Durante o século XX, os líderes populistas da América Latina levantaram
bandeiras marxistas, praguejaram contra o imperialismo e prometeram tirar seus
povos da pobreza. Sem exceção, todas essas políticas e ideologias fracassaram,
o que levou ao recuo dos homens fortes. Agora, uma nova geração de revolucionários
tenta ressuscitar os métodos ineficazes de seus antecessores.
Juan
Barreto/AFP
Na
reunião de Los Panchos: Chávez, Morales e o cubano Carlos Lage (no
centro) são expoentes da esquerda ainda presa à mentalidade
da Guerra Fria. Outra esquerda, que governa no Chile e no Brasil, tenta evitar
os erros do passado
Dez
anos atrás, o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, o cubano Carlos Alberto
Montaner e eu escrevemos Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, livro
que criticava os líderes políticos e formadores de opinião
que, apesar de todas as provas em contrário, se apegam a mitos políticos
mal concebidos. A espécie "Idiota", dizíamos então, era responsável
pelo subdesenvolvimento da América Latina. Tais crenças revolução,
nacionalismo econômico, ódio aos Estados Unidos, fé no governo
como agente da justiça social, paixão pelo regime do homem forte
em lugar do regime da lei tinham origem, em nossa opinião, no complexo
de inferioridade. No fim dos anos 1990, parecia que os idiotas estavam finalmente
em retirada. Mas o recuo durou pouco. Hoje, a espécie retornou na forma
de chefes de estado populistas empenhados em aplicar as mesmas políticas
fracassadas no passado. Em todo o mundo, há formadores de opinião
prontos a lhes dar credibilidade e simpatizantes ansiosos por conceder vida nova
a idéias que pareciam extintas.
Por causa da inexorável passagem do tempo, os jovens idiotas latino-americanos
preferem as baladas pop de Shakira aos mambos do cubano Pérez Prado e não
cantam mais hinos da esquerda, como A Internacional e Hasta Siempre,
Comandante. Mas eles ainda são os mesmos descendentes de migrantes
rurais, de classe média e profundamente ressentidos com a vida fútil
dos ricos que vêem nas revistas de fofocas, folheadas discretamente nas
bancas. Universidades públicas fornecem a eles uma visão classista
da sociedade, baseada na idéia de que a riqueza precisa ser tomada das
mãos daqueles que a roubaram. Para esses jovens idiotas, a situação
atual da América Latina é resultado do colonialismo espanhol e português,
seguido do imperialismo dos Estados Unidos. Essas crenças básicas
fornecem uma válvula de segurança para suas queixas contra uma sociedade
que oferece pouca mobilidade social. Freud poderia dizer que eles têm o
ego fraco, incapaz de fazer a mediação entre seus instintos e a
sua idéia de moralidade. Em lugar disso, suprimem o conceito de que a ação
predatória e a vingança são erradas e racionalizam a própria
agressividade com noções elementares do marxismo.
Juan
Barreto/AFP
Empregados
de estatal na comemoração do 1º de Maio na Venezuela: apesar do lucro fácil do
petróleo, a pobreza continua a mesma e o crime aumentou no governo Chávez
Os idiotas latino-americanos tradicionalmente se identificam com os caudilhos,
figuras autoritárias quase sobrenaturais que têm dominado a política
da região, vociferando contra a influência estrangeira e as instituições
republicanas. Dois líderes, particularmente, inspiram o Idiota de hoje:
os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia.
Chávez é visto como o perfeito sucessor do cubano Fidel Castro (a
quem o Idiota também admira): ele chegou ao poder pelas urnas, o que o
libera da necessidade de justificar a luta armada, e tem petróleo em abundância,
o que significa que pode bancar suas promessas sociais. O Idiota também
credita a Chávez a mais progressista de todas as políticas
ter colocado as Forças Armadas, paradigma do regime oligárquico,
para trabalhar em programas sociais. De sua parte, o boliviano Evo Morales tem
um apelo indigenista. Para o Idiota, o antigo plantador de coca é a reencarnação
de Tupac Katari, um rebelde aimará do século XVIII que, antes de
ser executado pelas autoridades coloniais espanholas, profetizou: "Eu voltarei
e serei milhões". O Idiota acredita em Morales quando ele alega falar pelas
massas indígenas, do sul do México aos Andes, que buscam reparação
pela exploração sofrida em 300 anos de domínio colonial e
outros 200 anos de oligarquia republicana.
A visão de mundo do Idiota, vez por outra, encontra eco entre intelectuais
ilustres na Europa e nos Estados Unidos. Esses pontificadores aliviam o peso na
consciência apoiando causas exóticas em países em desenvolvimento.
Suas opiniões atraem fãs entre os jovens do Primeiro Mundo, para
os quais a fobia da globalização oferece a perfeita oportunidade
de encontrar satisfação espiritual na lamentação populista
do Idiota latino-americano contra o perverso Ocidente.
Não há nada de original no fato de intelectuais do Primeiro Mundo
projetarem suas utopias sobre a América Latina. Cristóvão
Colombo chegou por acaso à América em um tempo em que as idéias
utópicas da Renascença estavam em voga. Desde o início, os
conquistadores descreveram as terras encontradas como nada menos que paradisíacas.
O mito do bom selvagem a idéia de que os nativos do Novo Mundo tinham
uma bondade imaculada, não manchada pelas maldades da civilização
impregnou a mente européia. A tendência de usar a América
como uma válvula de escape para a frustração com os insuportáveis
conforto e abundância da civilização ocidental continuou por
séculos. Pelos anos 60 e 70, quando a América Latina estava repleta
de organizações terroristas marxistas, esses grupos violentos encontraram
apoio maciço na Europa e nos Estados Unidos entre pessoas que nunca teriam
aceitado um regime totalitário no estilo de Fidel Castro em seu próprio
país.
O atual ressurgimento
do Idiota latino-americano precipitou o retorno de seus correspondentes: os idiotas
paternalistas europeus e americanos. Mais uma vez, importantes acadêmicos
e escritores estão projetando seu idealismo, sua consciência cheia
de culpa ou as queixas contra sua própria sociedade no cenário latino-americano,
emprestando seu nome a abomináveis causas populistas. Ganhadores do Nobel,
incluindo o dramaturgo inglês Harold Pinter, o escritor português
José Saramago e o economista americano Joseph Stiglitz, lingüistas
americanos como Noam Chomsky e sociólogos como James Petras, jornalistas
europeus como Ignacio Ramonet e alguns de veículos como Le Nouvel Observateur,
na França, Die Zeit, na Alemanha, e Washington Post, nos
Estados Unidos, estão mais uma vez propagando absurdos que moldam as opiniões
de milhões de leitores e santificam o Idiota latino-americano. Esse lapso
intelectual seria praticamente inócuo se não tivesse conseqüências.
Mas, pelo fato de legitimar um tipo de governo que está no âmago
do subdesenvolvimento econômico e político da América Latina,
esse lapso se constitui numa forma de traição intelectual.
UM AMOR ESTRANGEIRO
O exemplo mais notável da simbiose entre alguns intelectuais ocidentais
e os caudilhos latino-americanos é a relação amorosa entre
os idiotas americanos e europeus e Hugo Chávez. O líder venezuelano,
apesar das tendências nacionalistas, não hesita em citar estrangeiros
em seus pronunciamentos para fortalecer suas opiniões. Basta ver o discurso
de Chávez na ONU, no ano passado, no qual exaltou o livro de Chomsky Hegemonia
ou Sobrevivência: a Busca da América pelo Domínio Global.
Do mesmo modo, em apresentações no Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT), Chomsky apontou a Venezuela como um exemplo para o mundo
em desenvolvimento, elogiando políticas sociais bem-sucedidas nas áreas
de educação e assistência médica, que teriam resgatado
a dignidade dos venezuelanos. Ele também expressou admiração
pelo fato de "a Venezuela ter desafiado com sucesso os Estados Unidos, um país
que não gosta de desafios, menos ainda quando são bem-sucedidos".
Na realidade, os programas
sociais da Venezuela têm se tornado, com a ajuda dos serviços de
inteligência cubanos, veículos para cooptar e criar dependência
social do governo. Além disso, sua eficácia é suspeita. O
Centro de Documentação e Análise Social da Federação
Venezuelana de Professores, instituto de pesquisas do sindicato da categoria,
relatou que 80% dos domicílios venezuelanos tinham dificuldades em cobrir
as despesas com comida em 2006 a mesma proporção de quando
Chávez chegou ao poder, em 1999, e quando o preço do barril de petróleo
era um terço do atual. Quanto à dignidade das pessoas, a verdade
é que, desde que Chávez se tornou presidente, ocorrem 10.000 homicídios
por ano na Venezuela, dando ao país a maior taxa de assassinatos per capita
do mundo.
