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Entrevista:
Nancy Rigotti
Vontade
não basta
Médica
americana diz que tratar o tabagismo
como doença crônica ajudaria os fumantes a
largar o vício do cigarro

Anna
Paula Buchalla
Stanley Rowin
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"Associar
o abandono do vício exclusivamente à
força
de vontade causa muita frustração nas
pessoas
que não conseguem
se livrar do cigarro. O
fumante acaba
mais desestimulado" |
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Até
pouquíssimo tempo atrás, acreditava-se que a força
de vontade bastava para quem quisesse parar de fumar. A ciência
se encarregou de provar o que na prática já se sabia
mesmo querendo muito, é difícil abandonar o
cigarro. Uma nova corrente na medicina agora vê o tabagismo
como uma doença crônica. De acordo com ela, assim como
um hipertenso ou uma vítima do colesterol alto precisa adotar
novos hábitos, sem abrir mão do auxílio de
remédios, a maioria dos fumantes necessita de ajuda, além
da força de vontade, para abandonar o vício do cigarro.
Essa ajuda pode vir na forma de um antidepressivo, de um implante
de nicotina ou de terapias comportamentais, cuja eficácia
clínica já está comprovada. Por trás
dessa nova visão está a médica americana Nancy
Rigotti, de 51 anos, professora da Faculdade de Medicina de Harvard.
As pesquisas de Nancy produziram mudanças importantes nos
tratamentos dispensados aos fumantes. Atualmente, ela é uma
das dirigentes da Sociedade para Pesquisa de Nicotina e Tabaco,
uma organização internacional que inclui renomados
estudiosos. De seu consultório, no Hospital Geral de Massachusetts,
ela concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
A senhora defende que os médicos encarem o
tabagismo como uma doença crônica. Por quê?
Nancy Trata-se de uma doença crônica,
porque é muito difícil quebrar no organismo o vício
da nicotina. Todos nós conhecemos a história de alguém
que ficou um bom tempo sem fumar, mas acabou voltando é
o que chamamos muito apropriadamente de recaída. E a maior
parte das recaídas ocorre depois de apenas três meses.
É preciso ter em mente que é longo o processo que
vai do momento em que o fumante resolve abandonar o vício
até quando ele realmente se torna um não-fumante.
Veja
Se o fumo é um problema crônico como
a hipertensão e o colesterol alto, ele exige, então,
tratamento por toda a vida.
Nancy Exatamente. Assim como um hipertenso não
deve abandonar o exercício físico, por exemplo, que
traz benefícios enormes a sua saúde, um ex-fumante
também deve adotar e manter hábitos ainda mais saudáveis
do que uma pessoa que jamais fumou. E, se necessário, deve
voltar a recorrer a algum tratamento químico e a programas
psicológicos para aprender a lidar com a falta do cigarro.
Veja
Não basta ter força de vontade?
Nancy Não acredito que associar o abandono
do vício exclusivamente à força de vontade
seja a forma correta de encarar essa questão. Inclusive porque
causa muita frustração nas pessoas que não
conseguem se livrar do cigarro. Não bastasse ter a consciência
de que o fumo está agredindo a sua saúde, o fumante
ainda se sente incapaz de combatê-lo. E acaba mais desestimulado
ainda. Por esse motivo, os médicos que hoje atuam nessa área
vêm martelando a idéia de que esse é um trabalho
que não requer só força de vontade. O grande
desafio é eliminar o vício da nicotina, e isso se
consegue com duas coisas: remédio e terapia.
Veja
Qual a porcentagem de sucesso dos tratamentos à
disposição?
Nancy Os melhores tratamentos têm uma taxa de
sucesso da ordem de 40% no longo prazo. Ou seja, de cada 100 pessoas
que se submetem a eles, quarenta deixam mesmo de fumar. Parece pouco,
mas é um tremendo resultado. Para se ter uma idéia,
de cada 100 pessoas que resolvem dar um basta no vício, sem
recorrer a ajuda terapêutica, apenas cinco abandonam de fato
o cigarro.
Veja
E quais são os métodos de maior eficácia?
