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Edição 2007

9 de maio de 2007
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Inimigo íntimo

Em O Adversário, a história verídica de um
homem que durante anos fingiu uma vida, e
então matou a família para ocultar a verdade


Isabela Boscov


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Quadro: Crimes terríveis em ótima prosa
Exclusivo on-line
Trecho do livro

Um autor de ficção que desejasse inventar para um personagem uma vida dupla dificilmente se sairia melhor do que o francês Jean-Claude Romand – que não era nem escritor nem qualquer outra coisa. A partir de seu segundo ano na faculdade de medicina, quando perdeu um dos exames finais, Romand começou a inventar uma mentira que terminaria por se constituir em sua vida real. Primeiro, escondeu dos colegas que faltara à prova e que já não fazia mais parte do curso. Continuou a freqüentar as aulas, "formou-se" e alardeou ter arrumado emprego na Organização Mundial de Saúde (OMS) como pesquisador graduado. Casou-se com a farmacêutica Florence, teve uma filha e um filho e formou um círculo de amigos em sua cidadezinha, colada à fronteira francesa com a Suíça. Todas as manhãs, beijava a família e saía para trabalhar. Desse momento até retornar para casa, Romand existia em seu limbo secreto. Às vezes, atravessava mesmo a fronteira e entrava, como visitante, na OMS, onde assistia a palestras ou recolhia impressos gratuitos que largava no banco de trás do carro. Noutros dias, parava num acostamento qualquer e ali ficava, hora após hora, lendo publicações médicas, comendo sanduíches ou cochilando. O dinheiro de Romand vinha de seus pais, sogros e outros parentes. Ele dizia que, como funcionário da OMS, tinha direito a investimentos especiais em bancos suíços. Pegava as economias deles e, com elas, sustentava um estilo de vida compatível com o de um cientista que tem na agenda encontros com ministros. Romand alimentou essa ficção durante cerca de quinze anos, sem que nem Florence desconfiasse dele. Quando suas acrobacias financeiras ameaçaram delatá-lo, ele matou a mulher a bordoadas, assassinou os pais e os filhos a tiros e ateou fogo à casa, julgando que morreria no incêndio. Mas sobreviveu e foi desmascarado, num episódio que estarreceu a França – e que o escritor Emmanuel Carrère reconstitui, desde suas origens nebulosas, em O Adversário (tradução de Marcos de Castro; 208 páginas; 30 reais; Record).

Emmanuel Carrère se correspondeu assiduamente com Romand antes e depois de seu julgamento. Pelo desatino do crime, e por ter nascido de uma interação direta e prolongada com o criminoso, O Adversário (que rendeu um bom filme com Daniel Auteuil) é freqüentemente comparado ao clássico A Sangue Frio. Mas nem com muita boa vontade se poderia equipará-lo à investigação do americano Truman Capote sobre o massacre de uma família. Capote entrevistou toda e qualquer pessoa que tivesse alguma ligação com o caso, revirou o passado dos dois assassinos e esteve cara a cara com eles em dezenas de ocasiões. Com um deles, chegou a desenvolver uma estranha amizade, repleta de sobretons sexuais e oportunistas. Ao fim dos quase seis anos em que se debruçou sobre o trabalho, havia produzido uma obra sem precedentes: a reconstituição de um crime verdadeiro que não se baseava nem no sensacionalismo nem na exculpação social dos criminosos, como era regra nesse gênero (que desde o século XIX se provara dos mais populares). Capote refez o trajeto psicológico, por assim dizer, que terminou por levar todas aquelas pessoas a se encontrarem, de forma terrível, numa mesma hora e lugar – e inaugurou, com isso, toda uma nova vertente da literatura dedicada ao crime verdadeiro (veja quadro).

É nesse sentido, então, que O Adversário pertence à categoria de A Sangue Frio. Embora a reportagem de Carrère seja muito menos extensa que a de Capote, e seu senso crítico quanto a seu personagem bem menos aguçado, a missão que seu livro se propõe, e em grande medida cumpre, é a de compreender como Romand, criado por gente austera e honesta, chegou aonde chegou.

O retrato que emerge de sua pesquisa inclui isolamento dentro da família, inadequação sexual (vários amigos se recordam de que Florence rompera o namoro com Romand, a certa altura, por sentir aversão a seu corpo "úmido" e "balofo", e sabe-se lá a que mais) e mitomania avançada: mal inventava uma mentira e Romand já se convencia dela. Mas o autor lembra que, durante todo esse tempo, Romand agiu também como um escroque comum, que roubou o dinheiro de pessoas idosas e crédulas. É nas ocasiões em que essas duas dimensões – a da perturbação mental e a da desonestidade – se sobrepõem que o livro é mais bem-sucedido. E são elas, também, que explicam o título escolhido por Carrère. A expressão "o adversário", em seu sentido bíblico, designa não um oponente comum, mas o maior de todos – Satã, ou simplesmente o mal. Um inimigo que Romand não quis, não pôde ou não soube combater.

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