Outra nação
pela qual alguns formadores de opinião americanos têm uma queda é
Cuba. Em 2003, o regime de Fidel Castro executou três jovens que haviam
seqüestrado um barco e tentado escapar da ilha. Fidel também mandou
75 ativistas democratas para a prisão por terem emprestado livros proibidos.
Como resposta, James Petras, há anos professor de sociologia da State University
of New York, em Binghamton, escreveu um artigo intitulado "A responsabilidade
dos intelectuais: Cuba, os Estados Unidos e direitos humanos". Em seu texto, que
foi reproduzido por várias publicações esquerdistas em todo
o mundo, defendeu Havana argumentando que as vítimas estavam a serviço
do governo americano.
Conhecido
simpatizante de Fidel, Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique,
jornal francês que advoga qualquer causa sem graça que tenha origem
no Terceiro Mundo, sustenta que a globalização tornou a América
Latina mais pobre. A verdade é que a pobreza foi modestamente reduzida
nos últimos cinco anos. A globalização gera tanta receita
aos governos latino-americanos com a venda de commodities e com os impostos pagos
pelos investidores estrangeiros que eles têm distribuído subsídios
aos mais pobres o que dificilmente é uma solução para
a pobreza a longo prazo.
Com
duas décadas de atraso, Harold Pinter fez uma avaliação espantosa
do governo sandinista em seu discurso de aceitação do Nobel em 2005.
Acreditando talvez que uma defesa dos populistas do passado poderia ajudar os
populistas de hoje, ele disse que os sandinistas tinham "aberto o caminho para
estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista" e que não
havia "registro de tortura" ou de "brutalidade militar oficial ou sistemática"
sob o governo de Daniel Ortega, nos anos 80. Alguém pode se perguntar,
então, por que os sandinistas foram apeados do poder pelo povo da Nicarágua
nas eleições de 1990. Ou por que os eleitores os mantiveram fora
do poder durante quase duas décadas até Ortega se transformar
num travesti político, declarando-se defensor da economia de mercado. Quanto
à negação das atrocidades sandinistas, Pinter faria bem em
lembrar o massacre dos índios misquitos, em 1981, na costa atlântica
da Nicarágua. Sob a fachada de uma campanha de alfabetização,
os sandinistas, com a ajuda de militares cubanos, tentaram doutrinar os misquitos
com a ideologia marxista. Os índios recusaram-se a aceitar o controle sandinista.
Acusando-os de apoiar os grupos de oposição baseados em Honduras,
os homens de Ortega mataram cinqüenta índios, prenderam centenas e
reassentaram à força outros tantos. O ganhador do Nobel deveria
lembrar também que seu herói Ortega se tornou um capitalista milionário
graças à distribuição dos ativos do governo e de propriedades
confiscadas, que os líderes sandinistas repartiram entre si após
a derrota nas eleições de 1990.
O entusiasmo com o populismo latino-americano se estende a jornalistas dos principais
veículos de comunicação. Tome como exemplo algumas matérias
escritas por Juan Forero, do Washington Post. Ele é mais equilibrado
e informado do que os luminares mencionados acima, mas, de vez em quando, revela
um estranho entusiasmo pelo populismo do tipo que está varrendo a região.
Em um artigo recente sobre a generosidade estrangeira de Chávez, ele e
seu colega Peter S. Goodman criaram uma imagem positiva da forma como Chávez
ajuda alguns países a se desfazer da rigidez imposta por agências
multilaterais quando emprestam dinheiro para essas nações poderem
quitar suas dívidas. Defensores dessa política foram citados favoravelmente
e nenhuma menção foi feita ao fato de que o dinheiro do petróleo
da Venezuela pertence ao povo venezuelano, e não a governos estrangeiros
ou entidades alinhadas com Chávez, ou que esses subsídios têm
limitações políticas. É o que se vê no ataque
do presidente da Argentina, Néstor Kirchner, aos Estados Unidos e na louvação
a Chávez, respostas evidentes à promessa feita por Chávez
de comprar novos bônus da dívida argentina.
O PROBLEMA COM O POPULISMO
Observadores estrangeiros estão deixando de compreender um ponto essencial:
o populismo latino-americano nada tem a ver com justiça social. No início,
no século XIX, era uma reação ao estado oligárquico
na forma de movimentos de massa liderados por caudilhos, cujo mantra era culpar
as nações ricas pela má situação da América
Latina. Esses movimentos baseavam sua legitimidade no voluntarismo, no protecionismo
e na maciça redistribuição de riqueza. O resultado, por todo
o século XX, foram governos inchados, burocracias sufocantes, subserviência
das instituições judiciais à autoridade política e
economias parasitárias.
