Esquecida até pouco tempo atrás,
a corrente dos anos 60 é resgatada numa bela mostra
Marcelo Marthe
No
sentido horário, o pop de Duke Lee, as cores de Aguilar (numa tela já
da década atual), a banana que aludia à ditadura de Antonio
Henrique Amaral e duas obras de Tozzi, uma de denúncia da repressão
e outra de celebração do tropicalismo de Caetano Veloso: valor reconhecido,
enfim
Em
1967, uma obra do artista plástico paulistano Claudio Tozzi entrou na mira
da ditadura. Durante o fechamento de um salão de arte em Brasília
pelas forças militares, um coronel se exaltou com um painel que retratava
o guerrilheiro Che Guevara. E não teve dúvidas: tascou-lhe um pontapé.
Recuperado anos depois, em estado lastimável, o trabalho permaneceu esquecido
no ateliê do artista até o ano passado, quando foi vendido a um colecionador
argentino por 250.000 reais – preço recorde para uma obra de Tozzi. Atualmente,
está em exibição no Malba, o museu de Buenos Aires dedicado
à arte latino-americana. Essa história poderia ser uma alegoria
sobre a geração à qual pertence o artista. Além de
Tozzi, nomes como Antonio Dias, Rubens Gerchman, Wesley Duke Lee, Antonio Henrique
Amaral e José Roberto Aguilar ganharam notoriedade nos anos 1960 e comungavam
das mesmas influências. Eles representaram uma resposta brasileira à
explosão mundial da pop art, consagrada pelo americano Andy Warhol. Com
os anos, contudo, as obras de boa parte dessa geração passaram a
ser consideradas "micadas" por marchands e colecionadores. Somente na década
atual, enfim, começaram a ser resgatadas pelo mercado. Em cartaz desde
a semana passada na Galeria Ricardo Camargo, em São Paulo, a mostra Vanguarda
Tropical é uma prova eloqüente disso: em tempos não muito
distantes, ninguém se disporia a organizar uma panorâmica de fôlego
do período. Alguns dos oito artistas focalizados encontravam dificuldade
até para expor. Agora, recuperaram seu espaço.
As 44 obras revelam como os brasileiros assimilaram os expedientes da pop art
– entre os quais o uso das impressões em silkscreen e as referências
aos gibis. Com formação nos Estados Unidos, Duke Lee, hoje com 76
anos, foi um pioneiro na introdução dessas técnicas. Obras
como Retrato de Samuel ou A Respeito de Vovô (1970) evidenciam por
que ele foi quem melhor sintetizou no Brasil a influência de artistas como
o inglês David Hockney. Assim como seus pares estrangeiros, os expoentes
do pop nacional também celebravam a contracultura. É o caso de Aguilar,
com suas imagens psicodélicas. Mas, no Brasil, acrescentou-se uma "cor
local" à tendência – um tanto desviante em relação
à idéia que norteava a arte pop, mas, ainda assim, original. A obra
de Andy Warhol expunha uma visão irônica da cultura de massa. Aqui,
seu espírito foi subvertido. "Nosso pop usou da mesma linguagem, mas transformou-a
em instrumento de denúncia política e social", aponta o crítico
Rodrigo Naves. Ou seja: deu origem a um certo "pop de protesto". A mostra contempla
vários exemplos disso. De Tozzi, há pinturas que aludem à
realidade da época, como Ocorrência 3114. A cena de uma viatura
prestes a colidir com uma jovem esparramada na rua é uma alusão
debochada à perseguição dos opositores do regime pelas forças
policiais. É possível conferir ainda uma tela da série em
que Antonio Henrique Amaral explora as bananas como metáforas do período
de arbítrio – uma marca de sua obra.
O marchand Ricardo Camargo, organizador de Vanguarda Tropical, acompanha
os artistas dessa geração desde seus anos áureos – e tem
sido também um dos responsáveis pelo resgate deles. "Quem comprou
obras desse período por uma ninharia alguns anos atrás fez um excelente
negócio", diz. Uma das razões para essa produção ter
sido tão desprezada é que os artistas ficaram espremidos entre tendências
de maior apelo. A década de 1960 foi de grande efervescência para
as artes plásticas no país. Os adeptos da pop art marcaram presença
nas exposições que são tidas como divisores de águas
das vanguardas naquele momento, como Opinião 65 e Nova Objetividade
Brasileira. Sua obra, no entanto, não teve a repercussão internacional
nem a influência sobre as gerações posteriores obtidas por
uma corrente como o neoconcretismo, com Hélio Oiticica e Lygia Clark à
frente. Foram eclipsados, por fim, pelas gerações surgidas a partir
dos anos 1980, já num mercado de arte profissionalizado e globalizado.
Antonio Dias continuou na tona,
é verdade. Mas é uma exceção que confirma a regra.
Ele não teria se tornado um dos mais valorizados artistas brasileiros vivos
se não houvesse trafegado pelas tendências que vieram depois, do
minimalismo à arte conceitual – uma obra dos anos 1980 que integra a exposição
é um testemunho de como ele se reinventou. Rubens Gerchman, por seu turno,
enveredou por uma arte francamente decorativa como forma de sobrevivência
no mercado. Não deixa de ser irônico que suas antigas obras de denúncia
das mazelas sociais – que, vistas pelo prisma de agora, são de um esquerdismo
algo infantil – hoje possam atingir cifras tão respeitáveis.