Edição 1857 . 9 de junho de 2004

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André Petry
Estupidez em
nome de Deus

"É quase inacreditável, mas, às vésperas de
votar o assunto, existem senadores dispostos
a levar em conta os argumentos de autoridades
religiosas e proibir a pesquisa de células-tronco"

O Congresso Nacional está para votar nos próximos dias um projeto fundamental: a lei que vai autorizar (ou proibir) a pesquisa científica com as células-tronco de embriões humanos. As células-tronco, com seu notável potencial de reprodução e especialização, são a esperança mais promissora da medicina atual para encontrar a cura de doenças graves como diabetes, esclerose, infarto, distrofia muscular, Alzheimer, Parkinson. De um lado, batalhando pela autorização da pesquisa com as células-tronco embrionárias, está a comunidade científica. Em peso. De outro, contra a pesquisa, estão os religiosos, principalmente os representantes dos católicos e evangélicos. As autoridades religiosas até admitem as pesquisas com células-tronco, desde que sejam as células extraídas da medula óssea ou do cordão umbilical, e não de embriões humanos. A Igreja diz que pesquisar com embriões é uma ofensa à vida, tal como o aborto. Afinal, a manipulação impediria o embrião de crescer. Seria, portanto, como matar alguém. A questão é que as células-tronco mais potentes e versáteis são justamente as embrionárias, razão pela qual pesquisá-las tende a ser muito mais eficiente.

É quase inacreditável, mas, às vésperas de votar o assunto, existem senadores dispostos a levar em conta os argumentos de autoridades religiosas e proibir a pesquisa. Sim, querem proibir a pesquisa que pode salvar vidas e reduzir o sofrimento humano – e tudo, é claro, "em nome de Deus". Ora, mas que Deus é esse? Que Deus irônico nos daria talento, dom e fé para chegar perto das descobertas mais sensacionais da vida, mas nos proibiria de exercer nosso talento, nosso dom e nossa fé? Era tudo só para Deus ver? Que Deus mordaz nos daria condições de prolongar a vida e reduzir o sofrimento, mas, apesar da generosa doação, nos proibiria de fazê-lo, obrigando-nos a permanecer, mesmo doentes ou à beira da morte, infensos à intervenção humana, feito relíquias de redoma, apenas para que nosso Criador, egoísta e genial, pudesse contemplar Sua obra intocada? Que Deus mórbido e tirânico exigiria de nós, Suas criaturas, a resignação com o sofrimento e a dor apenas para que ficasse patente o respeito que Lhe devotamos?

Do bispo de Alexandria, que colocou abaixo o mais efervescente centro de ciência e cultura dos primórdios da era cristã até o inquisidor que calou Galileu Galilei, a Igreja Católica sempre reagiu poderosamente quando os avanços científicos punham à prova seus dogmas e sua moral. Foi assim no passado. Com variações de tom e intensidade, é assim hoje em dia, quando as autoridades eclesiásticas, por exemplo, chegam ao ponto de, tateando entre a irresponsabilidade e o crime, torpedear o uso de camisinha para evitar a transmissão da aids. Com essas posições, a Igreja está a favor da vida humana ou de sua moral religiosa? Não surpreende que os igrejeiros sejam contra a pesquisa de células-tronco embrionárias, que estejam novamente no clima do obscurantismo medieval, minando a ideologia da razão e do progresso. O estarrecedor é que o Senado, como instituição, laica aliás, seja capaz de pensar do mesmo modo. Seria bom que o Brasil deixasse essas tolices apenas aos fundamentalistas cristãos de George W. Bush. Por sinal, Bush proibiu a pesquisa de células-tronco embrionárias nos Estados Unidos, mas, como isso ainda vai render muito dinheiro, já tem até republicano querendo mudar de idéia. Até eles.

 
 
 
 
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