Populistas têm características básicas comuns: o voluntarismo
do caudilho como um substituto da lei, a impugnação da oligarquia
e sua substituição por outro tipo de oligarquia, a denúncia
do imperialismo (com o inimigo sempre sendo os Estados Unidos), a projeção
da luta de classes entre os ricos e os pobres para o terreno das relações
internacionais, a idolatria do estado como uma força redentora dos pobres,
o autoritarismo sob a aparência de segurança de estado e clientelismo,
uma forma de paternalismo pela qual os empregos públicos em oposição
à geração de riqueza são os canais de mobilidade
social e uma forma de manter o voto cativo nas eleições. O legado
dessas políticas é claro: quase metade da população
da América Latina é pobre, com mais de um em cada cinco vivendo
com 2 dólares ou menos por dia. E entre 1 milhão e 2 milhões
de migrantes procurando os Estados Unidos e a Europa a cada ano em busca de uma
vida melhor.
Mesmo na América
Latina parte da esquerda está fazendo a transição, afastando-se
da Idiotice semelhante ao tipo de transição mental que a
esquerda européia, da Espanha à Escandinávia, fez décadas
atrás, quando, de má vontade, abraçou a democracia liberal
e a economia de mercado. Na América Latina, pode-se falar em uma "esquerda
vegetariana" e uma "esquerda carnívora". A esquerda vegetariana é
representada por líderes como o presidente brasileiro, Luiz Inácio
Lula da Silva, o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, e o presidente
costa-riquenho, Oscar Arias. Apesar da retórica carnívora ocasional,
esses líderes têm evitado os erros da antiga esquerda, como uma barulhenta
confrontação com o mundo desenvolvido e a devassidão monetária
e fiscal. Eles se adaptaram à conformidade social-democrata e relutam em
fazer grandes reformas, mas apresentam um passo positivo no esforço para
modernizar a esquerda.
Em
contrapartida, a esquerda "carnívora" é representada por Fidel Castro,
Hugo Chávez, Evo Morales e pelo presidente do Equador, Rafael Correa. Eles
se prendem a uma visão marxista da sociedade e a uma mentalidade da Guerra
Fria que separa o Norte do Sul e buscam explorar as tensões étnicas,
particularmente na região andina. A sorte inesperada com o petróleo
obtida por Hugo Chávez está financiando boa parte dessa empreitada.
A gastronomia de Néstor Kirchner, da Argentina, é ambígua.
Ele está situado em algum ponto entre os carnívoros e os vegetarianos.
Desvalorizou a moeda, instituiu controles de preços e nacionalizou ou criou
empresas estatais nos principais setores da economia. Mas tem evitado excessos
revolucionários e pagou a dívida argentina com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), ainda que com a ajuda do crédito venezuelano. A posição
ambígua de Kirchner tem ajudado Chávez, que preencheu o vácuo
de poder no Mercosul para projetar sua influência na região.
Estranhamente, muitos europeus e americanos "vegetarianos" apóiam os "carnívoros"
da América Latina. Um exemplo é Joseph Stiglitz, que tem defendido
os programas de nacionalização na Bolívia de Morales e na
Venezuela de Chávez. Numa entrevista para a rádio Caracol, da Colômbia,
Stiglitz disse que as nacionalizações não deveriam causar
apreensão porque "empresas públicas podem ser muito bem-sucedidas,
como é o caso do sistema de pensões da Seguridade Social nos Estados
Unidos". Stiglitz, porém, não defendeu a nacionalização
das principais empresas privadas ou de capital aberto de seu país e parece
ignorar que, do México para baixo, nacionalizações estão
no centro das desastrosas experiências populistas do passado.
Stiglitz também ignora o fato de que na América Latina não
há uma separação real entre as instituições
do estado e o governo. Empresas estatais rapidamente se tornam canais para patronato
político e corrupção. A principal empresa de telecomunicações
da Venezuela tem sido uma história de sucesso desde que foi privatizada,
no início dos anos 1990. O mercado de telecomunicações experimentou
um crescimento de 25% nos últimos três anos. Em contrapartida, a
gigante estatal de petróleo tem visto sua receita cair sistematicamente.
A Venezuela produz hoje quase 1 milhão de barris de petróleo menos
do que produzia nos primeiros anos desta década. No México, onde
o petróleo também está nas mãos do governo, o projeto
Cantarell, que representa quase dois terços da produção nacional,
vai perder metade de seu rendimento nos próximos dois anos por causa da
baixa capitalização.