Nancy Existem basicamente dois métodos
cuja eficácia se mostrou superior, segundo as evidências
clínicas. Um deles é o que faz uso de remédios
à base de bupropiona, um antidepressivo. O outro é
o da reposição controlada de nicotina. Também
já está comprovado que as terapias comportamentais
são muito eficientes. Elas podem ser aplicadas em grupo,
individualmente ou até mesmo em consultas por telefone. Os
pacientes aprendem a entender por que fumam, a identificar as situações
que os deixam mais ansiosos por um cigarro se no trabalho,
depois das refeições, para relaxar etc. Essa conscientização
os faz mudar de atitude, quebrando o circuito cerebral que leva
à vontade de fumar. Em outras palavras, eles aprendem a lidar
com seus sentimentos sem a ajuda do cigarro. Mas as terapias comportamentais
são mais eficientes quando associadas a remédios.
Veja
O antidepressivo bupropiona é mais efetivo
do que a reposição de nicotina?
Nancy Há um único estudo que sugere
isso. Na comparação com placebo, a bupropiona se mostrou
mais potente do que a reposição de nicotina.
Veja
E quanto à psicoterapia tradicional?
Nancy A psicoterapia pressupõe uma série
de idas ao consultório de um psiquiatra ou de um psicólogo,
o que leva muito tempo e custa caro. Para parar de fumar, as terapias
comportamentais são de longe as mais práticas. Elas
reeducam e dão apoio psicológico e isso é
tudo de que um ex-fumante precisa no início. Em geral, oito
semanas são suficientes para colher resultados com esse tipo
de tratamento.
Veja
Grandes laboratórios farmacêuticos pesquisam
novas substâncias para combater o vício. Quem quer
parar de fumar pode ter esperança nessas iniciativas?
Nancy Tudo indica que sim. Há pelo menos
duas substâncias bastante promissoras, que trabalham de formas
diferentes. Elas devem se tornar uma alternativa para quem não
teve sucesso com outros remédios ou é alérgico
a algum dos componentes das fórmulas atuais. Tais medicamentos
provavelmente serão lançados nos próximos dois
anos.
Veja
Qual é o mecanismo de ação desses
remédios?
Nancy Um deles inibe a ação da nicotina
e, dessa forma, reduz a vontade de fumar. O outro atua especificamente
nos centros cerebrais responsáveis pelo bem-estar. Nesse
caso, o objetivo é diminuir a sensação de prazer
causada pelo cigarro. Esse segundo remédio terá a
vantagem adicional de trazer em sua fórmula uma molécula
que evita o ganho de peso decorrente do abandono do cigarro.
Veja
Por que algumas pessoas conseguem largar o cigarro
sem grandes dificuldades?
Nancy Porque são menos propensas geneticamente
a se viciar em nicotina. Mas uma coisa é certa: quanto mais
se fuma e quanto antes se começa a fumar, mais difícil
é largar o vício. Tanto que alguns especialistas defendem
a tese de que o tabagismo deveria ser visto como uma doença
pediátrica, visto que é no fim da infância que
a maioria das pessoas adere ao cigarro. O dado lamentável
é que o melhor jeito de parar de fumar hoje, pelo menos nos
Estados Unidos, é ter um infarto. O fumante fica cara a cara
com a morte, e só então passa a ter a real dimensão
dos malefícios do cigarro. Infelizmente, não é
suficiente alertar para as estatísticas das doenças
causadas pelo tabagismo que, por exemplo, um fumante tem
de duas a três vezes mais riscos de sofrer de distúrbios
cardiovasculares do que um não-fumante. Ou que a probabilidade
de um fumante desenvolver um câncer de pulmão é
de dez a vinte vezes maior. Por uma razão psicológica
insondável, a pessoa que fuma tende a achar que nada de mau
vai acontecer a ela. Muitos usam a desculpa de ter um bom físico,
de fazer ginástica, ou até mesmo de fumar cigarros
light que, por sinal, fazem tão mal quanto os outros.
Veja
Muitos fumantes acreditam que os médicos exageram
ao atribuir tantos males ao cigarro.
Nancy É verdade, e esse é um equívoco
que pode ser fatal. Como acaba de ser divulgado pelo Departamento
de Saúde dos Estados Unidos, os efeitos nocivos do tabaco
são muito maiores do que se imaginava. O fumo prejudica praticamente
todos os órgãos do corpo e causa doenças
sobre as quais não havia suspeita de ligação
com o fumo, como catarata e cânceres cervicais, renais, do
pâncreas e do estômago. Para nós, especialistas,
tudo isso não é novidade. O documento, na verdade,
resume o que já era consenso entre médicos e cientistas.
