O hipocondríaco é
aquele sujeito capaz de confundir dor de cabeça com tumor cerebral
e apavorar-se com uma tosse que não passa: nesse caso, a maioria pensa
se tratar de tuberculose ou de um câncer de pulmão, de acordo
com os especialistas ouvidos por VEJA.
Monica Weinberg
Em
apenas 5% dos casos o temor dos pacientes de sofrer de uma doença grave
é confirmado nos consultórios médicos. "Aparece gente reclamando
de dor no peito só porque soube de um amigo próximo que sofreu infarto",
relata o cardiologista Elias Knobel, do Hospital Albert Einstein, em São
Paulo. Uma parte dos desesperados pacientes de Knobel certamente sofre de hipocondria,
um distúrbio psiquiátrico que se manifesta em vários graus
e tem uma característica-chave: o paciente nunca se convence diante de
um diagnóstico positivo. Restam ainda os pacientes descritos como "alarmistas"
– eles não sofrem exatamente de uma síndrome, mas, como os outros,
cultivam o hábito de piorar o cenário. A pedido de VEJA, os especialistas
fizeram uma lista com seis dos sintomas físicos que os aflitos mais costumam
confundir com doenças gravíssimas – o que, felizmente, na maioria
das vezes não corresponde à realidade.
SINTOMA:
DOR NO PEITO
O
QUE MAIS TEMEM OS HIPOCONDRÍACOS: estar
num processo de infarto CAUSAS
MAIS PROVÁVEIS PARA O SINTOMA, SEGUNDO OS ESPECIALISTAS: em cerca
de 80% dos casos, a dor no peito não tem relação com problemas
cardíacos, mas, sim, com um conjunto heterogêneo de fatores: de refluxo
gástrico a ansiedade e dores musculares. A dor acompanhada de azia costuma
ser sinal de refluxo. Já a sensação de pontadas em geral
tem origem muscular QUANDO SE
PREOCUPAR: a dor típica de um infarto é a de um aperto
no peito. Ela costuma partir da região do coração e migrar
para os braços, a mandíbula e as costas. Uma dor dessa natureza,
que persista por mais de cinco minutos, é motivo suficiente para procurar
o pronto-socorro SUGESTÃO
DOS ESPECIALISTAS: como medida preventiva, sedentários, fumantes
e hipertensos com mais de 45 anos devem estar sob acompanhamento médico
regular
SINTOMA:SEDE CRÔNICA
O
QUE MAIS TEMEM OS HIPOCONDRÍACOS: sofrer de diabetes tipo 2 CAUSAS MAIS PROVÁVEIS PARA O
SINTOMA, SEGUNDO OS ESPECIALISTAS: a prática diária de
exercícios físicos e a ingestão de alguns dos medicamentos
mais prescritos nos consultórios médicos, como diuréticos
e antidepressivos, são dois hábitos que estimulam a sede. Outra
informação aos exagerados de plantão: essa é uma sensação
comum em ambientes quentes e com baixa umidade no ar QUANDO
SE PREOCUPAR: o diabetes tipo 2 provoca, além de sede crônica,
um conjunto típico de sintomas: aumento de apetite, perda de peso, fadiga
e, sobretudo, uma permanente vontade de urinar. Se a sede vier associada a um
deles, recomenda-se procurar o médico. Ele deve indicar um teste simples
– de urina ou de sangue – para esclarecer a questão SUGESTÃO DOS ESPECIALISTAS: aos atletas, beber até
3 litros de água por dia. Às outras pessoas, 2 litros diários
é uma boa dose. Por via das dúvidas, o exame de diabetes tipo 2
deve ser feito, periodicamente, depois dos 50 anos e nos casos de obesidade
SINTOMA:PERDA OCASIONAL DE MEMÓRIA
O QUE MAIS TEMEM
OS HIPOCONDRÍACOS: ser vítima do mal de Alzheimer CAUSAS MAIS PROVÁVEIS PARA O SINTOMA,
SEGUNDO OS ESPECIALISTAS: ele tem origens variadas – de estresse e depressão
a insônia e consumo regular de bebidas alcoólicas. Alguns remédios
(ansiolíticos e antidepressivos) também podem levar a lapsos de
memória. Um dado para os mais aflitos: em apenas 5% das vezes o Alzheimer
aparece em pessoas com menos de 65 anos QUANDO SE PREOCUPAR: se a perda de memória começa
a comprometer de forma decisiva o dia-a-dia do paciente. Nesse caso, pode, sim,
tratar-se de Alzheimer ou, ainda, de outro distúrbio neurológico.
