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Especial
Ele
venceu
O
ministro da Fazenda
sempre foi
o mais
popular
e agora é
também o mais poderoso
do governo.
O que suas
vitórias internas
e externas
significam
para Lula,
para a
economia
e para o
combate ao desemprego

Otávio
Cabral e Leandra Peres
Germano Luders
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Ele
queria mesmo era viajar pelos sete mares vestindo um uniforme branco
da Marinha. Desistiu do projeto, por causa da miopia que já
tinha na adolescência, e virou médico sanitarista.
Mas nunca abandonou sua paixão pelas águas. Adora
aquários. Já visitou vários espetaculares,
nos Estados Unidos, na Suécia, na Alemanha. Seu sonho, agora,
é conhecer o aquário de Okinawa, no Japão,
um dos maiores do mundo, em cujas águas nadam até
tubarões-baleia. Mas, enquanto não pode viajar mundo
afora atrás de aquários, Antonio Palocci Filho, 43
anos, começa a viver como peixe na água no governo
de Luiz Inácio Lula da Silva. Entrando no 18º mês
como ministro da Fazenda, Antonio Palocci nunca esteve tão
bem, dentro e fora do governo. No lado de fora, depois de manter
a taxa de inflação sob controle e produzir o maior
superávit primário da história brasileira,
Palocci acaba de entregar ao país a terceira jóia
da tríplice coroa um crescimento de 2,7% do PIB no
primeiro trimestre do ano. Essa taxa surpreendeu os mais otimistas.
É óbvio que ainda há problemas, e problemas
graves, mas o desempenho de Palocci até aqui tem sido estrondoso.
Na
prática, o ministro da Fazenda está conseguindo chegar
perto da meta de qualquer governo: conjugar crescimento econômico
com inflação baixa. A política econômica,
apesar da queda de renda dos trabalhadores, apesar dos sucessivos
recordes nas taxas de desemprego, desfruta alta popularidade. Não
deixa de ser curioso que o grande público costume ver por
ângulos generosos os ferozes guardiães da moeda como
o americano Alan Greenspan e os condutores de políticas econômicas
austeras como Palocci. Eles são tidos pelo público
como os fiadores da prosperidade, os generais vitoriosos de batalhas
contra as incertezas da economia. Palocci tem essa imagem para um
grande número de brasileiros. Recentemente, o publicitário
Duda Mendonça encomendou uma pesquisa ao Ibope, logo depois
que o PT exibiu seu programa partidário no horário
eleitoral. A pesquisa, que ficou mantida em segredo até agora,
mostrou que 63% dos entrevistados acham que a política econômica
está no caminho certo, e apenas 21% disseram o contrário.
Por incrível que possa parecer, os números fazem de
Palocci o ministro mais popular do governo Lula. Há outro
dado nesse sentido, extraído do programa do PT, no qual apareceram
apenas dois ministros Palocci e seu colega da Casa Civil,
José Dirceu. Aos que assistiram ao programa do PT, o Ibope
perguntou quais foram as melhores passagens. As respostas associadas
a Palocci chegaram a 47%. E só 12% associaram os bons momentos
ao ministro José Dirceu.
No
lado de dentro do governo, o ministro da Fazenda também vive
seu melhor momento. "Quando a economia ainda não dava resultados,
Palocci já era forte", define o deputado Walter Pinheiro,
do PT baiano. "Agora que os resultados começam a aparecer,
Lula e Palocci são quase como uma pessoa só", completa
ele, ao ressaltar a simbiose de visões e conceitos entre
o ministro e o presidente. Embora não pertença ao
núcleo histórico dos petistas mais próximos
de Lula, Palocci alçou-se rapidamente à condição
de principal auxiliar do presidente no campo pessoal e profissional.
Hoje, priva da intimidade de Lula. As mulheres de ambos se tornaram
amigas, os casais costumam jantar juntos no Palácio da Alvorada,
e Lula e Palocci fazem caminhadas matinais durante as quais é
proibido falar de trabalho. Com esse convívio, produziu-se
uma promissora química entre os dois, e Palocci, observador
arguto do temperamento de Lula, descobriu as maneiras mais eficientes
de convencer o presidente de um ponto de vista ou até mesmo
de prepará-lo para receber uma má notícia.
