Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Especial
Ele venceu

O ministro da Fazenda sempre foi o mais
popular e agora é também o mais poderoso
do
governo. O que suas vitórias internas
e
externas significam para Lula, para a
economia e para o combate ao desemprego


Otávio Cabral e Leandra Peres

 
Germano Luders


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os que colaboraram e os que nem sempre ajudam
Quadro: As batalhas de Palocci
Quadro: Gráficos e paciência para convencer Lula
Quadro: O novo aliado
EXCLUSIVO ON-LINE
Notícias sobre o governo Lula

Ele queria mesmo era viajar pelos sete mares vestindo um uniforme branco da Marinha. Desistiu do projeto, por causa da miopia que já tinha na adolescência, e virou médico sanitarista. Mas nunca abandonou sua paixão pelas águas. Adora aquários. Já visitou vários espetaculares, nos Estados Unidos, na Suécia, na Alemanha. Seu sonho, agora, é conhecer o aquário de Okinawa, no Japão, um dos maiores do mundo, em cujas águas nadam até tubarões-baleia. Mas, enquanto não pode viajar mundo afora atrás de aquários, Antonio Palocci Filho, 43 anos, começa a viver como peixe na água no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Entrando no 18º mês como ministro da Fazenda, Antonio Palocci nunca esteve tão bem, dentro e fora do governo. No lado de fora, depois de manter a taxa de inflação sob controle e produzir o maior superávit primário da história brasileira, Palocci acaba de entregar ao país a terceira jóia da tríplice coroa – um crescimento de 2,7% do PIB no primeiro trimestre do ano. Essa taxa surpreendeu os mais otimistas. É óbvio que ainda há problemas, e problemas graves, mas o desempenho de Palocci até aqui tem sido estrondoso.

Na prática, o ministro da Fazenda está conseguindo chegar perto da meta de qualquer governo: conjugar crescimento econômico com inflação baixa. A política econômica, apesar da queda de renda dos trabalhadores, apesar dos sucessivos recordes nas taxas de desemprego, desfruta alta popularidade. Não deixa de ser curioso que o grande público costume ver por ângulos generosos os ferozes guardiães da moeda como o americano Alan Greenspan e os condutores de políticas econômicas austeras como Palocci. Eles são tidos pelo público como os fiadores da prosperidade, os generais vitoriosos de batalhas contra as incertezas da economia. Palocci tem essa imagem para um grande número de brasileiros. Recentemente, o publicitário Duda Mendonça encomendou uma pesquisa ao Ibope, logo depois que o PT exibiu seu programa partidário no horário eleitoral. A pesquisa, que ficou mantida em segredo até agora, mostrou que 63% dos entrevistados acham que a política econômica está no caminho certo, e apenas 21% disseram o contrário. Por incrível que possa parecer, os números fazem de Palocci o ministro mais popular do governo Lula. Há outro dado nesse sentido, extraído do programa do PT, no qual apareceram apenas dois ministros – Palocci e seu colega da Casa Civil, José Dirceu. Aos que assistiram ao programa do PT, o Ibope perguntou quais foram as melhores passagens. As respostas associadas a Palocci chegaram a 47%. E só 12% associaram os bons momentos ao ministro José Dirceu.

No lado de dentro do governo, o ministro da Fazenda também vive seu melhor momento. "Quando a economia ainda não dava resultados, Palocci já era forte", define o deputado Walter Pinheiro, do PT baiano. "Agora que os resultados começam a aparecer, Lula e Palocci são quase como uma pessoa só", completa ele, ao ressaltar a simbiose de visões e conceitos entre o ministro e o presidente. Embora não pertença ao núcleo histórico dos petistas mais próximos de Lula, Palocci alçou-se rapidamente à condição de principal auxiliar do presidente – no campo pessoal e profissional. Hoje, priva da intimidade de Lula. As mulheres de ambos se tornaram amigas, os casais costumam jantar juntos no Palácio da Alvorada, e Lula e Palocci fazem caminhadas matinais durante as quais é proibido falar de trabalho. Com esse convívio, produziu-se uma promissora química entre os dois, e Palocci, observador arguto do temperamento de Lula, descobriu as maneiras mais eficientes de convencer o presidente de um ponto de vista ou até mesmo de prepará-lo para receber uma má notícia.

