião Moreira/AE
Joedson Alves/AE
DIRCEU SOBRE PALOCCI
"É conservador dentro
do conservadorismo"
MERCADANTE
O senador queria a subida do dólar
JAQUES WAGNER
Alfinetadas no
Conselhão

 

 
As batalhas de Palocci

Palocci ganhou as disputas mais vitais no núcleo do governo e perdeu algumas escaramuças secundárias

Vitórias

REAJUSTE DO MÍNIMO
Convenceu Lula de que não havia como aumentar o salário além dos 260 reais e ainda ajudou a aprovar o novo valor na Câmara dos Deputados

META DE INFLAÇÃO
Em 2003, Palocci conseguiu evitar uma explosão na inflação e neste ano está novamente tendo sucesso. A taxa projetada é de 6,3% anuais, abaixo da meta de 7,5%

VARIG E TAM
Contrário à operação conjunta das duas empresas, Palocci festejou a recomendação da área técnica do Ministério da Fazenda de colocar fim ao acordo

AGÊNCIAS REGULADORAS
O ministro José Dirceu queria acabar com a independência das agências reguladoras. Palocci, que queria mantê-las independentes, acabou prevalecendo  

AUMENTO DO SUPERÁVIT
O ministro Palocci patrocinou o aumento do superávit de 3,75% para 4,25% do PIB. Conseguiu cumprir a meta e fez do superávit o pilar da política de redução da dívida  

CRESCIMENTO ECONÔMICO
O desempenho da economia no primeiro trimestre deste ano, que cresceu 2,7%, surpreendeu os analistas e ajudou a conter as críticas petistas à política econômica

 

Derrotas 

IMPOSTO DE RENDA
Na semana passada, o ministro foi obrigado a aumentar o limite de isenção do imposto de renda. Palocci teve de ceder por ordem do presidente Lula

INDEPENDÊNCIA DO BC
Defensor de mandatos para os diretores do Banco Central, Palocci teve de arquivar a idéia depois que Lula a classificou de "inquietação de tese acadêmica"

DEMISSÃO DO PRESIDENTE DA ANATEL
Palocci empenhou-se em manter no cargo o ex-presidente da Anatel Luiz Guilherme Schymura, para evitar ruídos no mercado. Não conseguiu  

ALCA
O Ministério da Fazenda sempre defendeu que o Brasil evitasse qualquer política de confronto com os EUA. Sua insistência até agora foi em vão

 

Gráficos e paciência para convencer Lula

Antonio Palocci é hoje – nos campos pessoal e profissional – o ministro preferido de Lula. É com ele que o presidente caminha pelos jardins do Alvorada quando está em Brasília e é com ele que, nessas ocasiões, toma café-da-manhã, enquanto passa manteiga em pedaços de pão que dá à cadela "Michele". Profissionalmente, amigos vêem na origem do prestígio de Palocci um comportamento que teria na postura do cada vez mais desgastado ministro Olívio Dutra a sua antítese. No mês passado, o presidente chamou o titular de Cidades para anunciar a liberação de 1,3 bilhão de reais para programas de habitação relacionados a sua pasta. Ouviu dele tantas reclamações e objeções que explodiu: "Se não quer o dinheiro, me dá de volta". Ao contrário de Dutra, Palocci evita despejar na mesa do chefe problemas sem solução e surpresas desagradáveis. Para comunicar-lhe há três meses uma das notícias de pior impacto econômico – o anúncio do PIB negativo do ano passado –, por exemplo, preparou-se com antecedência. Ainda em outubro, muniu-se de gráficos e estudos indicando que países que fazem ajustes tendem a, num primeiro momento, perder PIB. A cada oportunidade, lembrava ao presidente os exemplos de Coréia do Sul, Malásia e México, que, no processo de ajuste interno, tiveram quedas de mais de 5% no índice. Em fevereiro, quando ficou claro que a taxa brasileira não passaria de 0,2% negativos, a notícia desagradou ao presidente, mas não foi uma surpresa. Quando precisa convencer o presidente de alguma coisa, Palocci o faz aos poucos – pacientemente e em doses homeopáticas. "Ele sabe que Lula não gosta de tomar decisões apressadas. Pressioná-lo para resolver um assunto é desgaste certo", diz um assessor presidencial. Recorre à mesma tática quando tem de persuadi-lo da necessidade de manter uma diretriz. Sua vitória mais árdua nesse sentido, relatam amigos, deu-se no ano passado, quando conseguiu fazer com que o governo resistisse à pressão de exportadores – e do senador Aloizio Mercadante – para elevar o dólar.

Palocci tem habilidade natural para contornar situações delicadas, algumas vezes provocadas pelo próprio presidente. Um episódio ocorrido no mês passado pode ilustrar essa característica. Pouco antes de embarcar para a China, Lula concedeu uma entrevista em que dizia estudar a hipótese de criar metas de crescimento. Ao ler a declaração, o ministro arrepiou-se: às vésperas da mais importante viagem internacional do presidente, ela poderia soar, aos ouvidos dos investidores, como um sinal de que o governo estaria disposto a "afrouxar" a meta de inflação com o objetivo de acelerar o crescimento. Matreiramente, Palocci arrumou um jeito de, em pleno domingo, "dar uma passada" no ministério, onde "casualmente" conversou com jornalistas sobre o tema. O governo pensava, sim, em criar uma "agenda de crescimento", mas, obviamente, para caminhar "junto" da meta de inflação e não em oposição a ela. Não contradisse frontalmente o chefe e conseguiu fazer com que o assunto voltasse aos jornais no dia seguinte – devidamente "corrigido".

Thaís Oyama

 

O novo aliado

Dida Sampaio/AE
PASSANDO NO TESTE
O ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo: salvo por Palocci e pelo salário mínimo


Enfraquecido por derrotas recentes do governo no Congresso, o ministro Aldo Rebelo sobreviveu a uma batalha de vida ou morte na semana passada. Dois fatores foram fundamentais para esse desfecho: a aprovação do salário mínimo de 260 reais na Câmara e o apoio do ministro Palocci, seu mais novo aliado nas disputas internas do governo – nas quais Aldo mergulhou desde que foi alçado ao Ministério da Coordenação Política. Deputado em quarto mandato pelo PC do B, ele era líder do governo na Câmara até janeiro. Ao assumir o novo cargo, herdou a função que era de José Dirceu. Descontente com a perda de poder, o chefe da Casa Civil passou a bombardeá-lo.

A relação azedou ainda mais a partir do momento em que Aldo começou a comandar a liberação de emendas e chegou a um ponto perto do insuportável quando Lula repassou a ele a responsabilidade pela nomeação de cargos, também antes sob controle da Casa Civil. Duas semanas após a decisão, Dirceu ainda não entregou a seu sucessor a "caixa-preta" dos cargos. Revelou apenas o nome dos titulares, sem identificar seus padrinhos. Aldo é cobrado por aliados pela demora no preenchimento de cargos. Por enquanto, não tem como responder nem como atender às demandas.

Não bastasse a refrega com Dirceu, Aldo comprou a inimizade de João Paulo Cunha, presidente da Câmara, ao trabalhar contra a emenda que permitia sua reeleição. Ele preferiu aliar-se a Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado, seu conterrâneo de Alagoas, que pleiteia suceder a José Sarney na presidência do Senado. Para manter-se em pé, escorou-se no PMDB de Renan e em Palocci. Aldo foi um dos primeiros defensores do ministro da Fazenda no Congresso. Em março do ano passado, discursou a favor de Palocci, que era criticado pelo aumento dos juros. A iniciativa desagradou a seu partido: com dois ministérios e nove deputados, o PC do B se caracteriza por usufruir as benesses do governo, ao mesmo tempo que vota contra tudo o que vem do Planalto. No embate do mínimo, por exemplo, o partido ameaçava votar com o PFL por um valor de 275 reais. Posicionou-se contrariamente ao relatório pefelista atendendo a apelos de Aldo. Dias antes, o partido já havia utilizado seu programa de TV para pedir mudanças na condução da economia.

O comportamento de Aldo rendeu-lhe pontos com o ministro da Fazenda, que o tem ajudado na aprovação de projetos espinhosos, como o do salário mínimo, e o tem defendido internamente, em conversas com Lula. Com aliados como os comunistas e inimigos como José Dirceu e a cúpula do PT, Aldo precisa matar um leão por dia para sobreviver. Agora, Palocci pode dar uma forcinha.

 

 
 
 
 
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