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"Escolhi
o sexo do bebê"
Ana Araujo
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Depois de ser pai de quatro garotos, o sonho do deputado federal
Ricardo Rique era ter uma filha. Para satisfazer o marido, a atriz
Kristhel Byancco, 38 anos, que nunca teve problema algum de fertilidade,
submeteu-se à fertilização in vitro. Seu objetivo
era escolher o sexo do bebê. Evangélica, ela vacilou
na hora H. Estava preocupada com os embriões masculinos,
pois descartá-los ia contra sua religião. Por sorte,
dos cinco óvulos fecundados surgiram três embriões
femininos, e a gravidez deu certo de primeira. Rebeca nasceu em
agosto do ano passado. Os problemas éticos de Kristhel foram
resolvidos quando abortou naturalmente os outros dois embriões.
"Chorei bastante antes de tomar a decisão", diz Kristhel.
"Mas muitos casais se separam por não conseguir o filho desejado."
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"Eu
adotei um embrião"
Áurea Cunha
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A empresária nordestina tentou sem sucesso engravidar durante
quinze anos. Nada deu certo, porque ela e o marido são estéreis,
casos de difícil solução. Em 1998, perto dos
40 anos, decidiu adotar um embrião. Escolheu entre os milhares
abandonados numa clínica de São Paulo, sobras de inseminações
artificiais. Quem adota nessas circunstâncias não tem,
evidentemente, parentesco genético com o bebê
mas o sentimento de maternidade é genuíno. Depois
de nove meses de gestação, ela deu à luz um
menino. O parto foi até gravado em vídeo. Todo mundo
acha que a criança, hoje com quase 2 anos, é a cara
da mãe. "Agradeço ao casal que me deu esse menininho
maravilhoso", diz a empresária. "Mas jamais quero saber quem
são."
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Pais
com idade de avós
Selmy Yassuda
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Carmosina
e Olair Rodrigues, de Campos, no Estado do Rio, perderam a filha
de 21 anos num acidente de carro, em 1997. O casal, ela professora
e ele aposentado, caiu em depressão. A idéia de ter
um novo filho foi de Olair, aos 50 anos. Carmosina, então
com 47 anos, concordou na hora. Na clínica, foram advertidos
de que as chances eram mínimas. Além da idade, ela
tinha ligado as trompas dez anos antes. Os remédios para
induzir a ovulação deram resultado e os óvulos
foram fertilizados in vitro. Os gêmeos Daniel e Davi nasceram
antes do tempo e passaram três semanas na UTI. Não
há quem não repare na diferença de idade entre
pais e filhos. "Onde eu vou comentam que meus netinhos são
lindos", diz ela. "Respondo com orgulho que são meus filhos."
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Livre
do problema genético
Ricardo Benichio
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Às
vésperas de se casar com David Lopes, em 1994, Cilene descobriu
ser portadora da síndrome do X-Frágil, doença
que em meninos provoca retardamento e morte precoce. Com o resultado
do exame na mão, uma médica a aconselhou a jamais
engravidar. "Meu mundo desabou", diz ela. "Um filho sempre foi o
sonho de minha vida." O casal já tinha adotado uma criança
quando David encontrou a solução numa clínica
de São Paulo: é possível gerar os embriões
em laboratório e saber de antemão o sexo da criança.
Na primeira tentativa, só vieram embriões masculinos.
Na segunda, o embrião feminino não vingou. Deu certo
na terceira vez. Beatriz, hoje com 1 ano e meio, não é
portadora da síndrome. O casal não se arrepende de
ter gasto todas as suas economias, 8 000 reais. "Ela é tudo
que eu quis", diz a mãe.
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Uma
aposta no futuro
Claudio Rossi
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A
professora de educação física Edi Cristina
Cintra, 37 anos, do interior paulista, sabe muito bem o gosto da
frustração. Nos últimos oito anos, já
recorreu a diversas clínicas de fertilização.
