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Edição 1 699 - 9 de maio de 2001
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As roupas sumiram

As lojas das grifes de luxo têm muito
visual e quase nenhum vestido

Bel Moherdaui

 
Fotos Pedro Rubens
Divulgação
Divulgação
Giorgio Armani, em São Paulo, com seu estilo totalmente clean, da vitrine aos corredores, e o jeito de cenário de ficção científica da Comme des Garçons, em Paris, onde os bancos da sala de estar são blocos deslizantes movidos a controle remoto: furor arquitetônico

A grife italiana Giorgio Armani iluminou pela primeira vez na semana passada sua estreita vitrine em São Paulo, por onde se insinua a visão do novo quartel-general da marca na América Latina. Mais do que as roupas, elegantíssimas, como seria de esperar, o que chama a atenção é a loja em si, um exemplo perfeito do conceito de arquitetura e decoração criado para a marca pelo italiano Claudio Silvestrin. Ao todo, são 620 metros quadrados divididos em dois andares claros, despojados e semivazios. A idéia de fazer lojas espetaculares do ponto de vista da arquitetura e parcimoniosas em matéria de, perdão pela vulgaridade, mercadorias não é exclusiva da Armani. As grandes grifes de luxo, no exterior, e agora algumas das nacionais mais conhecidas, aceleraram nos últimos meses a seqüência de inaugurações do gênero. Cada qual abre uma loja maior e mais moderna que a outra, produtos de um frenesi de "reformulação do conceito arquitetônico" que se traduz por ampliação de espaços, estilo minimalista, iluminação caprichada, belíssimas escadas (obrigatórias) e poucas, pouquíssimas peças em exposição. "Para os grandes empresários da moda, o que conta agora é arquitetura", brinca a celebrada colunista de moda Suzy Menkes, do International Herald Tribune.

Entre as grifes nacionais, a Forum foi a primeira a aderir ao movimento que faz dos apregoados "templos de consumo", segundo o velho clichê, uma edificação com jeito e pé-direito de templo, mesmo. Inaugurada em setembro, sua loja de 1.200 metros quadrados e duas entradas diferentes é ampla e clara, com móveis brancos e iluminação natural. No alto da escada de pastilhas de vidro vermelhas que já virou uma espécie de marca registrada, o toque de brasilidade chique, obrigatório para quem quer se distinguir em meio a tantas lojas parecidas, é dado por uma parede de taipa (nem pense em usar o sinônimo prosaico, pau-a-pique). Alguns poucos manequins e cabides colocados dentro de uma espécie de armário embutido sem portas exibem as peças da coleção, como se fossem preciosidades num museu. Assinada pelo arquiteto Isay Weinfeld, a loja de roupas é um primor de decoração. "De um tempo para cá, a arquitetura voltou a emocionar as pessoas em geral e principalmente aquelas ligadas à moda. Elas estão percebendo o quanto é importante seu negócio ter a cara do seu estilo", comenta Weinfeld.

Fotos divulgação
Fotos Divulgação
Escada de vidro da Zoomp, em São Paulo, e cabideiros arredondados da Marni, em Milão: o branco nem sempre impera, mas vidro e aço não faltam em nenhum projeto de megaloja moderna

O objetivo de tanto espaço e tão poucos vestidos e bolsas, dizem os arquitetos em coro, é ressaltar e valorizar as peças mostradas. Para clientes escolados, admiradores do conceito da marca (mais outro clichê inevitável), funciona. Para os menos íntimos, os produtos acabam escondidos demais. Como moda é moda, não há como fugir à onda. Brancas, clean e sem uma única prateleira lotada são as novas lojas paulistanas da Ellus e da Iódice. A Zoomp, que acaba de inaugurar sua megaloja de 500 metros quadrados em três andares, é uma das poucas nacionais que não apostam no branco absoluto. Mas o arquiteto Felippe Crescenti confiou em outros elementos recorrentes: muitos espelhos, escada de vidro, jardim interno com muro de toras de eucalipto (olha aí o caipira chique de novo), bar e até um espelho-d'água. "Aqui, o produto sobressai. A loja vira um espaço em que as pessoas entram com facilidade, sem se intimidar", garante o dono da marca, Renato Kherlakian. Ele calcula que, na loja reformada e ampliada, o faturamento duplicou.

O furor minimalista se espalha pelo planeta. A italiana Gucci fez parceria entre seu diretor de criação, Tom Ford, e o arquiteto americano William Sofield para inaugurar sua versão da arquitetura conceitual em voga. "Quisemos criar um projeto arquitetônico com a cara de nossas roupas e acessórios: moderno, seco e sexy", resumiu Ford. Na Gucci, as cores predominantes são preto, bronze e cinza, com muitas superfícies brilhantes. A mudança de linguagem contagiou a italiana Fendi, que inaugurou em fevereiro sua primeira loja em Paris, onde os produtos são expostos, entre outros locais improváveis, na escada de aço e vidro que parece suspensa no ar. A Prada não ficou atrás: em março, cortou a fita de sua loja nova em Milão, e prepara-se para inaugurar as de Tóquio, Nova York (no ultrabadalado SoHo), Los Angeles e San Francisco. A maior expectativa gira em torno da loja do SoHo, prometida para junho, onde se prevêem provadores concorridíssimos. Neles, uma tela de plasma ligada a um sistema de vídeo mostrará a parte de trás da roupa sem que se precise torcer o pescoço; o vidro das portas ficará opaco ao toque de um botão; um sistema de aclimatação permitirá que as clientes experimentem no inverno, sem tiritar, a coleção de verão.

 
Divulgação
A amplidão minimalista e a iluminação que dão um ar de templo de verdade à Prada de Milão e a escada vermelha fazendo contraponto aos ambientes claros da Forum de São Paulo: "A arquitetura voltou a emocionar as pessoas, principalmente aquelas ligadas à moda"
Pedro Rubens

Como a maioria dos projetos exibe semelhanças várias, ganha pontos quem ousa mais. A italiana Marni, grife de modernetes, tem nas lojas de Milão e Londres cabideiros que parecem saídos de uma nave espacial – onde, excepcionalmente, aparecem muitas roupinhas penduradas. Nada se compara, porém, à Comme des Garçons de Paris, inaugurada em abril. Mistura de cenário de filme de ficção científica com bar do tipo descoladíssimo, a loja da estilista Rei Kawakubo, a imperatriz do minimalismo, é um assombro. Do longo balcão de acrílico às paredes e teto de fibra de vidro, ou à mesa com pés em formato de patas de elefante, quase tudo é vermelho-vivo. Uma inusitada sala de estar, também vermelha, parece totalmente vazia. De repente, a surpresa: disfarçados na parede estão bancos em forma de cubos (vermelhos, claro) que, controlados por controle remoto, deslizam pelo chão. Num ambiente desses, parece até pecado pensar em fazer umas comprinhas.

   
 
   
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