Raimundo Nonato, o arquetípico
migrante nordestino, chega a São Paulo com uma mala velha,
passa o dia vagando sem rumo pela cidade e, a horas tantas,
cansado e faminto, entra num boteco do centrão, come
dois salgadinhos e cai no sono no balcão. Na hora de
fechar, o dono descobre o óbvio: cadê o dinheiro
para pagar o lanche? Então se inicia a curiosa saga do
protagonista de Estômago (Brasil/Itália,
2008), que estréia nesta sexta-feira no país.
Em troca da conta, ele terá de lavar a louça.
No dia seguinte, vai ter de aprender a fazer pastel e coxinha.
Ocorre que Raimundo é um cozinheiro nato, e logo o bar
que vivia às moscas estará lotado de fregueses
entre os quais a prostituta Íria, que come as
tais coxinhas com um prazer que causa vertigens ao seu criador.
É por força de seu talento que Raimundo pulará
dali para o fogão de uma cantina italiana (agora com
salário e benefícios) e ganhará algum espaço
no coração de Íria. Mas, como desde o início
se sabe que ele acabou na prisão, é de imaginar
que, em outras áreas, sua virtude não seja assim
tão exaltada. O que ele fez para interromper uma carreira
tão auspiciosa, e como evitará ser devorado pelos
colegas de cela: eis as duas questões que Estômago
vai deslindando com habilidade, enquanto simultaneamente homenageia
e parodia um personagem clássico do cinema, o do cozinheiro
que seduz a todos com seu tempero todos, aqui, sendo
não gourmets, mas freqüentadores de botecos pouco
higiênicos, presidiários e prostitutas.
Dirigido por Marcos Jorge, estreante em longa-metragem mas profissional experiente
na televisão italiana, na publicidade e nas artes plásticas, Estômago
tem lá seus vícios. A saber, aquela propensão nacional para
encher os diálogos de palavrões, onde eles cabem e também
onde são supérfluos. Mas compensa seus pecadilhos com a direção
fluente, imaginativa e salutarmente despretensiosa. Compensa-os, acima de tudo,
na escolha dos protagonistas: o baiano João Miguel, de Cinema, Aspirinas
e Urubus, que tem um dom para ao mesmo tempo fazer cara de paisagem e ser
expressivo, e a novata Fabiula Nascimento, que enche Íria de calor e espirituosidade.
Estômago talvez não seja para todos os gostos. Mas Jorge acerta
tão bem a mão nos fundamentos básicos do cinema (entre os
quais a trilha encomendada ao italiano Giovanni Venosta, excelente acompanhamento
para a história) que não deixa muita dúvida: há chef
novo na cozinha.