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Com
todas as tintas
Ed Harris encarna o
tumultuado
Jackson Pollock, um dos
maiores pintores americanos
Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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Divulgação
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| Harris,
numa cena em que pratica o "action painting". À dir., Marcia como
Lee Krasner, mulher e incentivadora do pintor |
Jackson
Pollock era um sujeito tão atormentado que, para ele, nem comprar
pão e leite era uma tarefa livre de angústia. Tinha ainda
péssimos modos, era de um egoísmo insondável e, quando
entornava uns copos a mais, tornava-se agressivo e abusivo. Pollock era
também um artista extraordinário. Não só se
tornou o maior expoente do movimento batizado de Expressionismo Abstrato
a arma com que os americanos roubaram aos europeus a primazia nas
artes plásticas, nos anos 40 e 50 , como talvez seja o mais
fabuloso pintor nascido nos Estados Unidos. Pollock, que morreu em 1956,
aos 44 anos, num acidente de automóvel semi-suicida, era também
muito parecido com o ator Ed Harris. Tanto que, ao ver uma biografia do
artista, o pai de Harris tratou de presentear o filho com o livro. Faz
mais de uma década que isso aconteceu e Harris passou toda
ela mergulhado numa obsessão por Jackson Pollock. Aprendeu até
a imitar sua técnica singular, o "action painting", em que o pintor
usa os pincéis não para aplicar a tinta, mas, sim, para
jogá-la sobre a tela. O resultado maior dessa fixação
é o filme Pollock (Estados Unidos, 2000),
que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, Rio e Belo Horizonte.
Nele Harris, de 50 anos, desempenha com notável segurança
as funções de produtor, diretor e protagonista. E, como
sempre, mostra-se exímio em encarnar personagens que mantêm
sua energia intensa abaixo da superfície.
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| Ed
Harris: estréia notável na direção |
Harris flagra Pollock a partir de 1941, numa de suas bebedeiras. Morando
de favor com um de seus irmãos, indisciplinado e já à
beira da desintegração, ele talvez tivesse continuado na
obscuridade, não fosse ter conhecido a também pintora Lee
Krasner (Marcia Gay Harden, que ganhou o Oscar pelo papel). Lee, uma nova-iorquina
muito despachada, percebeu de imediato que estava diante de um talento
incomum. Apaixonada por Pollock talvez mais pelo artista que pelo
homem , tomou as rédeas do relacionamento e da carreira.
Foi por sua influência que Pollock ganhou uma mecenas: Peggy Guggenheim,
a milionária sobrinha do fundador do Museu Guggenheim. Peggy (interpretada
com efervescência por Amy Madigan, mulher de Harris) adorava pintores.
Casou-se com um o surrealista Max Ernst e usou seu dinheiro
para lançar a carreira de vários outros, entre os quais
Pollock.
Um dos pontos fortes de Pollock é a importância que
ele dá à figura de Lee Krasner. Lee também era talentosa,
mas pôs seu trabalho de lado para incentivar o marido. Agüentava
suas explosões, atenuava as afrontas a que ele submetia os amigos
e, cansada de seu alcoolismo, obrigou-o a isolar-se com ela no campo.
Lee, porém, não era nenhum capacho. É admirável
a cena em que, num acesso de fúria, ela explica ao marido por que
não quer ter filhos. "Você consome toda a energia que eu
tenho", acusa. Foi por causa de Lee também que Pollock passou quase
três anos sóbrio, no final dos anos 40. É dessa fase
que datam suas melhores obras, e foi nela que Pollock aprimorou o "action
painting". Até hoje, claro, não falta quem diga que qualquer
criança pode jogar tinta na tela e chamar isso de arte. O vigor
da obra de Pollock, contudo, desmente tais simplificações.
"Não há acidentes na minha pintura", afirmava ele. Em 1951,
enquanto protagonizava um célebre documentário, ele cismou
que tinha sucumbido aos aspectos mais atléticos de sua arte. Acreditando-se
afinal um farsante, voltou a beber e entrou na etapa final de sua autodestruição.
Pollock dizia que pintava paisagens mas as suas paisagens interiores.
"Eu sou a natureza", declarou certa feita. Sem dúvida, tinha muito
o que pintar. De família pobre, mais novo de cinco irmãos
todos pintores , passara por vários tratamentos psiquiátricos
desde a juventude. Esse histórico, porém, é apenas
pincelado no filme. Ed Harris sugere que Pollock tinha uma relação
neurótica com a mãe, mas se abstém de traçar
paralelos entre seus distúrbios e sua arte. Também poupa
a platéia daquelas cenas habituais de "iluminação"
artística. Pollock, o filme, é mais uma constatação
do que uma tentativa de decifrar o enigma que é o artista. E nisso
reside sua força.
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