Nenhum médico consegue saber por que seu útero não
segura o bebê. "É uma sensação de vazio
enorme", diz ela. "É como estar com os pés e as mãos
atados numa situação em que você mais quer agir
na vida." Um dia leu num jornal a respeito de uma nova técnica
e se ofereceu para a experiência: "Liguei para o médico
e disse: 'vamos fazer agora'". O plano consiste em manter congelado
um pedaço de seu ovário para que no futuro, com novas
técnicas, seja possível uma gestação.
"Não me incomodo de esperar até os 58 anos, o importante
é que vou ter meu próprio filho", afirma Edi.
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AS
TÉCNICAS QUE GARANTEM
A GRAVIDEZ EM LABORATÓRIO
ADOÇÃO
DE EMBRIÕES
Egberto Nogueira
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Implanta-se no útero um dos 20 000 embriões guardados
em tanques de nitrogênio no Brasil, sobras de outras fertilizações
in vitro. A gestação completa e o parto natural garantem
que o bebê seja registrado como filho legítimo, ainda
que sem parentesco genético com a mãe.
Recomendada: para mulheres que não produzem óvulos
e são casadas com homens totalmente inférteis; para as que já tentaram
sem sucesso outras técnicas de fertilização
MATURAÇÃO
DE ESPERMÁTIDES
Retira-se
um pedaço do tecido do testículo onde estão
as espermátides (o estágio final da célula
antes de se transformar em espermatozóide). Faz-se o amadurecimento
artificial dessas espermátides, que se transformam em espermatozóides
e podem fecundar um óvulo.
Recomendada: para homens que não produzem espermatozóides
FERTILIZAÇÃO
IN VITRO
Fotos Centro de Pesquisa Roger Abdelmassin
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É
a técnica pioneira na fertilização assistida.
Os óvulos são retirados do ovário da mulher e
fertilizados com espermatozóides do marido em laboratório.
Podem-se também utilizar óvulos e espermatozóides
doados. Os embriões resultantes são recolocados no útero,
dando início a uma gravidez normal.
Recomendada: como primeira tentativa em casos de infertilidade,
pois é mais simples e barata
ICSI
Um
espermatozóide é injetado diretamente no interior
do óvulo, aumentando as chances de sucesso. Passou a ser
usada no Brasil em 1993, paralelamente à fertilização
in vitro. A vantagem é superar a dificuldade de o espermatozóide
penetrar o invólucro do óvulo.
Recomendada:
para casais em que o marido produz poucos espermatozóides
ou espermatozóides defeituosos
CENTRIFUGAÇÃO
DE ESPERMA
Alexandre Tokitaka
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A centrifugação do esperma separa o vírus da
Aids dos espermatozóides. Há 95% de chances de o esperma
ficar livre do HIV.
Recomendada: permite que homens soropositivos tenham
filhos sem a doença
ASSISTED
HATCHING
Os embriões criados em laboratório têm a membrana
externa mais grossa que a dos gerados de forma natural. Por isso,
apenas 15% dos embriões transferidos para o útero
conseguem se fixar com sucesso. A dificuldade de fixação
é contornada com um pequeno corte nessa membrana, feito com
laser ou solução ácida.
Recomendada: para mulheres com dificuldade de fixação
do embrião no útero
DOAÇÃO DE ÓVULOS
O óvulo doado por uma mulher sadia é fecundado com
o espermatozóide do marido da mulher estéril e implantado
em seu útero. Apesar da gestação completa,
a criança terá apenas 50% da carga genética
do casal.
Recomendada:
para mulheres que produzem óvulos debilitados ou
para pacientes mais velhas, cujos óvulos são fracos
ou deixaram de ser produzidos
DOAÇÃO
DE SÊMEN
O óvulo é fecundado por espermatozóide de doador
anônimo e reimplantado na mulher. A criança terá
apenas 50% da carga genética do casal.