É
realmente importante o fato de que os intelectuais americanos e europeus matam
sua sede pelo exótico promovendo idiotas latino-americanos? A resposta
inequívoca é sim. Uma luta cultural está sendo deflagrada
na América Latina entre aqueles que querem colocar a região
no firmamento global e vê-la emergir como um importante colaborador para
a cultura ocidental, à qual seu destino está associado há
cinco séculos, e aqueles que não conseguem aceitar essa idéia
e resistem. Apesar de a América Latina ter experimentado algum progresso
nos últimos anos, essa tensão está impedindo seu desenvolvimento
em comparação com outras regiões do mundo como o Leste
Asiático, a Península Ibérica ou a Europa Central
que, há pouco tempo, eram exemplos de atraso. Nas últimas três
décadas, a média de crescimento anual do PIB da América Latina
foi de 2,8% contra 5,5% do Sudeste Asiático e a média mundial
de 3,6%.
Esse fraco desempenho
explica por que quase 45% da população ainda está na pobreza
e por que, depois de um quarto de século de regime democrático,
pesquisas feitas na região revelam uma profunda insatisfação
com instituições democráticas e partidos tradicionais. Enquanto
o Idiota latino-americano não for relegado aos arquivos históricos
algo difícil de acontecer enquanto tantos espíritos condescendentes
no mundo desenvolvido continuarem a lhe dar apoio , isso não vai
mudar.
Ganhadores do Nobel também podem ser idiotas
O vencedor do Prêmio Nobel ganha uma viagem
de graça à Escandinávia, uma medalha de ouro, algum
dinheiro e, sobretudo, uma porta para a imortalidade intelectual. Tornar-se um
Nobel, contudo, não deixa ninguém imune à estupidez,
especialmente quando se trata da América Latina.
HAROLD PINTER,
Nobel de Literatura de 2005
FRASE
IGNÓBIL: "Os Estados Unidos finalmente derrubaram o governo sandinista
(...) Os cassinos voltaram ao país. Saúde e educação
gratuitas acabaram. As grandes empresas voltaram com ímpeto"
Discurso de aceitação do Nobel, em Estocolmo
A REALIDADE: Harold, odeio lhe dar a má
notícia, mas a verdade é que foram os eleitores nicaragüenses,
e não o governo americano, que tiraram os sandinistas do poder.
JOSEPH
STIGLITZ, Nobel de Economia de 2001
FRASE IGNÓBIL: "O Chile teve muito sucesso
nos últimos quinze anos... [O país] introduziu controles de capital.
Privatizou apenas parte de suas minas de cobre, e as minas privatizadas não
tiveram um desempenho melhor do que as minas estatais, sendo que os lucros das
minas privatizadas foram enviados para o exterior, enquanto os lucros das minas
estatais puderam ser investidos nos esforços de desenvolvimento da nação"
International Herald Tribune, 14 de fevereiro de 2007
A REALIDADE: Se as políticas que Stiglitz
cita controle de capital, nacionalização de minas e intervenção
estatal na alocação dos lucros gerados pela exportação
de commodities explicam o sucesso do Chile, por que nenhum dos outros paises
latino-americanos que implementaram tais políticas teve a mesma prosperidade?
Sebastian
Willnow/AFP
GÜNTER
GRASS, Nobel de Literatura de 1999
FRASE IGNÓBIL:
"Os cubanos provavelmente não notaram a ausência de direitos liberais...
[porque eles ganharam] ... auto-respeito depois da revolução"
Dissent, outono de 1993
A
REALIDADE: Como Günter se sentiria se trocasse seus direitos liberais
burgueses, incluindo o direito de publicar livros, por um pouquinho da dignidade
cubana?
RIGOBERTA
MENCHU, Nobel da Paz de 1992
FRASE IGNÓBIL: "Para pessoas comuns
como eu, não há diferença entre testemunho, biografia e autobiografia...
eu era uma sobrevivente (...) que tinha de convencer o mundo a olhar para as atrocidades
cometidas em minha terra natal" Entrevista coletiva na sede da ONU,
em 1999
A REALIDADE:
Rigoberta defendia-se das acusações de ter inventado partes de sua
autobiografia para exagerar seu papel de vítima. Por que mentir se havia
tantas histórias terríveis para contar?
*
Álvaro Vargas Llosa é diretor do Centro para a Prosperidade
Global do Instituto Independente, em Washington. Reproduzido com permissão
do Foreign Policy nº 160 (maio/junho 2007) www.foreignpolicy.com.
Copyright 2007, Carnegie Endowment for Internacional Peace