Contas no vermelho,
brigas, demissões eis
a rotina da governadora gaúcha
Ricardo Brito
Jefferson Bernardes/Palácio
A governadora: ameaça de demitir
até secretária da sua cota pessoal
A tucana Yeda Crusius,
a primeira mulher eleita para governar o Rio Grande do Sul,
teve uma vitória fulminante. Faltando duas semanas
para o pleito, a candidata patinava em terceiro lugar nas
pesquisas, estava perdendo apoio dentro do próprio
partido e não tinha mais marqueteiro, que deixara a
campanha acusando a candidata de caloteira. Apesar das adversidades,
numa ascensão surpreendente, Yeda Crusius conseguiu
passar para o segundo turno e acabou vencendo o petista Olívio
Dutra ao receber 54% dos votos do eleitorado gaúcho.
Depois da virada espetacular, que encerrou um período
de doze anos de domínio do PT e do PMDB no governo
gaúcho, a governadora mergulhou num ciclo infernal
que parece não ter fim. Antes mesmo da posse, brigou
com seu vice, o empresário Paulo Feijó, do antigo
PFL. Em apenas quatro meses de governo, já perdeu dois
secretários, reduziu sua bancada na Assembléia
Legislativa e ainda tenta evitar a criação de
CPIs. "Cada crise que aparece eu enfrento. Não contemporizo.
Todos sabem que aqui tem governo", diz ela.
O inferno de Yeda
começou em dezembro passado, quando pediu ao então
governador, Germano Rigotto, que enviasse à Assembléia
Legislativa um pacote para enfrentar a lamentável situação
das finanças do estado. Fechando suas contas no vermelho
há 35 anos, o Rio Grande do Sul tem a maior dívida
e o maior gasto com funcionalismo em relação
à sua receita. O pacote foi rejeitado com o inusitado
apoio do vice, Paulo Feijó. Daí em diante, Yeda
rompeu relações com ele. Já recusou oito
convites para viajar para o exterior, só para não
lhe transmitir o cargo. Na semana retrasada, em outra medida
para acertar as contas, a governadora lançou 1 bilhão
de reais em ações do banco do estado, o Banrisul.
A oposição, novamente, contou com a adesão
do vice, que tem feito denúncias de corrupção
contra dirigentes do banco. A governadora chegou a distribuir
nota acusando Feijó de ser "desequilibrado" e agir
de modo "irresponsável, leviano e inaceitável".
Jefferson Bernardes/AE
Feijó, o vice: rompimento antes
da posse
É impressionante
a velocidade com que se deteriora o apoio político
à governadora, que não teve direito nem aos
clássicos 100 dias de calmaria com que a oposição
costuma presentear o eleito. Mas os problemas de Yeda têm
sido, quase sempre, dentro do seu próprio círculo.
Na Assembléia Legislativa, onde tinha o apoio de 42
dos 55 deputados, sua maioria já está ameaçada.
Quando rompeu com o vice, perdeu o apoio de parlamentares
do velho PFL. A bancada governista caiu para 39. No início
de abril, com apenas três meses de governo, Yeda demitiu
o secretário de Segurança Pública, o
pedetista Enio Bacci, que bateu boca com um delegado num programa
de rádio. Com isso, outro secretário do PDT
pediu demissão e os sete deputados do partido se bandearam
para a oposição e o apoio à governadora
caiu para 32 parlamentares. A demissão mais esperada,
agora, é da secretária do Meio Ambiente, Vera
Callegaro. Sem vínculo partidário, ela é
da cota pessoal da governadora.