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Em
foco: Gustavo Franco
Globalização
e poder
"Para
o estabelecimento da organização institucional dos
mercados, os países são
necessários, pois é nesse plano que
se fixam
as normas. Mas, uma vez estabelecidas as
conexões, o mundo econômico parece adquirir
uma autonomia inaudita"
As
empresas multinacionais (EMNs) estão no epicentro da globalização,
e elas são muitas: para 2001, o número estimado estava
em 65.000, sendo de 850.000
o número de filiais (aproximadamente treze por empresa, em
média). Esse conjunto empregava 54 milhões de pessoas
(eram 24 milhões em 1990), muito pouco num planeta de 6 bilhões,
mas suas vendas (internas e exportações) eram de 19
trilhões de dólares, o dobro das exportações
mundiais.
Ilustração Ale Setti
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Embora a contribuição das EMNs para o PIB global fosse
modesta, na faixa de 10%, era fenomenal no terreno do comércio
mundial: dois terços do total, sendo que metade desse seu
comércio era "intrafirmas", isto é, entre empresas
do mesmo grupo.
Esses
números são impressionantes inclusive porque sugerem
que a competitividade não pertence propriamente aos países,
ou ao menos que a relação entre países e EMNs
deveria ser mais bem compreendida.
Países
e empresas vivem em dimensões diferentes, e são medidos
com escalas próprias, os primeiros por meio do PIB, ou seja,
pelo valor adicionado total gerado dentro de suas fronteiras, enquanto
o tamanho das empresas é medido pelo faturamento. Conciliando
as escalas, um cálculo para o ano 2000, feito pela Conferência
das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento
(Unctad), mostrou que, entre os cinqüenta maiores países
e empresas, há apenas duas empresas, mas, dentro dos cinqüenta
seguintes, 27 são empresas. Ou seja, para o total dos 100
maiores países e empresas, 29 eram empresas, sendo que a
maior delas, a ExxonMobil, tinha um "PIB" estimado em cerca de 63
bilhões de dólares, ligeiramente inferior ao do Chile
e das Filipinas e maior que o do Paquistão.
As
maiores EMNs, portanto, são como países "pequenos",
pelo menos por enquanto, pois, nos últimos anos, as EMNs
têm crescido muito mais que os países: as 100 maiores
respondiam por 4,3% do PIB mundial em 2000, comparados com 3,5%
em 1990. A diferença, cerca de 600 bilhões de dólares,
corresponde aproximadamente ao PIB da Espanha. A tendência
de crescimento do tamanho das EMNs relativamente ao dos países
parece apenas se acentuar.
Durante
muitos anos discutiu-se apaixonadamente se as EMNs iam dominar o
mundo, ou se serviam aos interesses imperialistas de seus países-sede,
mas esses debates foram murchando, seja porque não fazia
sentido econômico hostilizar as EMNs, seja porque elas pareciam,
ao menos nas grandes questões, alheias e inofensivas ao mundo
da política. Raramente uma EMN era encontrada se envolvendo
indevidamente em política, ou seja, o crescimento da civilização
das EMNs parece ter lugar num outro plano.
Na
verdade, o crescimento das EMNs espontâneo, cumulativo,
não planejado, freqüentemente afetado por fusões
e aquisições encontra certa semelhança com
o crescimento da internet, o agregado de inúmeras redes que
foram se conectando e formando um todo imensamente maior que a soma
das partes.
O
crescimento das EMNs, como o da internet, serviu-se e potencializou
a internacionalização de padrões, o principal
dos quais é o mercado como instrumento de coordenação
de atividades e alocação de recursos. Mercados congregam
redes de pessoas e empresas, são espaços virtuais
por onde se escoa e se processa a informação e se
fazem negócios. Na medida em que as redes adotam os mesmos
"padrões", a interconexão é possível
e extremamente vantajosa do ponto de vista econômico.
Para
o estabelecimento da organização institucional dos
mercados, e dos padrões contábeis, fiscais, bancários,
macroeconômicos, contratuais, jurídicos, os países
são necessários, pois é nesse plano que se
fixam essas normas. Mas, uma vez estabelecidas as conexões,
o mundo econômico parece adquirir uma autonomia inaudita.
Parece se formar uma "comunidade", um "ente virtual" de enorme amplitude
e vida própria, que se apresenta como o "interlocutor" dos
governos, e que é normalmente designado como "o mercado",
um Poder imenso, mas de modo algum irracional, nada que ver com
uma conspiração de jovens operadores, mas algo muito
mais profundo e em torno do qual as noções usuais
de Poder precisam ser amplamente repensadas.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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