Ricardo Stuckert/PR
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ÁLBUM
Palocci com a enteada, a filha e a mulher, Margareth:
nas horas vagas, um ministro que gosta de literatura e sabe
tudo de Machado de Assis |
Em
que pesem seus próprios méritos, a ascensão
de Palocci é, em certa medida, um subproduto do crescente
desgaste do ministro José Dirceu, atropelado pelo escândalo
Waldomiro Diniz e, também, pela desinibida voracidade com
que disputa cada naco de poder. Na semana passada, pela primeira
vez, Palocci arregaçou as mangas para comandar uma negociação
política no Congresso, terreno em que, até pouco tempo
atrás, Dirceu atuava como bispo plenipotenciário.
Em conjunto com o coordenador político do governo, o ministro
Aldo Rebelo, do PC do B, Palocci conseguiu fazer com que a Câmara
dos Deputados, por 266 a 167 votos, aprovasse os 260 reais como
o novo valor do salário mínimo uma vitória
na qual, aliás, Dirceu não moveu uma palha para ajudar
o governo. O ministro da Fazenda conseguiu dobrar as resistências
dentro da própria bancada do PT. No dia em que se reuniu
com os petistas para convencê-los a aprovar os 260 reais,
21 tinham acabado de divulgar um manifesto prometendo votar contra
a proposta do governo. Na hora H, no entanto, só cinco votaram
contra. Dezesseis recuaram depois de ouvir os argumentos de Palocci.
Examinado
apenas por seu currículo, Palocci não parece ter perfil
para comandar o Ministério da Fazenda. Nunca morou no exterior,
seu inglês deixa muito a desejar, jamais trabalhou na área
econômica, nunca teve amigos no círculo dos economistas
estrelados nem trânsito nos grandes centros acadêmicos
mundiais requisitos, aliás, que seu antecessor no
cargo, Pedro Malan, preenchia todos. Além disso, Palocci
não tem o ímpeto criador do ex-ministro Octavio Gouvêa
de Bulhões, que criou o Banco Central, a correção
monetária e o atual sistema tributário. Não
detém o desmesurado poder do ex-ministro Delfim Netto, que
foi o czar da economia num bom pedaço do regime militar,
nem a genialidade acadêmica do ex-ministro Mário Henrique
Simonsen, talvez a cabeça mais privilegiada que o país
já produziu no ramo. E, ainda assim, analisando-se o saldo
de sua gestão até agora, Palocci tem lugar na galeria
dos melhores e mais poderosos ministros da Fazenda da história
recente do país. No governo anterior, Malan dispunha de um
poder enorme e venceu todas as batalhas internas relevantes. Mas
Palocci, na administração petista, tem ainda mais
poder que Malan.
No
governo tucano, o fiador da política econômica era
o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, embora Malan
também cumprisse esse papel. Na administração
petista, ainda que o presidente Lula tenha bancado até aqui
todas as decisões da equipe econômica, o grande fiador
da estabilidade, do superávit, do equilíbrio fiscal
é Antonio Palocci. Além disso, Palocci, ao contrário
de Malan, tem um lado político desenvolvido. Ele foi prefeito
de Ribeirão Preto duas vezes, deputado estadual e deputado
federal, gosta de fazer política, de disputar eleição,
de conversar com parlamentares. Agora, nesta nova fase em que pretende
participar mais ativamente da articulação política
do governo no Congresso, pelo menos atuando em favor das matérias
que dizem respeito à política econômica, Palocci
já começou a abrir as portas de seu gabinete a políticos.
Antes de viajar à China, recebeu em almoço dez deputados
do PT. Aproximou-se da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy,
com quem fala duas vezes por semana. É próximo também
do prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.
Com
seu pendor para a política, Palocci tem relações
suprapartidárias com os governadores. É um interlocutor
freqüente do governador tucano de Minas Gerais, Aécio
Neves, e tem boas relações com o tucano de São
Paulo, Geraldo Alckmin. Entre os governadores com os quais mais
conversa, incluem-se ainda o peemedebista Germano Rigotto, do Rio
Grande do Sul, e Paulo Hartung, do PSB do Espírito Santo.