Recomendada:
para casais em que o homem é totalmente estéril
e a mulher é saudável
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O
QUE VEM POR AÍ
Técnicas ainda em fase experimental no Brasil
TROCA DE CITOPLASMA
Os médicos injetam parte do citoplasma do óvulo de
uma mulher jovem e saudável no óvulo de uma mulher
mais velha ou com problemas de ovulação. O resultado
é um óvulo rejuvenescido. Proibida em muitos países,
a técnica já resultou no nascimento de cerca de trinta
brasileirinhos.
Recomendada: para mulheres em idade madura ou com
óvulos debilitados
CRIAÇÃO DE ÓVULO
Consiste na criação de um óvulo artificial
a partir da transformação de uma célula qualquer
do corpo (com 46 cromossomos) em uma célula reprodutiva (com
23 cromossomos). Para criar o óvulo, o miolo genético
do óvulo doente é substituído pelos cromossomos
da célula comum. Com uma descarga elétrica, divide-se
a cadeia de 46 cromossomos em duas de 23. Uma dessas cadeias é
retirada. O resultado é um óvulo saudável,
pronto para ser fertilizado com o espermatozóide do pai.
Há um embrião congelado em São Paulo, pronto
para ser implantado.
Recomendada: para mulheres que têm óvulos
debilitados ou não produzem
TRANSPLANTE
DE NÚCLEO
O núcleo do óvulo defeituoso é transferido
para o de uma doadora saudável, cujo material genético
foi removido. A técnica é proibida em outros países,
pois se teme que vestígios do núcleo original possam
acarretar anomalias. Até agora não resultou em gestação.
Recomendada: para mulheres mais velhas ou com óvulos
doentes que querem ter filhos sem utilizar óvulos doados
CONGELAMENTO DE TECIDO OVARIANO
Congela-se um pedaço do tecido ovariano com folículos
(óvulos imaturos) para preservar a idade reprodutiva da mulher.
Assim, uma mulher que congelou seu tecido aos 20 anos poderá
ter um filho aos 50, mas com um óvulo trinta anos mais novo.
É, por enquanto, uma aposta no futuro, pois falta descobrir
como transformar o folículo em óvulo sadio. A solução
é prevista para 2005.
Recomendada: para mulheres que desejam ter filhos
em idade madura, mulheres com câncer submetidas a quimioterapia
ou com problemas ainda sem solução clínica
CONGELAMENTO DE ÓVULOS
A técnica é utilizada em caráter experimental
em vários países. A dificuldade decorre da fragilidade
do óvulo. Diferentemente do espermatozóide, ele costuma
estourar ao ser descongelado. Mesmo quando resiste intacto ao processo,
há perda de qualidade, aumentando o risco de má-formação
do feto. Já resultou em nascimentos no exterior. No momento,
uma brasileira está gravida de óvulos congelados por
três anos.
Recomendada: para mulheres que desejam ter filhos
depois da menopausa ou estejam para se submeterem a tratamento quimioterápico
para o câncer
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ENQUANTO
ISSO, NOS ORFANATOS...
Elena Vettorazzo
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| À
espera de adoção: só bebês têm
chance |
A
vitória da medicina sobre a infertilidade pode estar causando
vítimas indesejadas: as crianças órfãs.
O número de casais interessados em adotar diminuiu 20% nos
últimos três anos no Estado de São Paulo, indício
de mudança no comportamento dos casais sem filho. "Até
pouco tempo atrás, era comum os órfãos serem
rejeitados por motivos raciais ou de idade", diz o psicólogo
Fernando Freire, especialista em adoção. "Hoje, até
os bebês recém-nascidos, brancos e do sexo feminino,
que eram adotados imediatamente, estão ficando nos orfanatos."
Pesquisas feitas com casais que freqüentam clínicas
de fertilização mostram que praticamente nenhum deles
admite a hipótese de assumir como sua uma criança
que não tenha sido gerada pela mulher exceto se fracassarem
todas as possibilidades de inseminação artificial.
