Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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Em foco: Gustavo Franco
Globalização e poder

"Para o estabelecimento da organização institucional dos mercados, os países são
necessários, pois
é nesse plano que se fixam
as normas. Mas, uma vez estabelecidas as
conexões, o mundo econômico parece adquirir
uma
autonomia inaudita"

As empresas multinacionais (EMNs) estão no epicentro da globalização, e elas são muitas: para 2001, o número estimado estava em 65.000, sendo de 850.000 o número de filiais (aproximadamente treze por empresa, em média). Esse conjunto empregava 54 milhões de pessoas (eram 24 milhões em 1990), muito pouco num planeta de 6 bilhões, mas suas vendas (internas e exportações) eram de 19 trilhões de dólares, o dobro das exportações mundiais.

Ilustração Ale Setti


Embora a contribuição das EMNs para o PIB global fosse modesta, na faixa de 10%, era fenomenal no terreno do comércio mundial: dois terços do total, sendo que metade desse seu comércio era "intrafirmas", isto é, entre empresas do mesmo grupo.

Esses números são impressionantes inclusive porque sugerem que a competitividade não pertence propriamente aos países, ou ao menos que a relação entre países e EMNs deveria ser mais bem compreendida.

Países e empresas vivem em dimensões diferentes, e são medidos com escalas próprias, os primeiros por meio do PIB, ou seja, pelo valor adicionado total gerado dentro de suas fronteiras, enquanto o tamanho das empresas é medido pelo faturamento. Conciliando as escalas, um cálculo para o ano 2000, feito pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), mostrou que, entre os cinqüenta maiores países e empresas, há apenas duas empresas, mas, dentro dos cinqüenta seguintes, 27 são empresas. Ou seja, para o total dos 100 maiores países e empresas, 29 eram empresas, sendo que a maior delas, a ExxonMobil, tinha um "PIB" estimado em cerca de 63 bilhões de dólares, ligeiramente inferior ao do Chile e das Filipinas e maior que o do Paquistão.

As maiores EMNs, portanto, são como países "pequenos", pelo menos por enquanto, pois, nos últimos anos, as EMNs têm crescido muito mais que os países: as 100 maiores respondiam por 4,3% do PIB mundial em 2000, comparados com 3,5% em 1990. A diferença, cerca de 600 bilhões de dólares, corresponde aproximadamente ao PIB da Espanha. A tendência de crescimento do tamanho das EMNs relativamente ao dos países parece apenas se acentuar.

Durante muitos anos discutiu-se apaixonadamente se as EMNs iam dominar o mundo, ou se serviam aos interesses imperialistas de seus países-sede, mas esses debates foram murchando, seja porque não fazia sentido econômico hostilizar as EMNs, seja porque elas pareciam, ao menos nas grandes questões, alheias e inofensivas ao mundo da política. Raramente uma EMN era encontrada se envolvendo indevidamente em política, ou seja, o crescimento da civilização das EMNs parece ter lugar num outro plano.

Na verdade, o crescimento das EMNs – espontâneo, cumulativo, não planejado, freqüentemente afetado por fusões e aquisições – encontra certa semelhança com o crescimento da internet, o agregado de inúmeras redes que foram se conectando e formando um todo imensamente maior que a soma das partes.

O crescimento das EMNs, como o da internet, serviu-se e potencializou a internacionalização de padrões, o principal dos quais é o mercado como instrumento de coordenação de atividades e alocação de recursos. Mercados congregam redes de pessoas e empresas, são espaços virtuais por onde se escoa e se processa a informação e se fazem negócios. Na medida em que as redes adotam os mesmos "padrões", a interconexão é possível e extremamente vantajosa do ponto de vista econômico.

Para o estabelecimento da organização institucional dos mercados, e dos padrões contábeis, fiscais, bancários, macroeconômicos, contratuais, jurídicos, os países são necessários, pois é nesse plano que se fixam essas normas. Mas, uma vez estabelecidas as conexões, o mundo econômico parece adquirir uma autonomia inaudita. Parece se formar uma "comunidade", um "ente virtual" de enorme amplitude e vida própria, que se apresenta como o "interlocutor" dos governos, e que é normalmente designado como "o mercado", um Poder imenso, mas de modo algum irracional, nada que ver com uma conspiração de jovens operadores, mas algo muito mais profundo e em torno do qual as noções usuais de Poder precisam ser amplamente repensadas.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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