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André
Petry
Estupidez
em
nome de Deus
"É
quase inacreditável, mas, às vésperas de
votar o assunto, existem senadores dispostos
a levar em conta os argumentos de autoridades
religiosas e proibir a pesquisa de células-tronco"
O Congresso
Nacional está para votar nos próximos dias um projeto
fundamental: a lei que vai autorizar (ou proibir) a pesquisa científica
com as células-tronco de embriões humanos. As células-tronco,
com seu notável potencial de reprodução e especialização,
são a esperança mais promissora da medicina atual
para encontrar a cura de doenças graves como diabetes, esclerose,
infarto, distrofia muscular, Alzheimer, Parkinson. De um lado, batalhando
pela autorização da pesquisa com as células-tronco
embrionárias, está a comunidade científica.
Em peso. De outro, contra a pesquisa, estão os religiosos,
principalmente os representantes dos católicos e evangélicos.
As autoridades religiosas até admitem as pesquisas com células-tronco,
desde que sejam as células extraídas da medula óssea
ou do cordão umbilical, e não de embriões humanos.
A Igreja diz que pesquisar com embriões é uma ofensa
à vida, tal como o aborto. Afinal, a manipulação
impediria o embrião de crescer. Seria, portanto, como matar
alguém. A questão é que as células-tronco
mais potentes e versáteis são justamente as embrionárias,
razão pela qual pesquisá-las tende a ser muito mais
eficiente.
É
quase inacreditável, mas, às vésperas de votar
o assunto, existem senadores dispostos a levar em conta os argumentos
de autoridades religiosas e proibir a pesquisa. Sim, querem proibir
a pesquisa que pode salvar vidas e reduzir o sofrimento humano
e tudo, é claro, "em nome de Deus". Ora, mas que Deus é
esse? Que Deus irônico nos daria talento, dom e fé
para chegar perto das descobertas mais sensacionais da vida, mas
nos proibiria de exercer nosso talento, nosso dom e nossa fé?
Era tudo só para Deus ver? Que Deus mordaz nos daria condições
de prolongar a vida e reduzir o sofrimento, mas, apesar da generosa
doação, nos proibiria de fazê-lo, obrigando-nos
a permanecer, mesmo doentes ou à beira da morte, infensos
à intervenção humana, feito relíquias
de redoma, apenas para que nosso Criador, egoísta e genial,
pudesse contemplar Sua obra intocada? Que Deus mórbido e
tirânico exigiria de nós, Suas criaturas, a resignação
com o sofrimento e a dor apenas para que ficasse patente o respeito
que Lhe devotamos?
Do
bispo de Alexandria, que colocou abaixo o mais efervescente centro
de ciência e cultura dos primórdios da era cristã
até o inquisidor que calou Galileu Galilei, a Igreja Católica
sempre reagiu poderosamente quando os avanços científicos
punham à prova seus dogmas e sua moral. Foi assim no passado.
Com variações de tom e intensidade, é assim
hoje em dia, quando as autoridades eclesiásticas, por exemplo,
chegam ao ponto de, tateando entre a irresponsabilidade e o crime,
torpedear o uso de camisinha para evitar a transmissão da
aids. Com essas posições, a Igreja está a favor
da vida humana ou de sua moral religiosa? Não surpreende
que os igrejeiros sejam contra a pesquisa de células-tronco
embrionárias, que estejam novamente no clima do obscurantismo
medieval, minando a ideologia da razão e do progresso. O
estarrecedor é que o Senado, como instituição,
laica aliás, seja capaz de pensar do mesmo modo. Seria bom
que o Brasil deixasse essas tolices apenas aos fundamentalistas
cristãos de George W. Bush. Por sinal, Bush proibiu a pesquisa
de células-tronco embrionárias nos Estados Unidos,
mas, como isso ainda vai render muito dinheiro, já tem até
republicano querendo mudar de idéia. Até eles.
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