Qualquer
tentativa de compreender o que foi o século XX, no plano filosófico
e político, passa necessariamente por duas obras: Origens do Totalitarismo
(1951) e Eichmann em Jerusalém (1963), ambas de autoria de Hannah
Arendt, alemã de ascendência judaica. Na primeira – dividida em "Anti-semitismo",
"Imperialismo" e "Totalitarismo" –, ela procura analisar de que modo se forjou
na Europa uma verdadeira máquina de destruição, capaz de
levar ao horror do holocausto. Já no polêmico Eichmann, que
nasceu de uma série de artigos publicados na revista The New Yorker,
Hannah trata da "banalização do mal", a partir do julgamento de
um nazista. Pensadora mas também personagem de um tempo espantosamente
cruel, que sofreu na pele a perseguição do regime de Hitler – obrigada
a fugir da Alemanha devido à sua origem judia, acabou se exilando nos Estados
Unidos --, Hannah construiu uma sólida carreira filosófica baseando-se
em reflexões sobre sua própria época, vale dizer, unindo
pensamento e vivência. Apresentar essa extraordinária figura equilibrando
as duas faces de sua trajetória foi o desafio que se impôs a francesa
Laure Adler na alentada biografia Nos Passos de Hannah Arendt (tradução
de Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques; Record; 644 páginas; 75 reais).
O resultado: um retrato definitivo, escrito com clareza – apesar da complexidade
natural de passagens que se aprofundam em temas discutidos por Hannah –, de uma
das raras vozes femininas a surgir com destaque nos compêndios de filosofia.
Laure Adler não passa
ao largo dos defeitos de Hannah – omitir, às vezes, o peso de contribuições
alheias para suas idéias; quase nunca reconhecer os próprios equívocos;
jamais reconhecer o verdadeiro valor intelectual de seu primeiro marido, Günther
Anders (pseudônimo de Günther Stern), um dos pioneiros no estudo da
ficção do checo Franz Kafka. A admiração, no entanto,
se sobrepõe aos defeitos.
Nascida em 1906, no subúrbio de Linden, em Hannover, Johannah Arendt foi
uma menina precoce. Quando o pai morreu, em 1913, não havia completado
7 anos de idade; mesmo assim, procurou consolar a mãe: "Pense – isso acontece
com muitas mulheres", disparou, para estupefação da viúva.
Na Universidade Marburg, ela conheceria Martin Heidegger, com quem iria iniciar
um complicado relacionamento amoroso: o professor era casado e nem de longe cogitava
separar-se da esposa. Em 1933, Heidegger aderiu ao nazismo e Hannah, depois de
passar oito dias na prisão, deixou seu país natal. Morou em Paris,
com Günther Stern, e, em 1941, já unida a um novo homem, Heinrich
Blücher, e depois de uma estada em Portugal, sobrevivendo de grão-de-bico
e repolho, conseguiu chegar aos Estados Unidos, onde fixaria residência,
naturalizando-se americana em 1951.
Não por acaso, é essa fase da vida de Hannah que constitui o ponto
alto da biografia de Laure Adler: foi nos Estados Unidos que ela escreveu seus
livros de vulto. O relato do caso Adolf Eichmann é particularmente rico
em detalhes acerca da impaciência de Arendt diante das sessões do
tribunal e da celeuma provocada ao abordar em seu texto a conduta dos Conselhos
Judaicos, que no início da II Guerra haviam aceitado fazer um inventário
para os nazistas de suas comunidades, o que facilitou a repressão aos judeus.
Hannah costumava despertar
paixões em homens e mulheres. Ela nunca cedeu às investidas do romancista
austríaco Hermann Broch e também não aceitou se entregar
ao poeta inglês (e homossexual) W.H. Auden, que disse amá-la; já
com Hilde Fränkel, companheira do filósofo Paul Tillich, envolveu-se
intimamente. Blücher – que teria formulado o conceito de "banalidade do mal"
– sabia da relação entre as duas.
A amizade autêntica era um bem precioso para Hannah. Karl Jaspers, que orientou
sua tese de doutorado, foi um de seus amigos eternos: só se separaram com
a morte dele, em 1969. A escritora americana Mary McCarthy, igualmente, fez parte
desse grupo seleto; a correspondência entre ambas é um documento
valioso, que Adler talvez pudesse ter explorado mais. Quando Hannah morreu, em
1975, foi Mary quem assumiu a tarefa de organizar seus datiloscritos e editar
A Vida do Espírito, a última obra da filósofa – que,
injustamente, não gostava de ser chamada dessa maneira.
A BANALIDADE DO MAL
Um dos conceitos fundamentais de Hannah Arendt,
a "banalidade do mal", aparece em Eichmann em Jerusalém. Ela voltou
ao tema em uma conferência de 1970:
"Há
alguns anos, em um relato sobre o julgamento
de Eichmann em Jerusalém, mencionei a
'banalidade do mal'. Por mais monstruosos que fossem os atos, o agente não
era nem monstruoso nem demoníaco; a única característica
específica que se podia detectar em seu passado, bem como em seu comportamento
durante o julgamento e o inquérito policial que o precedeu, afigurava-se
como algo totalmente negativo: não se tratava de estupidez, mas de uma
curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar".