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As roupas sumiram
As
lojas das grifes de
luxo têm muito
visual
e quase nenhum
vestido
Bel Moherdaui
Fotos Pedro Rubens
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Divulgação
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Divulgação
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| Giorgio
Armani, em São Paulo, com seu estilo totalmente clean, da vitrine
aos corredores, e o jeito de cenário de ficção científica da Comme
des Garçons, em Paris, onde os bancos da sala de estar são blocos
deslizantes movidos a controle remoto: furor arquitetônico |
A
grife italiana Giorgio Armani iluminou pela primeira vez na semana passada
sua estreita vitrine em São Paulo, por onde se insinua a visão
do novo quartel-general da marca na América Latina. Mais do que
as roupas, elegantíssimas, como seria de esperar, o que chama a
atenção é a loja em si, um exemplo perfeito do conceito
de arquitetura e decoração criado para a marca pelo italiano
Claudio Silvestrin. Ao todo, são 620 metros quadrados divididos
em dois andares claros, despojados e semivazios. A idéia de fazer
lojas espetaculares do ponto de vista da arquitetura e parcimoniosas em
matéria de, perdão pela vulgaridade, mercadorias não
é exclusiva da Armani. As grandes grifes de luxo, no exterior,
e agora algumas das nacionais mais conhecidas, aceleraram nos últimos
meses a seqüência de inaugurações do gênero.
Cada qual abre uma loja maior e mais moderna que a outra, produtos de
um frenesi de "reformulação do conceito arquitetônico"
que se traduz por ampliação de espaços, estilo minimalista,
iluminação caprichada, belíssimas escadas (obrigatórias)
e poucas, pouquíssimas peças em exposição.
"Para os grandes empresários da moda, o que conta agora é
arquitetura", brinca a celebrada colunista de moda Suzy Menkes, do International
Herald Tribune.
Entre as grifes nacionais, a Forum foi a primeira a aderir ao movimento
que faz dos apregoados "templos de consumo", segundo o velho clichê,
uma edificação com jeito e pé-direito de templo,
mesmo. Inaugurada em setembro, sua loja de 1.200 metros quadrados e duas
entradas diferentes é ampla e clara, com móveis brancos
e iluminação natural. No alto da escada de pastilhas de
vidro vermelhas que já virou uma espécie de marca registrada,
o toque de brasilidade chique, obrigatório para quem quer se distinguir
em meio a tantas lojas parecidas, é dado por uma parede de taipa
(nem pense em usar o sinônimo prosaico, pau-a-pique). Alguns poucos
manequins e cabides colocados dentro de uma espécie de armário
embutido sem portas exibem as peças da coleção, como
se fossem preciosidades num museu. Assinada pelo arquiteto Isay Weinfeld,
a loja de roupas é um primor de decoração. "De um
tempo para cá, a arquitetura voltou a emocionar as pessoas em geral
e principalmente aquelas ligadas à moda. Elas estão percebendo
o quanto é importante seu negócio ter a cara do seu estilo",
comenta Weinfeld.
Fotos divulgação
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Fotos Divulgação
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| Escada
de vidro da Zoomp, em São Paulo, e cabideiros arredondados da Marni,
em Milão: o branco nem sempre impera, mas vidro e aço não faltam em
nenhum projeto de megaloja moderna |
O
objetivo de tanto espaço e tão poucos vestidos e bolsas,
dizem os arquitetos em coro, é ressaltar e valorizar as peças
mostradas. Para clientes escolados, admiradores do conceito da marca (mais
outro clichê inevitável), funciona. Para os menos íntimos,
os produtos acabam escondidos demais. Como moda é moda, não
há como fugir à onda. Brancas, clean e sem uma única
prateleira lotada são as novas lojas paulistanas da Ellus e da
Iódice. A Zoomp, que acaba de inaugurar sua megaloja de 500 metros
quadrados em três andares, é uma das poucas nacionais que
não apostam no branco absoluto. Mas o arquiteto Felippe Crescenti
confiou em outros elementos recorrentes: muitos espelhos, escada de vidro,
jardim interno com muro de toras de eucalipto (olha aí o caipira
chique de novo), bar e até um espelho-d'água. "Aqui, o produto
sobressai. A loja vira um espaço em que as pessoas entram com facilidade,
sem se intimidar", garante o dono da marca, Renato Kherlakian. Ele calcula
que, na loja reformada e ampliada, o faturamento duplicou.
O furor minimalista se espalha pelo planeta. A italiana Gucci fez parceria
entre seu diretor de criação, Tom Ford, e o arquiteto americano
William Sofield para inaugurar sua versão da arquitetura conceitual
em voga. "Quisemos criar um projeto arquitetônico com a cara de
nossas roupas e acessórios: moderno, seco e sexy", resumiu Ford.
Na Gucci, as cores predominantes são preto, bronze e cinza, com
muitas superfícies brilhantes. A mudança de linguagem contagiou
a italiana Fendi, que inaugurou em fevereiro sua primeira loja em Paris,
onde os produtos são expostos, entre outros locais improváveis,
na escada de aço e vidro que parece suspensa no ar. A Prada não
ficou atrás: em março, cortou a fita de sua loja nova em
Milão, e prepara-se para inaugurar as de Tóquio, Nova York
(no ultrabadalado SoHo), Los Angeles e San Francisco. A maior expectativa
gira em torno da loja do SoHo, prometida para junho, onde se prevêem
provadores concorridíssimos. Neles, uma tela de plasma ligada a
um sistema de vídeo mostrará a parte de trás da roupa
sem que se precise torcer o pescoço; o vidro das portas ficará
opaco ao toque de um botão; um sistema de aclimatação
permitirá que as clientes experimentem no inverno, sem tiritar,
a coleção de verão.
Divulgação
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A
amplidão minimalista e a iluminação que dão um ar de templo de verdade
à Prada de Milão e a escada vermelha fazendo contraponto aos ambientes
claros da Forum de São Paulo: "A arquitetura voltou a emocionar as
pessoas, principalmente aquelas ligadas à moda" |
Pedro Rubens
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Como
a maioria dos projetos exibe semelhanças várias, ganha pontos
quem ousa mais. A italiana Marni, grife de modernetes, tem nas lojas de
Milão e Londres cabideiros que parecem saídos de uma nave
espacial onde, excepcionalmente, aparecem muitas roupinhas penduradas.
Nada se compara, porém, à Comme des Garçons de Paris,
inaugurada em abril. Mistura de cenário de filme de ficção
científica com bar do tipo descoladíssimo, a loja da estilista
Rei Kawakubo, a imperatriz do minimalismo, é um assombro. Do longo
balcão de acrílico às paredes e teto de fibra de
vidro, ou à mesa com pés em formato de patas de elefante,
quase tudo é vermelho-vivo. Uma inusitada sala de estar, também
vermelha, parece totalmente vazia. De repente, a surpresa: disfarçados
na parede estão bancos em forma de cubos (vermelhos, claro) que,
controlados por controle remoto, deslizam pelo chão. Num ambiente
desses, parece até pecado pensar em fazer umas comprinhas.
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