Cabe ao médico investigar para dar a palavra final SUGESTÃO DOS ESPECIALISTAS: dormir pelo menos sete horas
por dia – está provado que surte bom efeito à memória
SINTOMA:DIFICULDADE DE RESPIRAR
O QUE MAIS TEMEM
OS HIPOCONDRÍACOS: sofrer de doença cardiovascular ou de
origem pulmonar CAUSA MAIS PROVÁVEL PARA O SINTOMA, SEGUNDO
OS ESPECIALISTAS: falta de ar é um sinal clássico de ansiedade
– nesse caso, é descrita na literatura médica como "dispnéia
suspirosa" QUANDO SE PREOCUPAR: apenas quando a falta
de ar piorar com um pequeno esforço físico, apresentar-se com outro
sintoma, como a arritmia cardíaca – e intensificar-se depois de 24 horas SUGESTÃO DOS ESPECIALISTAS:
nesse caso, procure um médico, que investigará o problema
por meio de um raio X do tórax e de um eletrocardiograma
SINTOMA: DOR
DE CABEÇA CRÔNICA
O
QUE MAIS TEMEM OS HIPOCONDRÍACOS: ter um tumor na cabeça
ou sofrer de meningite CAUSAS
MAIS PROVÁVEIS PARA O SINTOMA, SEGUNDO OS ESPECIALISTAS: se a
queixa for apenas de uma dor de cabeça que não passa, jamais levantará
no médico a suspeita sobre uma dessas doenças. As duas razões
mais comuns para o sintoma são sinusite e enxaqueca QUANDO
SE PREOCUPAR: a hipótese de um tumor começa a ser levada
a sério se, além da dor de cabeça, o paciente apresenta outros
sintomas, como fraqueza muscular, perda de sensibilidade em regiões do
corpo e distúrbios de visão, fala e audição. Suspeita-se
de meningite, por sua vez, apenas quando há febre alta SUGESTÃO DOS ESPECIALISTAS: procurar o médico caso
a dor cresça de intensidade e persista mais de uma semana. Para tirar a
questão a limpo, ele poderá prescrever uma tomografia do cérebro
e uma ressonância magnética
SINTOMA:
TOSSE CONSTANTE
O QUE MAIS TEMEM OS HIPOCONDRÍACOS:
ter câncer de pulmão ou padecer de tuberculose CAUSAS
MAIS PROVÁVEIS PARA O SINTOMA, SEGUNDO OS ESPECIALISTAS: em geral,
trata-se de resquício de uma gripe ou resfriado. Sinusite – aquela inflamação
dos seios da face deflagrada pela gripe, e que dura semanas – é outra razão
comum para o sintoma QUANDO SE PREOCUPAR: as doenças
das quais se teme sofrer vêm sempre acrescidas de outros sintomas. Nos casos
do câncer de pulmão, a tosse (seca e com sangue) é acompanhada
de falta de ar. A tuberculose, por sua vez, provoca, além da tosse (com
sangue), febre, suor excessivo e emagrecimento SUGESTÃO DOS ESPECIALISTAS: uma tosse que persista mais
de um mês pede a palavra de um especialista. Na maioria das vezes, trata-se
de uma inflamação – e por essa razão é tratada com
antibióticos
FONTES
CONSULTADAS POR VEJA: Antônio Carlos Carvalho(cardiologista da Universidade Federal de São Paulo); Elias
Knobel(cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein); Paulo
Olzon(clínico geral da Universidade Federal de São
Paulo); Sergio Daniel Simon(coordenador do departamento
de oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein)