O
pontífice que chega ao Brasil não deve protagonizar uma inflexão
nos rumos da Igreja. Mas ele pode fazer com que os bispos participem mais
das decisões do Vaticano
Há
homens talhados para brilhar no palco e outros que se amoldam melhor aos bastidores.
Da primeira extração, João Paulo II foi um gigante na arte
de galvanizar multidões. Em sua primeira fala como papa, ele levou ao delírio
os fiéis que se espremiam na Praça de São Pedro, em Roma,
ao proclamar: "Não tenham medo!" um recado aos cidadãos,
católicos ou não, então oprimidos pelas ditaduras comunistas
no Leste Europeu, entre os quais os seus compatriotas da Polônia. Até
se tornar Bento XVI, em 2005, num conclave cuja brevidade surpreendeu os vaticanistas
e revelou a escassez de cardeais com estatura intelectual e política para
ascender ao Trono de Pedro, o alemão Joseph Ratzinger parecia destinado
às coxias da Cúria Romana de onde, vez por outra, assomaria
à cena apenas para rugir (de modo figurado, porque a voz do panzer tem
a doçura da de um pároco de aldeia) contra quem desafiava os dogmas
reafirmados pela Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida
por ele. Mas eis que, como única opção tanto terrena como
do Espírito Santo, Ratzinger sucedeu a João Paulo II. E lá
apareceu, no balcão da Basílica de São Pedro, a figura franzina
a vestir a túnica papal, numa tarde fria da primavera romana. "Um simples
e humilde trabalhador na vinha do Senhor", definiu-se, num anúncio sem
pompa nem entusiasmo para tamanha circunstância. Passados dois anos de pontificado,
o papa Bento XVI fará sua primeira viagem transoceânica. Ele desembarcará
no Brasil nesta quarta-feira, 9, e permanecerá no país até
domingo 13. A visita se restringirá a São Paulo. Os compromissos
principais do papa serão a missa de canonização de frei Galvão,
o primeiro santo 100% nacional, na sexta-feira 11, e a inauguração
da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, horas
antes de sua partida.
Os brasileiros que
esperam ser "energizados" pela presença de Bento XVI (os depoimentos televisivos
são abundantes nesse sentido) talvez se decepcionem. Embora se mostre afável
e dê a perceber certo contentamento em meio às ovações,
ele não adquiriu magnetismo na função e tampouco aprendeu
a fazer números para a platéia (recorde-se João Paulo II,
em 1997, na sua terceira e última visita ao Brasil, imitando Carlitos com
a bengala). Comporta-se realmente como um simples e humilde trabalhador na vinha
do Senhor, transportado quase que compulsoriamente ao palco do Vaticano. "O papa
não deve emitir luz própria. Deve ser simples eco da luz de Cristo",
disse ele em sua homilia de início de pontificado. Luz pode não
ter eco, mas é certo que Bento XVI é o papa do anticlímax.
Na audiência aos jornalistas encarregados de fazer a cobertura do conclave
que o elegeu, no Auditório Paulo VI, o ambiente festivo desvaneceu-se quando
de sua aparição. Ele leu uma mensagem de agradecimento, pediu que
todos rezassem um pai-nosso e saiu rapidamente. A única marca que deixou
na ocasião foi a de seus sapatos vermelhos, muito evidentes por causa da
túnica curta demais, costurada às pressas depois da sua eleição
fato que, consta, o irritou, porque cultiva pequenas vaidades no vestuário
(limitadíssimo pelo cargo) e nos acessórios que, de vez em quando,
pode exibir. Entre seus pecadilhos está o de gostar de óculos escuros
de grife.
AP
Com o primeiro-ministro Erdogan: o turco divulgou
um apoio que o papa não deu
Aos
80 anos, Bento XVI é um papa de transição. Ou seja, de um
pontificado que não deverá estender-se por muito tempo e dificilmente
terá qualquer tipo de efervescência. Não se esperem, portanto,
mudanças espetaculares nos aspectos eclesiástico, doutrinário
ou político o que, de resto, não aconteceria ainda que Bento
XVI fosse jovem. Não há hipótese, por exemplo, de que o Vaticano
relativize seus férreos valores morais, como demonstrou o papa na sua primeira
exortação apostólica, ao dizer, entre outras coisas, que
o segundo casamento é uma "chaga" social. Se isso resultar como
vem ocorrendo em sangria de fiéis, paciência. Na visão
de Bento XVI, melhor apascentar um rebanho menor, mas que persevera nos mandamentos
da Igreja, do que contabilizar um largo número de ovelhas desgarradas.
As inflexões radicais são improváveis, mas isso não
significa que não haverá mudanças. "Com Bento XVI, ocorrerá
uma valorização das conferências episcopais e uma descentralização
do poder romano", acredita Giancarlo Zizola, renomado vaticanista italiano.
A necessidade de alguma colegialidade na determinação
dos rumos da Igreja, porque é disso que se trata, foi uma das conclusões
do Concílio Vaticano II, realizado na primeira metade da década
de 60. Desde então, contudo, o que se verificou foi uma maior centralização
das decisões. Há que levar em conta que, a pesar na direção
contrária à colegialidade, contribuiu bastante a excrescência
chamada Teologia da Libertação, que, nos anos 70 e 80, contaminou
boa parte do clero latino-americano e uma porção não desprezível
das batinas de latitudes temperadas. Como permitir que bispos intoxicados com
a mistura de marxismo e catolicismo pudessem interferir nos caminhos da Igreja?
Mas, depois da faxina promovida nos quadros eclesiásticos, durante o pontificado
de João Paulo II, essa é uma questão resolvida ainda
que, vez por outra, seja preciso puxar a orelha de padrecos como o salvadorenho
Jon Sobrino, que insiste na tal Teologia da Libertação. Em março,
o Vaticano, sempre vigilante, disparou uma notificação contra Sobrino,
na qual afirma que os livros dele trazem "notáveis divergências com
a fé na Igreja". Que ninguém pense que o Ratzinger papa é
mais permissivo do que o Ratzinger prefeito da Congregação para
a Doutrina da Fé.
Roberto Setton
Imagem de frei Galvão: a missa de canonização
será na sexta-feira
Na
abertura da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe,
prevê-se que Bento XVI retomará o tema da colegialidade e enfatizará
os perigos embutidos em visões teológicas alienígenas à
doutrina da Igreja. Ganhará muitos aplausos e raros muxoxos entre os bispos
brasileiros. É opinião formada de vários deles que a Teologia
da Libertação causou um dano tremendo à Igreja no país,
inclusive por distanciar a instituição de sua grei. Em referência
ao avanço dos pentecostais no Brasil, um dos bispos costuma dizer que,
enquanto muitos padres tentavam inculcar a Teologia da Libertação,
os fiéis queriam, na verdade, a "Teologia da Prosperidade" daí
também a migração para as hostes evangélicas, que
fazem o elogio da riqueza.
Neste biênio
de pontificado, Bento XVI cumpriu à risca o que se esperava dele. Só
saiu do roteiro quando, em lugar do papa, falou mais alto o erudito. Em setembro
do ano passado, em aula magna proferida na Universidade de Regensburg, na Alemanha,
para exemplificar como a fé deve andar de mãos dadas com a razão,
Bento XVI citou uma frase de Manuel II Paleólogo, imperador bizantino do
século XIV: "Mostre-me o que Maomé trouxe de novo e encontraremos
apenas coisas más e desumanas, como a ordem para espalhar pela espada a
fé que ele pregava". O já ebuliente mundo muçulmano entrou
em transe igrejas cristãs foram atacadas na Palestina e uma freira
foi morta a tiros na Somália. Bento XVI tentou contemporizar, dizendo que
não era bem assim, muito pelo contrário, e que a frase do Paleólogo
havia sido tirada do contexto. As relações com o Islã só
baixariam de temperatura depois da visita do papa à Turquia, em dezembro.
Na seqüência do encontro com Bento XVI, o primeiro-ministro turco,
Recep Tayyip Erdogan, divulgou que o papa apoiava a entrada do país na
União Européia. Não era verdade. O Vaticano calou-se. Manuel
II Paleólogo, nunca mais.
Panzer, mas com estilo
Franco Origlia/Getty Images
Com
o gorro de veludo e pele de arminho, ideal para dias frios: o último a
utilizar o acessório havia sido João XXIII
Paolo
Cocco/AFP
A
túnica curta realçou os sapatos vermelhos. Bento XVI não
gostou, mas a imagem já faz parte de seu inventário