 
Ricardo Stuckert/PR
ÁLBUM
Palocci com a enteada, a filha e a mulher, Margareth: nas horas vagas, um ministro que gosta de literatura e sabe tudo de Machado de Assis

Em que pesem seus próprios méritos, a ascensão de Palocci é, em certa medida, um subproduto do crescente desgaste do ministro José Dirceu, atropelado pelo escândalo Waldomiro Diniz e, também, pela desinibida voracidade com que disputa cada naco de poder. Na semana passada, pela primeira vez, Palocci arregaçou as mangas para comandar uma negociação política no Congresso, terreno em que, até pouco tempo atrás, Dirceu atuava como bispo plenipotenciário. Em conjunto com o coordenador político do governo, o ministro Aldo Rebelo, do PC do B, Palocci conseguiu fazer com que a Câmara dos Deputados, por 266 a 167 votos, aprovasse os 260 reais como o novo valor do salário mínimo – uma vitória na qual, aliás, Dirceu não moveu uma palha para ajudar o governo. O ministro da Fazenda conseguiu dobrar as resistências dentro da própria bancada do PT. No dia em que se reuniu com os petistas para convencê-los a aprovar os 260 reais, 21 tinham acabado de divulgar um manifesto prometendo votar contra a proposta do governo. Na hora H, no entanto, só cinco votaram contra. Dezesseis recuaram depois de ouvir os argumentos de Palocci.

Examinado apenas por seu currículo, Palocci não parece ter perfil para comandar o Ministério da Fazenda. Nunca morou no exterior, seu inglês deixa muito a desejar, jamais trabalhou na área econômica, nunca teve amigos no círculo dos economistas estrelados nem trânsito nos grandes centros acadêmicos mundiais – requisitos, aliás, que seu antecessor no cargo, Pedro Malan, preenchia todos. Além disso, Palocci não tem o ímpeto criador do ex-ministro Octavio Gouvêa de Bulhões, que criou o Banco Central, a correção monetária e o atual sistema tributário. Não detém o desmesurado poder do ex-ministro Delfim Netto, que foi o czar da economia num bom pedaço do regime militar, nem a genialidade acadêmica do ex-ministro Mário Henrique Simonsen, talvez a cabeça mais privilegiada que o país já produziu no ramo. E, ainda assim, analisando-se o saldo de sua gestão até agora, Palocci tem lugar na galeria dos melhores e mais poderosos ministros da Fazenda da história recente do país. No governo anterior, Malan dispunha de um poder enorme e venceu todas as batalhas internas relevantes. Mas Palocci, na administração petista, tem ainda mais poder que Malan.

No governo tucano, o fiador da política econômica era o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, embora Malan também cumprisse esse papel. Na administração petista, ainda que o presidente Lula tenha bancado até aqui todas as decisões da equipe econômica, o grande fiador da estabilidade, do superávit, do equilíbrio fiscal é Antonio Palocci. Além disso, Palocci, ao contrário de Malan, tem um lado político desenvolvido. Ele foi prefeito de Ribeirão Preto duas vezes, deputado estadual e deputado federal, gosta de fazer política, de disputar eleição, de conversar com parlamentares. Agora, nesta nova fase em que pretende participar mais ativamente da articulação política do governo no Congresso, pelo menos atuando em favor das matérias que dizem respeito à política econômica, Palocci já começou a abrir as portas de seu gabinete a políticos. Antes de viajar à China, recebeu em almoço dez deputados do PT. Aproximou-se da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, com quem fala duas vezes por semana. É próximo também do prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.

Com seu pendor para a política, Palocci tem relações suprapartidárias com os governadores. É um interlocutor freqüente do governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, e tem boas relações com o tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin. Entre os governadores com os quais mais conversa, incluem-se ainda o peemedebista Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, e Paulo Hartung, do PSB do Espírito Santo. Ao contrário de José Dirceu, que faz política como se fosse um rolo compressor, Palocci atua de forma discreta, suave e amigável. Evita, a todo custo, criar qualquer tipo de aresta. Seu jeito discreto tem conquistado admiradores na burocracia do PT e entre os parlamentares do partido, searas em que começam a se ouvir freqüentes elogios ao ministro da Fazenda, embora, nesse campo, José Dirceu siga sendo uma referência incontrastável. Na sua rotina, Palocci atende ministros, parlamentares e empresários com disposição e bom humor. "Palocci é especialista em negar tudo com um sorriso no rosto, o que nos desencoraja de insistir no pedido", diz um colega de ministério.

Com estilo bonachão e fala mansa, Palocci sempre dá a impressão de que está abordando assuntos corriqueiros, ainda que sejam extremamente graves. Talvez por isso ele tenha conseguido aprimorar um feito de Malan – o de manter uma equipe econômica capaz de neutralizar suas divergências internas. Malan foi o primeiro ministro da Fazenda na história recente a conseguir isso. Na equipe de Palocci, não se percebe nem mesmo aquela tensão que chegava a vazar nos tempos de Malan. Com Palocci, parece que todos os seus auxiliares trabalham em harmonia perfeita, mesmo quando o Banco Central manda sinais concretos de que é conservador demais na administração da taxa de juros. Seu exército de homens de confiança divide-se em duas brigadas. A retaguarda econômica é comandada por Marcos Lisboa, seu pensador, Joaquim Levy, seu saco de maldades, e Bernard Appy, seu braço armado. Os amigos e assessores que vieram com o ministro de Ribeirão Preto integram a brigada da ação política e da defesa pessoal do ministro. Nesse grupo, destacam-se o deputado Paulo Bernardo, do PT do Paraná, o vereador Donizete Rosa, seu chefe de gabinete, Juscelino Dourado, seu secretário pessoal, Ademirson da Silva, e seu assessor parlamentar, José Ivo Vannuchi.

Aos poucos, com discrição, o ministro tornou-se a figura mais influente dentro do gabinete presidencial. Ele tem aconselhado o presidente em vários assuntos, e não apenas nos temas de economia. Há poucos dias, por exemplo, fez críticas à política de comunicação do governo, reclamando que as realizações não chegam às bases eleitorais. Lula ouviu atentamente e, encerrada a conversa, chamou Luiz Gushiken, responsável pela comunicação, para discutir o assunto. Na semana passada, Palocci demonstrou ao presidente receio de que seu colega da Saúde, Humberto Costa, acabe se afogando no mar de sangue produzido pelo escândalo dos vampiros. Sugeriu que Lula desse demonstração pública de apreço ao ministro. Lula concordou e, na quarta-feira, chamou Humberto Costa para uma cerimônia no Palácio do Planalto. Nas conversas com o presidente, Palocci fala dos ministros que, a seu ver, não vão bem. Nessa lista, são presenças constantes os ministros Olívio Dutra (Cidades), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), Ciro Gomes (Integração Nacional) e Marina Silva (Meio Ambiente).

Ed Ferreira/AE
VITÓRIA
O plenário da Câmara, onde foi aprovado o valor do novo salário mínimo: pela primeira vez, Palocci pediu votos


O ministro da Fazenda está vivendo seu melhor momento em virtude de um evento raro na Presidência de Lula, a produção de resultados positivos ao mesmo tempo para o governo e para o país. Esse efeito mesmerizador que Antonio Palocci exerce agora sobre o presidente vai durar até quando? Essa pergunta freqüenta as rodas de todos os contentes e descontentes com a supremacia evidente do ministro da Fazenda. Para um poderoso banqueiro paulista, ela dura até a divulgação do próximo resultado do PIB, o indicador de atividade da economia brasileira. Se a economia continuar crescendo, Palocci continuará forte. Se ela empacar, o ministro terá de voltar à arena onde se acostumou a travar lutas surdas com seus pares. Ou seja, na visão do banqueiro, a atual fase áurea de Palocci, o fiador da racionalidade do governo Lula, não teria o condão de infundir previsibilidade e tranqüilidade duradoura no ambiente econômico justamente por ser apenas isso, "uma fase". Os ministros da Fazenda de qualquer governo são bons na medida exata em que seus resultados são bons. Com Palocci não é diferente. Mas, quando se comparam os apuros que o ministro da Fazenda passou no governo Lula, sua situação agora é a de uma fortaleza. Palocci é indemissível. Ou, em outras palavras, pela reputação que criou e pela atuação racional e ponderada que tem no governo, Palocci não pode ser tirado de campo sem que se instale o caos no governo.

