"Alguém
com uma carreira artística há quarenta anos, e um sucesso inigualável,
deveria ter ao menos noção da relevância da liberdade
de expressão. E Roberto Carlos parece que não entendeu nada"
A cena é repulsiva: o caminhão
parou diante do depósito da editora e recolheu 670 caixas, cada uma delas
com dezesseis exemplares do livro. Carregando 10.700 exemplares, dirigiu-se para
um depósito em Santo André. Ali, os livros poderão ter dois
destinos: ou serão reciclados, rendendo cerca de 2,5 toneladas de papel,
ou queimados numa fogueira.
Eis, em resumo, o desfecho do caso envolvendo o livro Roberto Carlos em Detalhes,
escrito pelo historiador Paulo Cesar Araújo, que foi censurado como resultado
do acordo judicial mais escandaloso e esdrúxulo de que se tem notícia.
É inacreditável que num país livre, em plena vigência
do estado de direito democrático, com uma Constituição que
assegura a liberdade de expressão, tenhamos uma fogueira queimando milhares
de livros. É grotesco e vergonhoso.
A grande fogueira, no entanto, vai queimar mais do que livros. Vai queimar a biografia
mesma de Roberto Carlos e, junto com ela, o respeito que alguns milhares de fãs
têm pelo rei e que se incinerou com sua iniciativa intolerante e
burra. É intolerante porque não há nada, nas 504 páginas
do livro, que possa ser considerado uma invasão de privacidade em se tratando
de uma personalidade pública cuja privacidade, obviamente, é
mais restrita do que a de um cidadão comum. É intolerante porque
o rei não se contentou em retirar do livro trechos supostamente ofensivos
(veja reportagem na página 120). Não, ele quis censurar o
livro todo, todas as 504 páginas, todos os quinze capítulos, tudo.
E, por fim, é uma iniciativa burra porque alguém com uma carreira
artística há quarenta anos, e um sucesso inigualável, deveria
ter ao menos uma noção da relevância da liberdade de expressão
a sua, a dos outros, a de todos. E Roberto Carlos parece que não
entendeu nada. Sua estupidez não lhe deixa ver que a violação
à liberdade de expressão começa proibindo que se diga
algo e, como ensina a história das tiranias, termina exigindo que
se diga outro algo. Já pensou exigir que Roberto Carlos grave Se Eu
Quiser Falar com Deus, a belíssima canção de Gilberto
Gil da qual ele não gosta nem de chegar perto?
A fogueira vai queimar também os dedos da Justiça, na pessoa do
juiz Tércio Pires, que, mesmo sem identificar calúnia, mentira ou
difamação no livro, abençoou o acordo e assassinou a liberdade
de expressão. O estarrecedor é que a censura não decorreu
de um ato autoritário, costurado às escondidas da Justiça.
Foi selado dentro de um tribunal! Na presença de um juiz! E promotor! Será
que um juiz pode promover um acordo que fere um direito constitucional? Criamos
a censura legal? A ditadura judiciária?
A burrice de Roberto Carlos e a indigência da Justiça, associadas
à covardia da editora Planeta, que deveria ter insistido para fazer soar
sua sílaba, são reflexos dos tempos ameaçadores que vivemos.
Uma hora são os pequenos ditadores religiosos querendo, autoritariamente,
impedir a realização de um debate sobre o aborto. Outra hora são
os petistas, do fundo de sua alma totalitária, propondo formas de controlar
o noticiário da imprensa em época de eleição.
E, agora, essa. O rei é intolerante e burro. A justiça é
indigente. E a vítima somos todos nós.