Veja
As mulheres têm mais dificuldade de abandonar
o vício do que os homens?
Nancy Em alguns estudos específicos com remédios,
as mulheres não se saíram tão bem quanto os
homens. Uma das razões está na própria fisiologia
feminina. As oscilações hormonais típicas das
mulheres tendem a potencializar os sintomas de abstinência
e a prejudicar as respostas às terapias antifumo. Ou seja,
as mulheres são mais vulneráveis aos efeitos do cigarro.
Além disso, para elas, mais do que para os homens, o cigarro
costuma ser uma espécie de muleta emocional: representa a
sua individualidade, um tempo que elas reservam para si próprias.
Isso ajuda a explicar por que as mulheres estão fumando tanto
e por que custam a abandonar o cigarro. Isso sem falar no que todo
mundo já sabe: as campanhas publicitárias da indústria
do tabaco que promovem a imagem da mulher liberada, urbana, bem-sucedida,
de alta classe. Ganhar peso é outra coisa que preocupa mais
as mulheres do que os homens elas têm medo de engordar
muito depois de largar o vício, o que efetivamente costuma
ocorrer. Por causa do cigarro, os fumantes conquistam um peso artificial,
abaixo do que teriam se não fumassem, já que a nicotina
comprovadamente acelera o metabolismo. Entre os que param, o ganho
de peso médio é de 4 quilos. Nada que uma academia
de ginástica não resolva.
Veja
A senhora acredita que será mais fácil
deixar de fumar dentro de poucos anos?
Nancy Há pelo menos duas razões que
me fazem acreditar que sim. Uma delas são os remédios
que devem se tornar cada vez mais eficazes. A outra são as
políticas de saúde pública que procuram desencorajar
as pessoas a acender um cigarro. Em países como os Estados
Unidos e o Brasil, as restrições ao fumo aumentam
a cada dia. E menos fumaça no ar é um passo para evitar
a vontade de fumar. Uma experiência bem-sucedida nesse sentido
é a de Nova York. O índice de fumantes caiu brutalmente
desde que se partiu para medidas severas. Primeiro, aumentou-se
o preço do cigarro, com impostos altíssimos. Depois,
baniu-se totalmente o fumo de restaurantes e bares. Como ficou quase
impossível fumar em lugares públicos, o cigarro está
menos presente na rotina das pessoas. Em terceiro lugar, foram implementados
programas de apoio para ajudar as pessoas que queriam parar de fumar.
O sucesso está na combinação das três
medidas. Em se tratando de cigarro, não é por meio
de ações isoladas que se conseguirá diminuir
a incidência do fumo em grandes populações.
Veja
E quanto à restrição à
propaganda, ela é mesmo eficaz?
Nancy Sem dúvida. Aliás, do ponto de
vista propagandístico, há um outro grande revés:
o fumo passou a ser associado a classes menos abastadas. Embora
as campanhas publicitárias ainda sejam dirigidas a públicos
mais elitizados, os ricos fumam cada vez menos. Com isso, podem
influenciar os mais pobres. As normas sociais estão mudando,
a tolerância ao cigarro está cada vez menor, e eu acho
que isso é bom.
Veja
Recentemente, quase 200 países aprovaram um
tratado da Organização Mundial de Saúde (OMS)
que prevê controle sobre o comércio de cigarro, limites
à propaganda, aumento de impostos e maior divulgação
dos malefícios que ele causa. Por que a iniciativa não
saiu do papel?
Nancy Apesar da boa vontade de muitos países,
o problema é que temos um poderoso inimigo: a indústria
do tabaco, que movimenta centenas de bilhões de dólares
e dá emprego a milhões de pessoas. Há dinheiro
demais envolvido nessa questão. Além disso, muitos
governos estão diretamente envolvidos com a produção
do tabaco.
Veja
A senhora já fumou?
Nancy Para falar a verdade, tentei fumar algumas vezes,
só para ver como era. Pude constatar que a nicotina é
uma droga pesada, e essa experiência me fez entender por que
as pessoas fumam. Mas ainda bem que não passou disso.
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