Casais de classe média são tradicionalmente os que
mais adotam. São também os que mais recorrem à
reprodução assistida. Ela não custa barato,
mas em geral cabe no orçamento da classe média, mesmo
que seja preciso vender o carro. A opção por gerar
a criança, mesmo que implique penosa maratona médica,
tem uma vantagem adicional, nada desprezível: livra o casal
do espinhoso processo burocrático da adoção
e do receio de que o filho adotivo não se adapte à
família. A tendência é desastrosa para o futuro
das 200.000 crianças nos abrigos. Depois do quarto aniversário,
a chance de que qualquer uma delas venha a ser adotada cai para
perto de zero.
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"LOGO
TEREMOS A CLONAGEM"
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| Peter
Brinsden, um dos pais do bebê de proveta: dilema vem do poder
de criar vida |
O médico inglês Peter Brinsden é um dos mais
respeitados especialistas em fertilização assistida.
Diretor da clínica Bourn Hall, nos arredores de Londres,
ele participou da equipe que trouxe ao mundo o primeiro bebê
de proveta, em 1978. Em entrevista a VEJA, ele diz que está
orgulhoso dos avanços em sua área de especialização,
mas também preocupado com o impacto da tecnologia reprodutiva
no relacionamento humano.
Veja
A fertilização assistida é a área
da medicina que mais avançou nos últimos anos, mas
também é das mais criticadas por intervir na criação
da vida. O que o senhor pensa a respeito?
Peter Brinsden Desde o nascimento de Louise Brown,
em 1978, demos um salto gigantesco. Fizemos 300 tentativas fracassadas
para Louise nascer. Hoje, a tecnologia garante gravidez a muitas
mulheres. O único problema é que também nos
permite fazer coisas que nunca fizemos antes.
Veja Por que isso é um problema?
Brinsden Há vários outros. Um é
a ameaça da clonagem. Minha experiência diz que, dentro
de cinco anos, casais que perderam o filho logo após o parto
já vão poder, legalmente, clonar esse filho. Trata-se
de uma questão complexa. Não sabemos até que
ponto isso é correto ou não. Fomos ensinados na infância
que Deus era o criador da vida e logo teremos esse poder nas mãos.
Acredito que os médicos sérios vivem um grande conflito
pessoal.
Veja
Quais são os outros?
Brinsden Um dilema tão forte quanto o da clonagem
é o descarte de embriões. São milhares em todo
o mundo, congelados e abandonados pelos pais. Quando decidimos queimá-los,
porque não há outra saída, pessoas ameaçam
nos pôr na cadeia. Dizem que estamos matando seus filhos.
Eles se esquecem de que esses embriões só existem
por causa do egoísmo deles próprios. Eles fazem tudo
por um filho e pagam por isso. Depois do parto, não pensam
mais no que restou. Infelizmente, vida é um negócio
para nós. Temos de atender os nossos clientes.
Veja
O senhor acredita que são necessárias leis
para amenizar essa situação?
Brinsden Quando se trata de relações
humanas, as leis resolvem pouco. Não há dúvida
de que a fertilização artificial complicou bastante
as relações humanas. Desde o tratamento sofrido que
separa casais até doadoras de embriões que querem
saber onde está o filho que deram a outra mãe. Não
existe lei que vá contra o instinto do ser humano. É
muito difícil estabelecer parâmetros.
Veja
Qual é hoje o principal desafio da fertilização
assistida?
Brinsden Na minha opinião, estamos próximos
do sucesso total. Por isso, mais do que conseguir técnicas
mirabolantes, temos de pensar em aprimorar o que já temos.
Nosso maior desafio é evitar a gravidez múltipla.
Nove em cada dez casais que se submetem às técnicas
têm gêmeos, trigêmeos ou quadrigêmeos, nem
sempre 100% saudáveis. Queremos que nasça um filho
só e saudável. Isso é o mais complicado. O
pior de tudo é que há casais que preferem ter vários
de uma vez. Um deles me disse um dia que é melhor levar três
pelo preço de um.
|
Com
reportagem de
Rachel Verano

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