Ao contrário de José Dirceu, que faz política
como se fosse um rolo compressor, Palocci atua de forma discreta,
suave e amigável. Evita, a todo custo, criar qualquer tipo
de aresta. Seu jeito discreto tem conquistado admiradores na burocracia
do PT e entre os parlamentares do partido, searas em que começam
a se ouvir freqüentes elogios ao ministro da Fazenda, embora,
nesse campo, José Dirceu siga sendo uma referência
incontrastável. Na sua rotina, Palocci atende ministros,
parlamentares e empresários com disposição
e bom humor. "Palocci é especialista em negar tudo com um
sorriso no rosto, o que nos desencoraja de insistir no pedido",
diz um colega de ministério.
Com
estilo bonachão e fala mansa, Palocci sempre dá a
impressão de que está abordando assuntos corriqueiros,
ainda que sejam extremamente graves. Talvez por isso ele tenha conseguido
aprimorar um feito de Malan o de manter uma equipe econômica
capaz de neutralizar suas divergências internas. Malan foi
o primeiro ministro da Fazenda na história recente a conseguir
isso. Na equipe de Palocci, não se percebe nem mesmo aquela
tensão que chegava a vazar nos tempos de Malan. Com Palocci,
parece que todos os seus auxiliares trabalham em harmonia perfeita,
mesmo quando o Banco Central manda sinais concretos de que é
conservador demais na administração da taxa de juros.
Seu exército de homens de confiança divide-se em duas
brigadas. A retaguarda econômica é comandada por Marcos
Lisboa, seu pensador, Joaquim Levy, seu saco de maldades, e Bernard
Appy, seu braço armado. Os amigos e assessores que vieram
com o ministro de Ribeirão Preto integram a brigada da ação
política e da defesa pessoal do ministro. Nesse grupo, destacam-se
o deputado Paulo Bernardo, do PT do Paraná, o vereador Donizete
Rosa, seu chefe de gabinete, Juscelino Dourado, seu secretário
pessoal, Ademirson da Silva, e seu assessor parlamentar, José
Ivo Vannuchi.
Aos
poucos, com discrição, o ministro tornou-se a figura
mais influente dentro do gabinete presidencial. Ele tem aconselhado
o presidente em vários assuntos, e não apenas nos
temas de economia. Há poucos dias, por exemplo, fez críticas
à política de comunicação do governo,
reclamando que as realizações não chegam às
bases eleitorais. Lula ouviu atentamente e, encerrada a conversa,
chamou Luiz Gushiken, responsável pela comunicação,
para discutir o assunto. Na semana passada, Palocci demonstrou ao
presidente receio de que seu colega da Saúde, Humberto Costa,
acabe se afogando no mar de sangue produzido pelo escândalo
dos vampiros. Sugeriu que Lula desse demonstração
pública de apreço ao ministro. Lula concordou e, na
quarta-feira, chamou Humberto Costa para uma cerimônia no
Palácio do Planalto. Nas conversas com o presidente, Palocci
fala dos ministros que, a seu ver, não vão bem. Nessa
lista, são presenças constantes os ministros Olívio
Dutra (Cidades), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário),
Ciro Gomes (Integração Nacional) e Marina Silva (Meio
Ambiente).
Ed Ferreira/AE
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VITÓRIA
O plenário da Câmara, onde foi aprovado o valor do novo salário
mínimo: pela primeira vez, Palocci pediu votos |
O ministro da Fazenda está vivendo seu melhor momento em
virtude de um evento raro na Presidência de Lula, a produção
de resultados positivos ao mesmo tempo para o governo e para o país.
Esse efeito mesmerizador que Antonio Palocci exerce agora sobre
o presidente vai durar até quando? Essa pergunta freqüenta
as rodas de todos os contentes e descontentes com a supremacia evidente
do ministro da Fazenda. Para um poderoso banqueiro paulista, ela
dura até a divulgação do próximo resultado
do PIB, o indicador de atividade da economia brasileira. Se a economia
continuar crescendo, Palocci continuará forte. Se ela empacar,
o ministro terá de voltar à arena onde se acostumou
a travar lutas surdas com seus pares. Ou seja, na visão do
banqueiro, a atual fase áurea de Palocci, o fiador da racionalidade
do governo Lula, não teria o condão de infundir previsibilidade
e tranqüilidade duradoura no ambiente econômico justamente
por ser apenas isso, "uma fase". Os ministros da Fazenda de qualquer
governo são bons na medida exata em que seus resultados são
bons. Com Palocci não é diferente. Mas, quando se
comparam os apuros que o ministro da Fazenda passou no governo Lula,
sua situação agora é a de uma fortaleza. Palocci
é indemissível. Ou, em outras palavras, pela reputação
que criou e pela atuação racional e ponderada que
tem no governo, Palocci não pode ser tirado de campo sem
que se instale o caos no governo.