Palocci não cresceu no conceito do presidente apenas porque a política econômica tem dado bons resultados. Nem sempre houve bons resultados. E, mesmo agora, há muitos problemas pela frente. Num prazo mais longo, o país terá de resolver sua extrema vulnerabilidade externa, que se materializa na necessidade vital de atrair dólares. E também sua situação precária em relação à dívida pública, que já representa 56% do PIB e vem crescendo sem parar por causa dos juros altos. Para muitos, essa dívida está tomando contornos cada vez mais visíveis e pode se tornar impagável. O problema mais imediato, e mais dramático, porém, é o desemprego, que em abril atingiu 13,1% da população economicamente ativa – um novo recorde histórico. Nesse campo, não deverá haver nenhum alívio no curto prazo, pois o nível de empregos é um dos últimos indicadores a reagir aos efeitos positivos de um ciclo de crescimento. Primeiro, as empresas tendem a aumentar o pagamento de horas extras, depois contratam trabalhadores temporários e, só quando o crescimento está a pleno vapor, decidem-se pela contratação de trabalhadores com carteira assinada. Apesar do desemprego, que causa notória inquietação no presidente, Palocci mantém seu prestígio porque nunca vendeu ilusões. Com Palocci, Lula sempre sabe onde está pisando – mesmo que não goste do tapete.

Na viagem à China, Palocci aproveitou para ter uma longa conversa com o presidente. Expôs seu desejo de batalhar pelos projetos da área econômica no Congresso Nacional, de acompanhar com mais rigor a atuação dos outros ministros e debruçar-se mais nas articulações eleitorais do PT. Lula lhe deu sinal verde em tudo. Na semana passada, quando sentou com os líderes das centrais sindicais para negociar um alívio de 100 reais no imposto de renda deste ano, Palocci já estava fazendo uso de suas novas prerrogativas. O ministro acha que a agenda do governo está emperrada no Congresso e pretende esforçar-se pessoalmente para que as coisas comecem a andar. Aos seus amigos, tem dito que se dedicará a acelerar a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias e, em seguida, se empenhará nos projetos que auxiliam o crescimento da economia, como a Lei de Falências, a Parceria Público-Privada e o marco regulatório do saneamento básico. É um contraste e tanto com o ministro que teve de ficar quieto no seu canto quando o Congresso votava as reformas previdenciária e tributária – tudo para evitar que Dirceu ficasse melindrado.

Casado com a médica Margareth, com dois enteados e uma filha, Palocci parece de bem com a vida, e seu crescente poder reflete-se até nas piadas que correm pela capital. Segundo essas histórias, Palocci teria o papel de funcionar como uma âncora no governo. O deputado Delfim Netto, por exemplo, diz que Palocci deveria ser indemissível porque sua grande missão no governo é evitar que Lula volte a ser petista. No Banco Central, diz-se que a equipe trabalha com três metas – evitar a queda do crescimento, conter a inflação e manter Palocci no cargo. Ao saber do que se comenta sobre ele, o ministro da Fazenda costuma dar um sorriso discreto, fazendo questão de produzir um enigma. Aliás, Antonio Palocci tem muitos enigmas. Além de não ter cara de marinheiro, ele também não parece ser um especialista em literatura. E é. Já escreveu um livro, que mantém escondido na gaveta, que faz um histórico da literatura brasileira. Conhece tudo de Machado de Assis, por exemplo. Nada disso o impede de ser fervoroso fã do diretor Quentin Tarantino, criador de Pulp Fiction e Kill Bill, e derramar-se ouvindo as canções desavergonhadamente bregas de um dos pioneiros do rock'n'roll, o americano Roy Orbison.

 

 
 
 
 
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