Um autor de ficção que desejasse inventar
para um personagem uma vida dupla dificilmente se sairia melhor do que o francês
Jean-Claude Romand – que não era nem escritor nem qualquer outra coisa.
A partir de seu segundo ano na faculdade de medicina, quando perdeu um dos exames
finais, Romand começou a inventar uma mentira que terminaria por se constituir
em sua vida real. Primeiro, escondeu dos colegas que faltara à prova e
que já não fazia mais parte do curso. Continuou a freqüentar
as aulas, "formou-se" e alardeou ter arrumado emprego na Organização
Mundial de Saúde (OMS) como pesquisador graduado. Casou-se com a farmacêutica
Florence, teve uma filha e um filho e formou um círculo de amigos em sua
cidadezinha, colada à fronteira francesa com a Suíça. Todas
as manhãs, beijava a família e saía para trabalhar. Desse
momento até retornar para casa, Romand existia em seu limbo secreto. Às
vezes, atravessava mesmo a fronteira e entrava, como visitante, na OMS, onde assistia
a palestras ou recolhia impressos gratuitos que largava no banco de trás
do carro. Noutros dias, parava num acostamento qualquer e ali ficava, hora após
hora, lendo publicações médicas, comendo sanduíches
ou cochilando. O dinheiro de Romand vinha de seus pais, sogros e outros parentes.
Ele dizia que, como funcionário da OMS, tinha direito a investimentos especiais
em bancos suíços. Pegava as economias deles e, com elas, sustentava
um estilo de vida compatível com o de um cientista que tem na agenda encontros
com ministros. Romand alimentou essa ficção durante cerca de quinze
anos, sem que nem Florence desconfiasse dele. Quando suas acrobacias financeiras
ameaçaram delatá-lo, ele matou a mulher a bordoadas, assassinou
os pais e os filhos a tiros e ateou fogo à casa, julgando que morreria
no incêndio. Mas sobreviveu e foi desmascarado, num episódio que
estarreceu a França – e que o escritor Emmanuel Carrère reconstitui,
desde suas origens nebulosas, em O Adversário (tradução
de Marcos de Castro; 208 páginas; 30 reais; Record).
Emmanuel
Carrère se correspondeu assiduamente com Romand antes e depois de seu julgamento.
Pelo desatino do crime, e por ter nascido de uma interação direta
e prolongada com o criminoso, O Adversário (que rendeu um bom filme
com Daniel Auteuil) é freqüentemente comparado ao clássico
A Sangue Frio. Mas nem com muita boa vontade se poderia equipará-lo
à investigação do americano Truman Capote sobre o massacre
de uma família. Capote entrevistou toda e qualquer pessoa que tivesse alguma
ligação com o caso, revirou o passado dos dois assassinos e esteve
cara a cara com eles em dezenas de ocasiões. Com um deles, chegou a desenvolver
uma estranha amizade, repleta de sobretons sexuais e oportunistas. Ao fim dos
quase seis anos em que se debruçou sobre o trabalho, havia produzido uma
obra sem precedentes: a reconstituição de um crime verdadeiro que
não se baseava nem no sensacionalismo nem na exculpação social
dos criminosos, como era regra nesse gênero (que desde o século XIX
se provara dos mais populares). Capote refez o trajeto psicológico, por
assim dizer, que terminou por levar todas aquelas pessoas a se encontrarem, de
forma terrível, numa mesma hora e lugar – e inaugurou, com isso, toda uma
nova vertente da literatura dedicada ao crime verdadeiro (veja
quadro).
É
nesse sentido, então, que O Adversário pertence à
categoria de A Sangue Frio. Embora a reportagem de Carrère seja
muito menos extensa que a de Capote, e seu senso crítico quanto a seu personagem
bem menos aguçado, a missão que seu livro se propõe, e em
grande medida cumpre, é a de compreender como Romand, criado por gente
austera e honesta, chegou aonde chegou.
O
retrato que emerge de sua pesquisa inclui isolamento dentro da família,
inadequação sexual (vários amigos se recordam de que Florence
rompera o namoro com Romand, a certa altura, por sentir aversão a seu corpo
"úmido" e "balofo", e sabe-se lá a que mais) e mitomania avançada:
mal inventava uma mentira e Romand já se convencia dela. Mas o autor lembra
que, durante todo esse tempo, Romand agiu também como um escroque comum,
que roubou o dinheiro de pessoas idosas e crédulas. É nas ocasiões
em que essas duas dimensões – a da perturbação mental e a
da desonestidade – se sobrepõem que o livro é mais bem-sucedido.
E são elas, também, que explicam o título escolhido por Carrère.
A expressão "o adversário", em seu sentido bíblico, designa
não um oponente comum, mas o maior de todos – Satã, ou simplesmente
o mal. Um inimigo que Romand não quis, não pôde ou não
soube combater.