Palocci
não cresceu no conceito do presidente apenas porque a política
econômica tem dado bons resultados. Nem sempre houve bons
resultados. E, mesmo agora, há muitos problemas pela frente.
Num prazo mais longo, o país terá de resolver sua
extrema vulnerabilidade externa, que se materializa na necessidade
vital de atrair dólares. E também sua situação
precária em relação à dívida
pública, que já representa 56% do PIB e vem crescendo
sem parar por causa dos juros altos. Para muitos, essa dívida
está tomando contornos cada vez mais visíveis e pode
se tornar impagável. O problema mais imediato, e mais dramático,
porém, é o desemprego, que em abril atingiu 13,1%
da população economicamente ativa um novo recorde
histórico. Nesse campo, não deverá haver nenhum
alívio no curto prazo, pois o nível de empregos é
um dos últimos indicadores a reagir aos efeitos positivos
de um ciclo de crescimento. Primeiro, as empresas tendem a aumentar
o pagamento de horas extras, depois contratam trabalhadores temporários
e, só quando o crescimento está a pleno vapor, decidem-se
pela contratação de trabalhadores com carteira assinada.
Apesar do desemprego, que causa notória inquietação
no presidente, Palocci mantém seu prestígio porque
nunca vendeu ilusões. Com Palocci, Lula sempre sabe onde
está pisando mesmo que não goste do tapete.
Na
viagem à China, Palocci aproveitou para ter uma longa conversa
com o presidente. Expôs seu desejo de batalhar pelos projetos
da área econômica no Congresso Nacional, de acompanhar
com mais rigor a atuação dos outros ministros e debruçar-se
mais nas articulações eleitorais do PT. Lula lhe deu
sinal verde em tudo. Na semana passada, quando sentou com os líderes
das centrais sindicais para negociar um alívio de 100 reais
no imposto de renda deste ano, Palocci já estava fazendo
uso de suas novas prerrogativas. O ministro acha que a agenda do
governo está emperrada no Congresso e pretende esforçar-se
pessoalmente para que as coisas comecem a andar. Aos seus amigos,
tem dito que se dedicará a acelerar a aprovação
da Lei de Diretrizes Orçamentárias e, em seguida,
se empenhará nos projetos que auxiliam o crescimento da economia,
como a Lei de Falências, a Parceria Público-Privada
e o marco regulatório do saneamento básico. É
um contraste e tanto com o ministro que teve de ficar quieto no
seu canto quando o Congresso votava as reformas previdenciária
e tributária tudo para evitar que Dirceu ficasse melindrado.
Casado
com a médica Margareth, com dois enteados e uma filha, Palocci
parece de bem com a vida, e seu crescente poder reflete-se até
nas piadas que correm pela capital. Segundo essas histórias,
Palocci teria o papel de funcionar como uma âncora no governo.
O deputado Delfim Netto, por exemplo, diz que Palocci deveria ser
indemissível porque sua grande missão no governo é
evitar que Lula volte a ser petista. No Banco Central, diz-se que
a equipe trabalha com três metas evitar a queda do
crescimento, conter a inflação e manter Palocci no
cargo. Ao saber do que se comenta sobre ele, o ministro da Fazenda
costuma dar um sorriso discreto, fazendo questão de produzir
um enigma. Aliás, Antonio Palocci tem muitos enigmas. Além
de não ter cara de marinheiro, ele também não
parece ser um especialista em literatura. E é. Já
escreveu um livro, que mantém escondido na gaveta, que faz
um histórico da literatura brasileira. Conhece tudo de Machado
de Assis, por exemplo. Nada disso o impede de ser fervoroso fã
do diretor Quentin Tarantino, criador de Pulp Fiction e Kill
Bill, e derramar-se ouvindo as canções desavergonhadamente
bregas de um dos pioneiros do rock'n'roll, o americano Roy Orbison.
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