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Carta
ao leitor
Muito
barulho por nada
Celso Junior/AE
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| Manifestações
na Câmara contra a aprovação do salário
mínimo de 260 reais |
Mesmo
para um país notório por desperdiçar energia
e tempo em discussões bizantinas, o debate sobre o salário
mínimo (SM) foi um exagero de inutilidade. O auge da improdutividade
deu-se na semana passada, quando a Câmara fixou o valor em
260 reais e os deputados da oposição eclodiram em
ruidosas manifestações de repúdio. Os parlamentares
acharam insuficiente o aumento real de 1,2% dado para o SM. Queriam
mais. É de perguntar quem não queria que o salário
mínimo no Brasil fosse maior. Muito maior. Pelos cálculos
da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 350
reais mensais é a quantia mínima necessária
à sobrevivência no Brasil. O Dieese, órgão
de assessoria técnica dos sindicatos, acha injusto qualquer
valor menor que 1 400 reais. O que não falta são propostas
de aumento. Mas seria demais esperar que os deputados, tão
devotados a aparecer diante das câmeras de televisão
declamando valores demagógicos para o mínimo, tivessem
tentado, se não resolver, pelo menos entender a raiz do problema?
Não
se trata de neoliberalismo, crueldade do governo, subserviência
ao capital financeiro ou, no caso do presidente Lula, traição
aos ideais da classe trabalhadora. Nada disso. O salário
mínimo no Brasil só pode receber reajustes irrisórios
porque, do contrário, entre outras razões menores,
o sistema de Previdência quebraria e levaria com ele o país.
As razões são materiais. Como milhões de aposentados
do setor público e privado recebem um salário mínimo,
cada 10 reais de aumento em seu valor significam 3 bilhões
de reais de impacto anual na já altamente deficitária
Previdência. O rombo passa de 30 bilhões por ano. Não
é apenas suicídio financeiro da parte de qualquer
governo aprofundar o déficit. É inconstitucional.
Mesmo pródiga e orçamentariamente irresponsável,
a Constituição de 1988 estabeleceu em seu artigo 195
que "nenhum benefício ou serviço da seguridade social
poderá ser criado, majorado ou estendido sem a correspondente
fonte de custeio total".
O
que fazer, então? A saída é aumentar as fontes
de custeio da Previdência sem apelar ao combalido Tesouro
Nacional. Isso se faz diminuindo a informalidade. Como se sabe,
seis em cada dez brasileiros ocupados são trabalhadores informais
que nada contribuem para o sistema previdenciário. Para acabar
com a informalidade, é crucial, portanto, baixar a carga
de impostos, modernizar a legislação trabalhista,
barateando e descomplicando as contratações. É
uma lástima que o barulhento debate sobre o salário
mínimo não tenha sequer tangenciado essas questões
fundamentais e uma tragédia se no próximo ano
o país for submetido ao mesmo demagógico espetáculo
da semana passada.
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