Enfim,
uma boa notícia a respeito do aquecimento global, que ameaça fugir
inteiramente ao nosso controle. Ainda há tempo para conter o processo e
evitar suas conseqüências mais catastróficas, como enchentes,
secas, extinção de espécies, derretimento dos pólos
e outros desastres naturais. A conclusão animadora é do terceiro
relatório divulgado neste ano pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática (IPCC), criado pela ONU para buscar consenso internacional sobre
o assunto. O primeiro relatório, divulgado em fevereiro deste ano, responsabilizou
a atividade humana pelo aquecimento global e advertiu que, mantido o crescimento
atual dos níveis de poluição da atmosfera, a temperatura
média do planeta subirá 4 graus até o fim do século.
O relatório seguinte, apresentado em abril, tratou do potencial catastrófico
do fenômeno e concluiu que ele poderá provocar extinções
em massa, elevação dos oceanos e devastação em áreas
costeiras. A terceira parte do documento da ONU, divulgada na sexta-feira passada,
propõe soluções.
Em linhas gerais, diz o seguinte: se o homem causou o problema, pode também
resolvê-lo. E pode fazê-lo por um preço relativamente modesto
-- pouco mais de 0,12% do produto interno bruto mundial por ano até 2030.
Hoje, a concentração de gases do efeito estufa na atmosfera está
em 425 partes por milhão (ppm). O gasto anual do PIB mundial é necessário
para fazer com que os níveis de concentração desses gases
nocivos se mantenham no máximo na faixa entre 445 e 535 ppm. O 0,12% do
PIB mundial seria gasto tanto pelos governos, para financiar o desenvolvimento
de tecnologias limpas, como pelos consumidores, que precisariam mudar alguns de
seus hábitos. O IPCC calcula que um esforço internacional para tornar
as casas e os edifícios mais eficientes do ponto de vista energético
acarretaria um corte de 30% nas emissões de gases que eles hoje produzem.
Isso seria conseguido com medidas simples, como substituir todas as lâmpadas
incandescentes por fluorescentes, e outras que dependem de políticas públicas,
como o abatimento no imposto de renda para pessoas que instalam painéis
solares -- a exemplo do que já é feito nos Estados Unidos.
Os entusiastas de carros beberrões, como
os utilitários esportivos, poderiam pagar impostos mais altos para financiar
a compra de carros econômicos por parte de outros consumidores. "Agora,
cabe a cada governo eleger os setores e as medidas que achar mais interessantes
e viáveis economicamente. O que não se pode mais é ficar
parado", diz Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético da
Coppe, órgão ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro,
que participou da criação do terceiro relatório do IPCC.
O aquecimento global não será
contido apenas com a publicação do terceiro relatório do
IPCC e sua conclusão de que não sai tão caro reduzir as emissões
de gases do efeito estufa. O documento é apenas um ponto de partida para
balizar ações. Não há nele nenhuma cláusula
que obrigue uma ou outra nação a tomar providências. Também
não se deve tirar de sua leitura a conclusão de que é fácil
controlar o efeito estufa. Para a obtenção de resultados significativos
nos níveis de gases poluentes na atmosfera, o esforço de redução
das emissões precisa ser global. O fracasso do Tratado de Kioto, ao qual
os Estados Unidos, os maiores emissores de CO2 do mundo, não aderiram,
ilustra os problemas colocados diante das tentativas de conter o aquecimento global.
UM GUIA PARA DIMINUIR OS DANOS
As
medidas recomendadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática
(IPCC), da ONU, em seu terceiro relatório para estabilizar os níveis
de concentração de gases do efeito estufa na atmosfera
ENERGIA
Aumentar o uso de energias renováveis para 30% a 35%
da matriz energética. Hoje, elas representam somente 18%
Considerar um aumento de 2 pontos porcentuais no uso de energia nuclear, passando
de 16% de participação em 2005 para 18%
Avançar no uso de tecnologias de captura e armazenamento de gases do efeito
estufa nas usinas que utilizam combustíveis fósseis para produzir
energia
PRÉDIOS
Adotar a construção
de mais prédios "verdes", que façam melhor uso de iluminação
e ventilação naturais. Até 2030, isso pode diminuir em
30% as emissões de gases nocivos desse setor
INDÚSTRIA
Incentivar a substituição de fábricas obsoletas e
poluidoras por indústrias mais eficientes do ponto de vista energético
TRANSPORTE
Expandir o uso de
biocombustíveis para um porcentual entre 5% e 10% do combustível
utilizado no planeta. Hoje, eles representam 1% do consumo mundial Estimular a adoção de
tecnologias mais eficientes como carros híbridos e bicombustíveis
AGRICULTURA
Diminuir as emissões
de metano de algumas culturas, como a de arroz, e das criações de
bovinos Restaurar áreas
degradadas
FLORESTAS
Combater o desmatamento.
Metade do potencial de redução das emissões nos trópicos
está na manutenção das florestas
LIXO
Diminuir a produção de lixo e, ao mesmo tempo, aumentar a
reciclagem Usar o lixo e seus subprodutos,
como o gás metano, na geração de energia